O que leva alguém a abandonar a própria vida?

 

Irremediavelmente apunhalado pelas costas, seguia em frente, cruzava, rua por rua, a cidade pequena demais para os próprios sonhos partidos. Era inevitável sua caminhada, já não havia mais o que pudesse fazer a não ser notar escorrer entre os dedos o castelo que se empenhava em construir durante os doze anos em que viveu ali. Era como se ele mesmo tivesse partido ao meio junto às paredes rachadas dos sonhos que desmoronaram bem à sua frente.

Naquele bairro não cabia mais a sua fantasia e era necessário partir, simplesmente partir, sem despedidas ou qualquer tentativa de explicação, porque nada do que dissesse faria sentido a quem não vivia o mesmo assombro que o perseguia.

Quem leria sua carta se a deixasse sobre a mesa, escrita em letras de forma, tortas, com caneta quase sem carga, cansada, marcada feito ele mesmo? A essa altura já não sabia mais o porquê havia escrito se o papel continha apenas duas frases desconexas que, provavelmente, complicariam ainda mais o entendimento. Ao longo do caminho, foi que ele se esqueceu do conteúdo da carta e o real motivo de tê-la escrito, mas agora não importava mais. Estava consumado e o que haveria de acontecer cedo ou tarde, aconteceria e de alguma forma ele sabia, carregava a certeza de que não tinha volta.

As bolhas que se formavam nos pés começaram a incomodar o desbravador da própria tristeza, tanto que resolveu parar e se sentar no meio fio. Ficou descalço e sentiu, não um alívio comum, mas um alívio seco. A carne não reclamava mais, mas havia outra ferida que nem mesmo ele poderia alcançar agora.

Os gritos e risadas em alto volume das crianças em seu caminho para a escola começaram a incomodar tanto quanto as bolhas dentro do sapato velho. Era o esquerdo que tinha incomodado mais. Era sempre com ele que pisava primeiro, como se contrariasse todas as crendices e superstições, gostava de fazer parte da margem, mas não poderia prever que seu futuro seria o mesmo de tantos outros. Não sabia que seria parte daquele retrato do cotidiano de forma definitiva.

Um andarilho, cujos sonhos foram assassinados pelas circunstâncias, sentado no meio fio, sujo e sem itinerário. Um ser humano que agora coçava a cabeça como quem procura respostas para perguntas que ainda não conseguiu formular, pois prefere não pensar mais sobre o que o trouxe até aquele destino.

Há cinco dias não conhecia a sensação da água escorrer pelo corpo. Por um instante, que pode ter durado horas, sentiu um frescor descer pelo pescoço e algumas gotas penetrarem sua camisa surrada. Despertou-se do delírio com um grito. Se viu sentado em frente à escola das crianças barulhentas.

O grito era da menina que bebia a água fresca do bebedouro do pátio  e se assustou com o homem maltrapilho que a observava sem piscar os olhos negros e cansados. Era tarde para explicações, ela já havia corrido de medo. Acaso sua figura era capaz de causar tamanho espanto?

Já não lhe bastavam os açoites dos flashes de pequenas memórias que o perseguiam a cada maldito dia de sua insistente existência? Como fugir de si ? Como não ser visto como alguém que traz o mal?.Fugiu do mundo e agora o mundo era quem começava a fugir dele e uma simples garotinha, depois de tanto tempo, finalmente o enxergou e ele podia ver que ainda era de carne e osso, mas sua aparência era como uma ameaça aos olhos de alguém que pouco sabe da vida e suas realidades tão doentes. Ele era então uma figura assustadora e feia. Havia ainda forças para oferecer perigo à alguém? Trapo humano que se transformou ainda não era visível. Não como desejava.

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Camila Bertelli

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