O tempo estava bastante frio ontem, uma sensação boa para quem encontrava-se numa cama, coberto por um edredom. Eu estava no alto do edifício, bem agasalhado – isso não me livrou de um certo desconforto por causa da temperatura –, vendo a garoa que caía sob as luzes da imensa cidade. Embaixo, na rua, poucas pessoas passavam, todas agasalhadas também. O relógio batia quase dez da noite, e o frio ficava mais intenso com o passar das horas. Virei para o lado oposto de onde eu estava e me deparei com uma visão espetacular: a ponte que atravessa o rio. Ele servia de espelho para as luzes da imensa obra. A lua fazia parte do cenário, tão grande e bonita; penso que as estrelas não ousaram comparecer nesta noite para compartilhar do mesmo lugar. E, enquanto eu estava viajando em pensamentos diante daquela paisagem, ouvi o barulho de duas pessoas subindo a escada lateral do edifício. Era um jovem casal. Estavam empolgados, movidos pela emoção de um ato proibido, pois não é permitido ficar naquele local à noite. Ficaram sentados bem próximos, na mureta de proteção, virados para a metrópole à frente. Os dois olhavam aquela cena com os olhos fixos como se estivessem perdidos em pensamentos. Aparentavam ser amigos, apesar de eu deduzir que o garoto pretendia mais do que uma conversa. Parecia querer dividir algumas ideias com sua companheira. Então, depois de um tempo ele a olhou, hesitou um pouco, mas aprumou-se e começou:

“Sabe, certas amizades são como alguns monumentos da Grécia Antiga: tiveram um passado glorioso e hoje encontram-se em ruínas, mas ainda com seu valor histórico. Amigos mantidos por um pequeno elo que sobrou dos momentos de glória. Eu tenho dificuldades de aceitar que algumas amizades que são importantes para mim tenham perdido a intensidade no relacionamento, ficando tão frias quanto esta noite. É uma sensação ruim olhar para o passado e lidar com as modificações que o tempo nos impõe. Além disso, me traz descontentamento conversar com amigos assuntos breves e sem empolgação, sendo que antes o diálogo fluía sem grandes esforços. E os assuntos que empolgam hoje são voltados para coisas que vivíamos no passado, uma fútil tentativa de resgatar um combustível de lembranças para impulsionar um carro com o motor quebrado. Me lembro que os momentos desses anos foram muito bons, e estar perto de alguns amigos é como voltar e reviver tudo aquilo, apesar de não ser a mesma coisa. ”

Por sua vez, a garota que estava prestando atenção em cada palavra que o amigo dizia, voltou o foco para a grande cidade e se pôs a pensar um pouco, como se estivesse procurando as palavras certas para então tirar a angústia do amigo:

“Você já parou para pensar que talvez a dificuldade principal esteja em você se desprender do seu passado, e não o fato de lidar com o atual comportamento dos seus amigos? Sim, a mudança ocorreu e sempre ocorrerá. Mas você não acha que os têm como um ponto nostálgico? É como se precisasse ter contato com eles para poder ter sensações já vividas. Diante disso você fica decepcionado pela impossibilidade de voltar, e coloca a mudança deles como foco principal.

Claro, nossos amigos mudam, mas não é só eles, acontece comigo, com você e com todos. E nem sempre as relações acompanham as alterações, pois mudam os nossos gostos; a forma de pensar; a própria personalidade vai ganhando outras formas; e uma infinidade de coisas que alteram com o tempo. Com isso, alguns ciclos de amizade vão divergindo, e essas pessoas criam outros ciclos que estejam de acordo com a sua vida atual. Por outro lado, existem aqueles amigos que mudam mutuamente, convergindo em alguns aspectos e, assim, fortalecem os laços com o passar dos anos. Não raro nós ouvimos alguém falar: ’ A gente passa tanto tempo sem ver o outro, mas quando nos encontramos a relação é a mesma. ’ Não é que seja a mesma coisa, ambos mudaram, mas em um mesmo sentido. A partir disso acontece a renovação do afeto.

Isso tudo não te impede de fazer novas amizades e viver novas experiências com estas. Conservar laços afetivos é importante, mas criar novos elos é essencial para uma vida que busca desenvolvimento. Sobretudo, uma vida que visa evoluir, vivendo intensamente o presente sem ficar preso ao passado. Então, se quiser ter sensações boas, vividas com amigos novamente, viva da forma como elas se apresentam hoje e com quem estiver ao seu lado. Além disso, seja o proporcionador de momentos agradáveis, pois esperar vindo de alguém aquilo que você é capaz de realizar é dar para o outro seu papel de protagonista. Entendeu? ”

Com um gesto afirmativo, o amigo sorriu aliviado para amiga. Parece que ele estava decidido a viver intensamente o presente. Percebi isso, quando escutei ele dizendo que gostava de ouvir a moça falar, seguido de um comentário recheado de segundas intenções. Depois disso entraram em uma conversa mais “caliente” sobre namoro. Até que chegou um momento em que os dois se olharam como se estivessem pedindo forças para dar um próximo passo no relacionamento e … faltou energia no bairro.

Não sei o fim dessa cena, mas ontem me identifiquei com a situação do garoto, pois já vivi coisa semelhante com um grande amigo.

Apesar de hoje a gente não ter um contato frequente, nos consideramos muito pelo respeito construído, pelas memórias de grandes momentos e, sobretudo, por todo passado glorioso. E, sem que esse passado interfira, estamos desbravando novos caminhos e vivendo momentos diferentes. Mas todo aprendizado vivido com ele está guardado na memória, fazendo parte do que sou hoje.

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Jhonata Santos

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