Primeira parte – Jonathan

Já são quase quatro da manhã e o barulho dos carros lá fora denunciam que o dia já começou pra muita gente. Essa foi mais uma noite de insônia; não durmo há um mês, eu acho. As frágeis paredes de gesso deste apartamento são minhas únicas companheiras. Confesso que tenho dificuldade de me relacionar, tenho trabalhado muito. Bom, pelo menos o esforço valeu a pena: comprei uma TV enorme e ampliei a velocidade da internet. Estou tão cansado, mas nesta semana tem feriado. Houve um tempo em que isso me animou mais. Aliás, passei meus últimos feriados, a maior parte do tempo, dormindo, ou assistindo séries da NETFLIX. E tinha prometido pra mim mesmo que adiantaria os trabalhos da faculdade, mas tudo bem, ainda há tempo. Pra falar a verdade, vou fazer em cima da hora mesmo… Parece um hábito do estudante moderno: não importa se você tem uma semana ou um mês de prazo, tudo será feito 24h antes da data de entrega…

Hoje é dia de terapia, mas não sei o que dizer ao analista. Depressão, estresse, síndrome do pânico e até mesmo fobia social eu já tive. Os remédios ajudam, mas nenhum deles, até hoje, conseguiu me traz o sono de volta. Na metade das vezes não consigo dormir, na outra durmo mal e acordo várias vezes na noite. Aí me distraio como posso: videogame, salas de bate-papo, Facebook, essas coisas que completam nosso vazio hoje em dia. Não tenho amigos, sou novato na cidade e não curto o happy hour com a turma do trabalho.

Pelo menos com a terapia descobri um hobby: fotografar prédios! Sou fascinado por eles. Ando a cidade inteira com minha câmera na mão a fim de fotografar as particularidades de cada um. E como são diferentes! A gente só repara no concreto, mas se olharmos com cuidado, há certa beleza neles. Bom, hoje o céu está nublado – do jeito que eu gosto! Está perfeito para fotografar novos prédios! Acho que vou pela Avenida, há muitos que não registrei por lá ainda…

Segunda parte – Jéssica

Está frio hoje, odeio o tempo carrancudo, minhas flores também não gostam. Bom, o dia será apertado, ainda nem comprei a comida dos gatos. Droga, o trabalho!!! Às vezes trabalhar com propaganda não é aquilo tudo que a gente sonhava. Vida de agência, reuniões legais, companheiros descolados, festa toda sexta-feira… está mais pra colega nerd tarado, job atrasado (muito atrasado), cliente reclamando, o mundo acabando, porra! Não dá pra ser feliz assim. Aliás, dá sim; amo minha vida. Deixa eu me concentrar nos gatos…

Trânsito da porra! Odeio essa cidade, que caralho! Meia hora parada? Estou ferrada mesmo. E ainda tem um maluco no meio dos carros com uma câmera? Está de sacanagem, né!? O cara está pensando que a vida é farra, poxa! Ah, ele nem tem culpa, afinal, essa merda não anda mesmo. Mas o que ele está fotografando? Não tem nada além de prédio aqui. O quê? Deixa o eu aumentar o volume do rádio: “Congestionamento na Avenida Três, após acidente com desmoronamento de viaduto…”. Não, não, não!!! Só pode ser sacanagem… E agora, como vou fazer com o trabalho? Não da pra acreditar, não pra acreditar. Deixa-me ligar no escritório… Sem bateria? Deus, o que eu fiz pra merecer isso logo hoje? Só falta chover… É, não falta mais…

E o panaca ainda está ali, no meio da chuva? Tem maluco pra tudo.

― Ei, doidinho, está fotografando o quê?

―Aquele prédio ali, o da esquerda.

― Pra quê? Prédio é tudo igual, cara!

― Não, não são. Repare bem: o da direita tem três pilares de sustentação redondos, o da esquerda apenas dois e são retangulares. As janelas também são diferentes, olha. As do prédio da esquerda são de vidro e aço inox, já os da direita apenas de vidro e fazem um desenho único, não há separação é como se fossem uma única janela gigante.

―Cê é maluco mesmo…

― Já ouvi isso antes…

― Vamos sair da chuva?

― É bom.

― Hoje meu dia está péssimo. Eu sei, eu sei, você deve me achar meio maluca por ficar desabafando com um estranho, mas sabe o que é? Gosto de conversar, entende? Trabalho com comunicação é meio que um instinto. [Até que ele é bonitinho…] E você, faz o quê?  É fotografo?

― Não; trabalho com T.I; as fotos dos prédios são só um hobby.

― Que hobby estranho, meu!

― É…

―Você não é daqui, né? Tem sotaque diferente.

― Não, sou de Minas. Lá a gente fala meio arrastado mesmo.

Essa droga de chuva não passa, o trânsito parado, e estou longe do metrô, sem bateria no celular. Estou perdida mesmo. E fazer o quê? Talvez seja a hora de um momento de loucura!

― Ei, doidinho, tenho um prédio pra te mostrar, você vem?

― É muito longe?

― Não; anda logo.

Tempo depois…

― Seja bem-vindo a minha casa! Legal o prédio, né? Ele é torto, mas acho chique. Não entendo nada de arquitetura, mas acho tão elegante. Só parei pra pensar que eles não são todos iguais depois que você me mostrou que é preciso observar tudo, até mesmo os prédios, com atenção.

― É…

― Vamos subir? Tomar café, nos secar dessa chuva?

― Bom, vamos. (Ai meu Deus, o que tô fazendo? Nem conheço essa mulher, meu Deus).

― Vou abrir as janelas e você vai ver o quanto a vista daqui é legal.  Dá pra ver a cidade toda!

― Uau! É muito bonito daqui! Mas, não se sente meio sozinha?  É tão grande, tão espaçoso? Só você mora aqui.

― Eu, Romeo e paçoca, meus gatos. Não sou nada sem eles.

― Amo gatos, mas não eles caberiam no meu apartamento…

― Que pena, você deveria ter um. São ótimos companheiros. Dias assim, como hoje, tristes e chuvosos, eles me fazem um bem danado. Vem, vamos tomar um chá e falar da vida. O que você quer ouvir?

― Beatles?

― Adoro! Arrasou, menino!

Continua…

 

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Flávio Sousa

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