De todas as histórias possíveis do mundo, minha preferida é a que ainda não foi escrita por ninguém e paira no fundo dos pensamentos de uma mente povoada pelas lembranças de afeto. É necessário escrevê-las, mas alguns detalhes ainda são imunes ao entendimento. Indomáveis, as letras fogem e é necessário mergulhar em direção a elas e penetrar surdamente  no reino das palavras, lá onde estão os poemas que esperam ser escritos, como disse certa vez,  nosso grande poeta Drummond, que é chamado assim, poeta, porque sabia trabalhar muito bem as emoções que queria expressar e as palavras , mesmo as mais arredias.

Mas o que faz algo se tornar poesia? Eis a resposta: O amor. Em suas infinitas formas, cores e aromas, até mesmo quando se acredita que está ausente, é ele que conversa com a alma de quem se atreve a fazer da vida um livro, com capítulos nem sempre felizes, é claro, com muitos revezes, mas, acima de tudo, repleto do que nos faz suspirar e agradecer.

De onde veio essa minha resposta? Eu também duvidava como muitos, que a vida poderia ser mais bonita e que isso dependia de mim, do meu olhar, então me permiti arregaçar as mangas e escrever até que a caneta não fosse mais útil, numa tentativa corajosa de transformar sensações em palavras e acrescentar pontos e vírgulas em uma história que eu não sabia o final, pois se tratava do que ainda estava vivendo. Não me comparo a Drummond na técnica e engenho, mas sei que o que escrevi e ainda escrevo, servirá para, pelo menos, dar mais vida ao que sinto e porque não, alcançar o que mais almejo, tocar as pessoas que leem. Essa foi a minha maneira de descobrir o que é a poesia​ de uma forma geral e não simplesmente me dar por satisfeita com o muitos acreditam​: que ela seja apenas o que cabe no papel. Muitas vezes  ela não rima, não​ é escrita, não fala propriamente do amor,  mas pode ser canto, mensagem, uma peça, ou um gesto. Ela é, sobretudo, arte. Tudo o que é capaz de encantar, assombrar e denunciar, porque ela também pode ser séria e triste como alguns fatos da vida.

Cada qual tem a sua forma de descobrir o que é poesia para si e, assim como é possível ver no cotidiano, um poema pronto, é completamente possível converter o que já faz parte de nós em manifestação artística e com uma pequena história real posso comprovar o que digo:

“Em uma daquelas tardes que parecem comuns, o neto presenteou sua avó com um lindo poema, com versos simples e tocantes. Infelizmente, ele veio a falecer, anos depois, em decorrência de complicações da Aids e sua mãe começou a juntar todas as coisas que pertenciam ao filho, para mais tarde montar um acervo. Ela sabia que a avó guardava com muito carinho o poema que seu filho a tinha presenteado. Pediu então à ela que recusou, dizendo que era um presente e que não poderia simplesmente entregar à outra pessoa. Quando a avó também veio a falecer, a mãe recebeu uma caixinha, onde estava presente este poema. Gostando muito do texto, ligou para um grande amigo e parceiro do filho e perguntou se gostaria de idealizar a música. O amigo passou uma noite em claro lendo aquelas palavras e conseguiu  finalmente transformá-las em canção e disse que ficaria perfeita na voz de Ney Matogrosso. E realmente ficou.”

Essa é a história por trás de Poema, a canção que leva os versos que Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza, escreveu para sua amada avó.

Quando amamos verdadeiramente alguém parece loucura querer representar esse amor em algo que se pode ver ou ouvir, mas é completamente possível afetar as pessoas com o que vem de dentro e são essas algumas das muitas, e não menos verdadeiras, definições de arte: trabalhar sentimentos, colocá-los para fora de seu ninho, abrir o coração e transformar os sentidos.

Podemos provocar reflexões, sorrisos, lágrimas, chamar atenção para algo que quase ninguém vê, aquecer o íntimo de alguém ou, simplesmente, como fez Cazuza, se declarar e dar vazão ao que estava, há muito, em seu livre e quente coração.

Ao entregar o poema à avó, o ilustre neto não ofereceu somente palavras, ofereceu o que tinha de mais bonito.

Como seria bom se os dias só fossem feitos apenas de alegrias… Mas bem sabemos que​ nem tudo se resume às​ nossas vontades e quereres. Tudo se torna tão mais fácil quando não enxergamos os obstáculos como dragões invencíveis…

Talvez um dos grandes papéis da arte seja mesmo esse:  abrandar nossos sofrimentos, restaurar esperanças, nos fazer enxergar novas perspectivas, reacender chamas castigadas pelo frio, assim como fez Cazuza, que enfrentou um período de trevas, mas tinha a Poesia​ lhe dando as mãos, mostrando que o fim pode ser apenas o início do eterno.

Eu não preciso explicar a ninguém o que é, de fato, a Poesia, cada um tem a sua forma de enxergá-la, perceber sua substância. Entre tantos questionamentos que me rondam, algumas certezas eu carrego no peito: toda  manifestação de amor é um poema, mesmo que nem todo poema fale de amor. A vida é feita da mais pura Poesia que se mostra em cada canto, com toda a sua simplicidade, que só se torna visível quando penetramos surdamente no reino do mais puro sentir, com as asas abertas da imaginação e com portas e janelas escancaradas para o que nos acaricia a alma.

Continuo sonhando e admirando a história que ainda não estampou o espaço da folha em branco, penso nos detalhes, mergulho no escuro iluminado pelas letras que podem construir as palavras que têm o poder  de representação suficiente para o que sinto agora. Sento e espero, pego a caneta, escolho o papel, me vem a primeira frase, o restante do processo cabe ao tanto de Poesia que carrego em mim, o ingrediente essencial para escrever as histórias que ainda não foram escritas.

Quem sabe um dia eu escreva, antes do que imagino, uma novela, um conto, ou um roteiro de cinema. A você, cabe apenas saber que quando eu manifestar o meu amor, eu quero que sintas como a leitura de um poema: simples, breve e certeiro.

 

Confira a letra e vídeo da canção:

Poema
Cazuza

Eu hoje tive um pesadelo
E levantei atento, a tempo
Eu acordei com medo
E procurei no escuro
Alguém com seu carinho
E lembrei de um tempo

Porque o passado me traz uma lembrança
Do tempo que eu era criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço ou um consolo

Hoje eu acordei com medo
Mas não chorei nem reclamei abrigo
Do escuro, eu via um infinito
Sem presente, passado ou futuro
Senti um abraço forte, já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim (que não tem fim)

De repente, a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio, mas também bonito porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu há minutos atrás.

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Camila Bertelli

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