Chego em casa. Abro a porta, entro e a tranco. Vou até a cozinha, abro a geladeira, e nada encontro pra comer. Quando foi a última vez que fiz compras? Abro o armário e pego uma garrafa de vinho, me sirvo um copo. Me sento no sofá, olhando para a janela. Bebo um gole, dois. Acendo um cigarro. Levanto, vou até meu quarto. Abro a primeira gaveta da cômoda, e lá está. Um antigo retrato seu, nem parece estar a tanto tempo assim ali, já tem cheiro de foto velha.

Você, sentada na cadeira, com aquela minha velha camisa que gostava de vestir, lhe parecia mais um vestido sejamos sinceros. Cabelos soltos. Segurando uma flor. Um sorriso largo no rosto. Linda de se ver. E o cheiro de foto velha. Apago o cigarro. Volta para o sofá, a foto ainda em minhas mãos. Tomo mais um pouco do vinho. Ainda olhando a foto inerte.

O que foi que aconteceu? Porque nossos sentimentos tomaram rumos distintos? Ou fui eu? Ou foi você? Ou foi o Amor? O que aconteceu? Nada me vem à mente. Mas me vem você. Mais vinho. Sua foto parece tomar forma, e você está sentada ao meu lado. Ou será efeito do vinho? Não faz diferença, bebo mais.  Você agora do meu lado, sentada no canto como sempre fazia, lendo um livro. É tão real.

Eu te olho da cabeça aos pés. Você me olha do canto dos olhos, e me dá um sorriso. Diz estar cansada, pede para deitar em meu colo. Dou um sinal afirmativo com a cabeça, me ajeito no sofá e você se deita. Deixo o copo de vinho na mesa do telefone, e começo a acariciar seus cabelos. Sinto a maciez, o perfume. Um louro tão valioso como ouro. Minha mão direita repousa em seu braço. Sinto sua pele fria. Sem me mexer muito pego a coberta que está no encosto do sofá. Lhe cubro. Adormeceu rápido. Percebo que está sonhando, está com um sorriso meio tímido. O que será que está sonhando? Me pergunto.

Será que quando se deita a noite ainda sonha comigo? E quando acorda, sente falta de meu bom dia? Será que ainda tem guardado o presente do último dia dos namorados? Ainda prepara o pão com queijo derretido que eu ensinei, ou cortou o queijo da dieta? Será que ainda tem a mania de escrever recados e deixar no canto do espelho para não se esquecer dos afazeres? Será que ainda me tem perturbando os seus pensamentos? Não importa. Você sempre continuou habitando meus sonhos.

Não te esqueci. Nem pretendo. Você está aqui, deitada no meu colo. Dormindo, sonhando. Me lembro das segundas feiras. Era nosso dia favorito. Sentávamos no chão da sala, e relembrávamos o final de semana. Conversando e rindo. Lembro também dos momentos em que estava apreensiva com alguma coisa, e se encostava em meu ombro. Não gostava de sair de carro, era do tipo que gostava sempre de uma boa caminhada e conversas.

Sem perceber, como que num movimento automático tomo mais vinho. E continuo a relembrar nossa história. Me lembro de suas gargalhadas exageradas, no caminho para casa, numa madrugada de sexta para sábado. Sexta era o dia de irmos até aquele barzinho que sempre tocava jazz, e tinha um ar rustico que você adorava. Lembro do cheiro da sua roupa, recém lavada, mas tinha o cheiro de você. Lembro perfeitamente de suas medidas que se encaixavam em mim nas noites frias. E da sua mania de balançar a perna enquanto tomava o café da manhã. E das vezes em que ficava em frente ao computador e nem me dava atenção enquanto eu falava. Eu lembro e ainda sinto o seu amor.

Um vento frio que entra pela janela, passa por mim e me tira desse transe. Olho para meu colo e você não está mais ali. Olho para meu copo. Está vazio. Mais uma noite solitário. Mais vinho.

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Josias Gonçalves