27/04/2017

Inércia

Lembro de ter acordado. Foi bem repentino, mas costuma acontecer com certa frequência, ainda mais quando não estou dormindo em casa. Dei uma rápida olhada no quarto: armário de madeira embutido, prateleiras com livros, criado mudo e ventilador de teto. Até entender onde estava, fiquei agoniado.

Aos poucos, reconheci a moça que dormia ao meu lado. O nome já me fugira e, como o céu ainda apresentava tons escuros, ficou difícil me lembrar dos detalhes de seu rosto. O ar-condicionado estava muito forte e dividíamos as cobertas. O sono dela era muito pesado, o que me ajudou a roubar a maior parte do edredom, configurando aquele mau caratismo clássico dos parceiros de uma só noite.

Inanição. Mescla de preguiça com cansaço pós bebedeira e sexo da noite anterior. A depressão pesa algumas toneladas também, é verdade. Comecei a fingir que havia perdido os movimentos do meu corpo, só sendo capaz de olhar para cima e de ouvir os roncos da menina. E os devaneios me levaram.

Gregor de Kafka ou Meursault de Camus? Mais para Camus; era possível ver que ainda tinha membros humanos, o que inviabilizava minha pretensa aventura como inseto grotesco.

Olhava a menina e pensava em maneiras de matá-la, sem sentir remorso. Depois, fixava minha atenção na janela e pensava em me atirar do prédio. O que estou dizendo, afinal? Jamais seria capaz de nada disso.

De repente, o barulho. Levei um pequeno susto e esperei para ver se se repetiria. E pronto, lá estava ele de novo. Era a campainha. Meu cérebro sorriu.

O sono pesado da moça jamais seria incomodado por tão tenro som. A empregada era quem apertava inutilmente o botão, na esperança de que a dona da casa abrisse a porta. Eu nada fazia.

Minha mente trabalhava, advogando contra e a favor de minha ação ou omissão. Lembrava de Meursault e seu uso quase despretensioso da arma de fogo, seu julgamento e sua morte, tudo feito de maneira insossa, niilista, existencialista. A campainha era o grito da funcionária que pegou ônibus, trem e metrô lotados e tudo que desejava era entrar na casa da madame branca para servi-la por mais um dia, em troca de um salário miserável e sem direitos trabalhistas. A cada badalada, angústia e maldade se intensificavam em meu coração, travando uma verdadeira batalha pelo meu caráter.

Olhava o teto, ouvia os roncos da moça, a campainha tocando incessantemente, o quarto já todo iluminado pela claridade, o celular disparando alarme. Mantive-me paralisado. Por fim, um silêncio de alguns minutos. Teria desistido? Haveria se libertado das correntes proletárias e estaria agora entoando cânticos de guerra nas ruas, promovendo uma revolução das domésticas?

O interfone tocou e pôs fim às minhas ilusões. Embebido de arrependimento, levantei-me, puxei minhas roupas e cutuquei a mulher com força, para que acordasse.

– Tem alguém na porta.

Meio zumbi, a dona da casa se levantou e eu só pude ouvir seus inúmeros pedidos de desculpas para a empregada, que afirmava não haver problema algum.

Nesse ínterim, aproveitei que a porta de trás da casa estava aberta e fui embora.

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Gabriel Cassar

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