Gabriela acorda cedo e alimenta os gatos com preguiça. Como ainda não abriu as cortinas, não percebe o céu carrancudo. Na verdade, os dias nublados são, pra ela, especiais. É como se cada molécula do seu corpo se juntasse às nuvens e derramasse esperança para o espírito em água. Tem saudade de casa, mas está longe demais para pensar nessas coisas; é preciso produzir, produzir, produzir… A matemática maluca do consumismo soma mais um escravo. Isso não incomoda ― tem noção das necessidades da vida. Nem por isso deixa de sorrir.

No momento só sabe pensar no amor, nas coisas boas da vida, a felicidade em pleno gozo. Era uma manhã de domingo (um péssimo dia) que encontrou Marcelo. Ele é um desses rapazes tímidos, de voz rouca e baixa, que exala sensualidade por trás daqueles olhos lerdos e preguiçosos. Não foi amor a primeira vista, afinal de contas, se conheciam da aulas de inglês, das quais nenhum dos dois prestava a atenção. Ela pensando em comida, ele desenhando seus cachos ruivos. Pra ser sincero, ninguém daria nada pelos dois. Um casal estranho, é verdade, mas que, de certa forma, se completam. Ela multidão, ele o silêncio da sala; ele natureza, ela selva de pedra. O que faltavam em um, sobrava no outro.

Dia desses, conversando com uma amiga, Gabriela notou que amar transforma as pessoas. “Curaria todos os meus problemas com amor”, dizia com olhos esperançosos. Todo dor do mundo pode ser curada do amor?  Como dar fim a fome dos pobres? Como conter o choro das crianças? Preencher a lacuna deixada por alguém que há muito partiu? Pra todas essas perguntas a única resposta de Gabriela era o amor… Acreditar no amor dói, às vezes fere fundo ― nem todos estão preparados pra amar, alguns nem pra receber amor. A ruivinha sabia muito bem disso, mas encarou o mundo de frente, mesmo sendo pequenina, mas forte como um gigante! Talvez ela tenha chorado, quem sabe até se desesperado, mas o amor sempre vence, sempre vence! Não importa o que lhe dissessem: o amor sempre vence! Determinação é o nome dela.

Muitas vezes  gritou para não se sentir só, mas isso pouca importa. Tudo que ela queria era se encontrar. Que se danem os tímpanos dos vizinhos! Agora não precisa mais disso: seu amor ecoa pelas veias e coração de Marcelo. Mas e se der errado? Se ele não for tudo isso? Se o que ela espera não é o que leu nos romances modernos, onde a paixão cheira rosas? Já é tarde pra pensar nisso, afinal de contas, já está possuída pelo desejo e a incontrolável vontade de se deitar perto daquele que ocupa seu peito com afeto.

Como são bonitos os cabelos negros de Marcelo, como é aconchegante deitar naquele peito e sentir acolhida, segura. Não que dependa de homem pra se sentir assim, mas a sensação de pertencer a alguém, ser parte de outro é acolhedora. É o alimento dos Deuses! Agradece a todos (mesmo que exista só um Deus), por se sentir grata com tudo que se pode chamar de divino.

A chuva finalmente resolver dar o ar da graça depois de um trovão assombroso. Gabriela deixa os gatos se amontoa entre o amado Marcelo e as cobertas velhas de sua cama. Como é gostoso ouvir a respiração dele, calma, serena. Já deu vontade de ficar mais um pouquinho por lá… Ah, hoje ela não quer saber de nada; resolve enforcar rotina. Não vai ao trabalho. Dor de garganta, talvez, a desculpa não importa, mas o trabalho fica pra amanhã. Agora ela só quer ouvir a chuva, se enrolar por entre os pelos grossos de Marcelo e fingir que não existe futuro, que esse amor será eterno… É por isso que ela acredita no amor: pra fugir da rotina…

 

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Flávio Sousa

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