O que é o amor?, questionou-se Emília num impulso que a acometeu logo pela manhã. Ela sempre acordava pensativa, mas quase nunca conseguia se lembrar de tudo o que perguntava a si mesma ao fim do dia. Sabendo que tinha pouco tempo para sua investigação, decidiu entrevistar alguns entes queridos e anotar em seu caderninho, mas antes, algo lhe veio à mente.

Pensou em seu cachorro, Bob, um vira-lata brincalhão e sadio que encontrou na rua e, que depois de segui-la por dois quarteirões, a convenceu de que merecia mesmo um lar. Seu coração ele já havia conquistado só pelo olhar, mas ela sabia que precisava da permissão dos pais e, por isso, relutou em levá-lo pra casa de início.

Bob era leal, amoroso e nunca guardava rancor, mesmo quando ela demorava a chegar. sempre a postos abanando a cauda e mostrando os dentes como se quisesse sorrir. Ele foi aceito pelos pais por causa dela e todo o seu discurso sobre como um cãozinho pode sofrer nas ruas, isso para Emília era amor: saber que o outro precisa de nós e acolhê-lo, mas ela precisava saber se era mesmo isso, se havia mais alguma coisa que ainda não tivesse pensado ou vivido.

Sem chegar à uma conclusão, perguntou à sua romântica mãe, ao pai adepto de futebol, à avó doceira e ao avô apreciador de automóveis e cada um lhe dá uma resposta, todas diferentes. A mãe responde mostrando à ela o velho álbum de família, com fotos desde sua infância e a do marido, até as fotografias em que eles estavam na idade em que se conheceram. O lugar do primeiro beijo, o jantar de noivado, o belo casamento e até os exames de gravidez, tudo ali significava amor,  era o resumo perfeito.

O pai exitou um pouco antes de dar a resposta, primeiro porque estava em frente à televisão e não queria perder nenhum lance do jogo, mas algo em si falou mais alto, abaixou o volume  da tv e, olhando para a filha, respondeu:

– Amor é o que eu sinto por você, filha! Daria minha vida pela sua. Eu e sua mãe  trabalhamos todos os dias para dar a você o futuro que merece. Somos uma família por isso, porque há amor aqui.

A menina sorriu, mas seguiu empenhada em colher mais informações, pegou sua bicicleta e foi até a casa da avó no final da rua e, da porta, já pôde sentir o cheirinho de café coado. A senhora esguia, de cabelos brancos e olhos brilhantes, contou sua história de vida, mostrou algumas fotos, e finalmente disse:

– Minha querida, o amor é o nosso combustível, é tudo o que nos dá força e nos faz ainda querer levantar todas as manhãs. Se eu não tenho tanto amor dentro do peito, talvez não tivesse hoje a vida que tenho, nem essas pessoas ao meu redor

Após ouvir atentamente tudo o que a avó dizia, respirou fundo e se levantou. Era chegada a hora de perguntar ao avô.

Ela já havia tomado seu café, beliscado um bom pedaço de bolo, e por isso, foi liberada pelos olhos atentos da senhora que  jamais a deixaria ir sem antes se alimentar.

Emília se despediu da avó, pedalou por alguns minutos por uma estradinha sem asfalto, e avistou de longe o local em que o viu pela última vez.

– Ah! Vovô, nem precisa me dizer. Amor é o que sinto agora, porque mesmo que o senhor tenha partido, sinto sua presença e isso me basta. Gostaria de tê-lo comigo, mas prefiro ficar sem você a vê lo chorar e sentir dor, sei que onde está não há mais sofrimento.

Voltou pra casa sabendo que não importa como explicamos ou falamos sobre ele, o amor existe e é tão poderoso que cada um explica do jeito que sente. Mais do que nunca, naquele dia, soube que poderia confiar no amor até seu último suspiro e que são infinitas as maneiras de representação, mas o mais importante é que todas elas trazem acalento.

Mas por que, mesmo sendo tão simples, sentimos necessidade de explicar o que é o amor? Não nos basta sentir, assim como bastou para Emília? A verdade é que, a medida em que vamos crescendo, acabamos deixando de lado a simplicidade de muitas coisas, inclusive as mais importantes para nós.

Eu sei, parece muito fácil acreditar no amor de uma mãe, de um pai presente, e até mesmo no amor de quem já se foi, porque, indiscutivelmente, nossa maior dificuldade é, quase sempre, em relação à crer ou não no amor romântico, na veracidade dos​ sentimentos​ de quem escolhemos para nos dar a mão.

Acreditar no amor? Sempre. Acreditar nas relações humanas? Só quando sentir que realmente vale a pena. Parece fácil pra você? Não, realmente, não é. Sabemos que, nem sempre, estaremos certos e que decepções fazem parte da vida, mas nunca, ou quase nunca, estamos preparados para quando isso acontece com a gente. Sentir na pele dói, é delicado, mas, infelizmente, faz parte do pacote. Ninguém pode nos dar a garantia de um amor sem dores, porque até mesmo um amor tão puro como o amor materno, corre o  risco de fazer sangrar.

O que precisamos, acima de tudo, é não dar espaço demais para o medo, porque ele nos faz ter limites e saber a hora de parar, mas em excesso nos paralisa e tira toda a graça em existir, porque nos rouba as possibilidades de experiências.

Não, não é tão simples como parece, as frases feitas podem até encantar, chamar nossa atenção, mas se não tocar a alma, não irá funcionar. Na tentativa de entender melhor as situações que vivenciamos, procuramos dicas, conselhos e até a opinião de pessoas próximas, mas a verdade é que o que importa mesmo é a nossa visão sobre o que nos acontece, a forma como encaramos e o que pode ser absorvido como lição para o nosso processo de amadurecimento.

Antes de crer em alguma coisa, é preciso antes, assim como Emília, sentir, pois o sentido é tudo o que nos move.

O amor vai muito além daquele entre casais e antes de amar o outro, é crucial que nos amemos e é aí que se deve prestar  atenção para ser capaz de enxergar a linha tênue entre acreditar no amor e acreditar no ser que amamos.

O amor é daqueles em que primeiro é preciso acreditar para depois pensar melhor em como agir, se deixarmos de acreditar nele, o que será de nós?

Não é o amor que nos decepciona, são as pessoas e principalmente, nós mesmos, porque colocamos expectativas em uma relação que nem mesmo nós sabemos se será tudo aquilo que sonhamos e queremos. Sempre devemos confiar no amor, porque não é ele quem nos trai, somos nós, o outro, ou a nossa estranha mania de achar que tudo tem que ser perfeito quando nada na vida é.

Se alguém me perguntar: “até que ponto acreditar no amor?” Com a ternura que tia Emília me ensinou, responderei: até o ponto em que seu coração esteja em paz, mesmo em pleno voo, porque se nada sabemos do futuro, o que nos cabe então é amar antes que seja tarde.

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Camila Bertelli

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