Você me confunde completamente e de maneira tão intensa que eu chego a me afogar nas lembranças das palavras que me disse quando nos conhecemos. Tínhamos o mundo em nossas mãos e tudo era possível, desde que você estivesse aqui, pelo menos era assim que eu me sentia, era como você me fazia sentir.

Hoje, após pouco mais de dois anos, eu já não concordo com a sua maneira de amar, nem com o modo que você usa para demonstrar isso, mas ainda assim, não me canso de pensar naquele quarto de hotel, naquele dia, naquele momento ao abrir a porta e dar de cara com o seu sorriso. Ali nos reconhecemos como duas almas sedentas do novo, foi naquele dia que o sol brilhou mais forte pra mim e tudo o que era frio não existia mais. Foi a primeira vez que me despi, não só das roupas que joguei pelo cômodo, mas de todo o medo que me impedia de conhecer alguém mais a fundo, de mergulhar de cabeça em uma relação.

Naquele encontro que nunca ninguém irá tirar de mim o gosto, fazia apenas uma semana que eu tinha lhe visto pela primeira vez. Era apenas o começo de uma sucessão de surpresas.

Com uma rapidez quase que insana, me entreguei e às vezes me pergunto, o que seria de mim se talvez tivéssemos esperado mais, se haveria ainda o nós se eu tivesse pensado antes de agir e não são poucas as vezes em que chego a conclusão de que não estaria mais aqui porque teria visto antes o tamanho da encrenca, teria sentido o cheiro de coisa maluca no ar.

No entanto, eu sentia que aquilo tudo era de verdade, era tudo real e para mim que tinha um coração cheio de buracos e feridas, isso era o que mais importava porque eu não queria mais me afogar naquilo que eu sabia que não seria fácil de tirar de dentro do peito: meus medos. Era a minha chance de ser feliz enfim, mesmo que você fosse o oposto de tudo o que eu havia sido desde então.Bem pensava que o que se sente não precisa de sentido, por isso é que os sentimentos são vitais em nossas vidas, é impossível viver de fato sem sentir.

Tudo o que passamos é tão humano e absurdamente visceral, não é mesmo? Pois eu gostaria que você se perguntasse: eu sei o que sinto? Isso tem nome? Tenho certeza de que a resposta não viria tão rápido, e se viesse, seria tão confusa quanto as palavras que teimo em escrever agora. Palavras que dão vida a um papel branco e que dominam por completo a folha manchada de vinho que acabou se tornando grande demais para ser um simples bilhete que não pretendo enviar pra você porque acabo de ver que essas letras que formam meu discurso são tão minhas que somente eu preciso lê-las. São parte indispensável do que eu preciso entender para tomar uma atitude e seguir.

Mesmo podendo conversar comigo, é necessário escrever, realizar essa tarefa tão ligada à libertação dos demônios internos e das dúvidas, é preciso arrancar de mim essa emoção que já passou do ponto. Essa fruta podre que impregna o ar com seu cheiro. Uma mistura agridoce como a nossa história.

Hoje eu sei que por muito tempo eu te quis porque você me bagunçava toda. Uma algazarra boa  se fazia entre os dois seres tão livres. Nos entendíamos tão bem entre os nós atados por entre os nossos dedos e pernas, bocas e línguas se encaixando que era notável nosso pertencimento um ao outro. E era aí que eu sempre perdia a noção da hora.

Tudo sempre foi uma festa pra nós e nem era preciso estar em Paris, protagonizávamos o concerto entre dois instrumentos em volume alto.Fazíamos amor e café e não era necessário explicar absolutamente nada, mas hoje, justamente hoje, eu me pergunto: como chegamos aqui, meu amor? O que foi que deixamos acontecer com a gente?

Eu que sempre gostei da tua desordem, hoje quero um pouco de paz. Preciso de limites e que me diga se tem alguma ideia pra nós, se sabe como desfazer esse emaranhado de excessos que nós deixamos entrar pela porta sem querer, por descuido ou desleixo.

Eu sempre tentei me manter sóbria em relação às suas loucuras, sempre achei que isso fosse passar, que era apenas porque éramos jovens demais e jovens nunca sabem o que estão fazendo direito, é o que dizem os adultos.

Me lembro que sempre que eu me sentava e insistia em perguntar pra onde estávamos indo, esperando que me desse atenção, você cantarolava uma música qualquer fingindo não ouvir e eu pedia pra parar, irritada com a sua falta de maturidade, mas o que eu nunca pedi foi pra você ir embora. Não agora, não assim.

Hoje, mesmo de saco cheio de esperar pelo muito que não veio, eu me lembrei que o amor é tão maior que tudo isso, tão maior que merece uma segunda chance, merece algo melhor. Uma casa arrumada, pelo menos dentro de nós.

Tudo era tão lindo nesse apartamento até eu perceber que quem limpava toda a  sujeira era eu, sozinha, por isso, daqui pra frente, quero você comigo levantando os sofás​, varrendo a sala, trocando os lençóis bagunçados, quero o apoio que sei que você pode me dar.

Ninguém me dava ordens, mas eu acatava regras que nem havia criado, porque eu educava um homem feito sem perceber.Eu não quero ficar sem você, mas não quero mais a vida que tínhamos.Quero é sair desse espaço, largar esse marasmo, essa bagunça toda da casa e do coração, mudar a cor do meu cabelo, tomar um banho fresco de chuva e saber que eu tenho um lar pra voltar e alguém lá dentro disposto a enfrentar o mundo ao meu lado.Vem comigo, eu te convido para o meu jeito de bagunçar a vida, agora será do meu jeito e de acordo com a minha loucura. Vamos descobrir o mundo, jogar nossas roupas no chão e nos amar, quebrar copos depois de bêbados, encher a casa de amigos, rir até cansar, mas no final da noite, quando estivermos exaustos, seremos dois pra separar os cacos do resto do lixo, seremos dois para acordar no dia seguinte e lavar o banheiro, seremos dois para o bom e o ruim da vida, para o belo e o feio, porque somos um misto de loucura e caos, mas você sabe que podemos ser mais do que isso. Se quiser, o recomeço é agora. Me dê sua mão, o caminho começa por aqui.

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Camila Bertelli

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