Um destino fabuloso, quem não quer? Mas atenção, eu não me refiro aqui ao destino de viagem, embora, de uma maneira bem clichê, a vida possa ser comparada à uma espécie de “jornada” em que a gente pode mudar o roteiro sempre que necessário, mas, como se sabe, por mais que se planeje tudo nos mínimos detalhes, imprevistos acontecem e podem virar sua vida de ponta cabeça e te levar para outros rumos, alguns, nunca imaginados.  

O destino que aqui menciono é o sinônimo de sina, sorte, fado, aquilo que vem pela frente e que, em muitos casos, é descrito como os acontecimentos que estão predestinados. Não são poucos os que não acreditam na existência de um futuro “programado” e cada ser humano, correntes filosóficas e religiões têm concepções distintas sobre seu significado. Alguns consideram que é uma força misteriosa que determina os acontecimentos vivenciados pelas pessoas, outros que cada ser possui o livre arbítrio, ou seja, há liberdade de escolha e cada qual deve arcar com as consequências de seus atos e forma de vida.

Na literatura, um indivíduo descrito como “senhor ou dono do seu próprio destino” é uma pessoa livre, que tem consciência de suas responsabilidades, e que não tem medo de arriscar. Segundo Dalai Lama, “a verdadeira transformação espiritual dos seres está nas pequenas e fundamentais atitudes do dia a dia, independente do credo, do estilo de vida, das preferências sexuais ou políticas que possa ter”.

Todos nós queremos que o que está pra chegar seja bom, queremos ser felizes, sentir que as escolhas que fizemos valeram a pena. Encostar a cabeça no travesseiro aliviados, sem remorsos ou preocupações, mas acontece que, muitas vezes, esquecemos que não temos o poder de controlar toda e qualquer situação.

Há dias em que estamos tristes porque alguma notícia ruim chegou de supetão e roubou nosso sorriso. Em outro estamos de pé, sentindo o agradável gosto da gratidão e há aqueles que correm sem aviso prévio e, quando menos se espera, já é Natal e muita coisa ficou por fazer. Aquele amor não veio, não comprei sapatos novos, não mandei o cartão de aniversário para aquela pessoa querida que não vejo há anos, mal completei a longa lista de afazeres do dia e não cumpri as promessas de fim de ano que escrevi naquele papel que nem me lembro onde guardei.

Bem sabemos que não há como permanecer em eterno estado de poesia sem que nada nos surpreenda para o pior, mas existe uma forma, ou melhor, várias, de fazer com que a vida se torne cada vez mais prazerosa de ser vivida, reduzindo os problemas à pedras no caminho, que acabam auxiliando no nosso processo de aprendizado. Daquelas que nos fazem tropeçar, mas que nos dão a chance de sacudir o pó, continuar ou dar meia volta e escolher outro caminho.

Sempre que penso em contornar o rumo da vida para o lado positivo e transformador, me lembro de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain, 2001), filme de Jean-Pierre Jeunet, que conta a história de Amélie (Audrey Tautou), que viveu uma infância reclusa, afetada pela trágica morte da mãe e a distância afetiva do pai, em seu solitário universo povoado de criatividade e imaginação. Tímida, já adulta, passa os dias a observar o cotidiano alheio e o próprio, sem saber que é uma mulher sábia porque, apesar de se esconder porta adentro, possui um modo de vida simples, mas revolucionário: ela cultiva os “pequenos prazeres”.

Do francês: Les petits plaisirs, esses pequenos prazeres são, de uma forma resumida, o contentamento que se sente nos simples fatos do dia, em cada gesto, que traz cor ao cotidiano, como: mergulhar a mão em sacas de grãos, partir a camada de açúcar queimado do crème brûlée com a ponta da colher, fazer ricochetes na água do Canal St. Martin ou prestar atenção nos sons da cidade.

Para Amélie Poulain, esses costumes são sua fonte de alegria. Sensações aparentemente banais, que esquecemos de reparar, e que nos mostram que a vida é mais doce e verdadeira quando nos atentamos aos seus detalhes.

Por mais estranho que possa parecer, e apesar do nome, a simplicidade não é algo tão fácil de se cultivar, já que vivemos em uma sociedade de exageros, onde ter mais dinheiro, mais roupas ou mais curtidas é sinônimo de felicidade e sucesso.

O Fabuloso Destino de Amélie Poulain vem para quebrar com essa ideia, exaltando a naturalidade da vida. Seus personagens são apresentados de acordo com as coisas que eles mais e menos apreciam em suas trajetórias, nos mostrando que nós, muitas vezes, caímos na rotina sem prestar atenção no que vivemos de fato e passamos a achar que não há sentido em existir sem os “grandes feitos” que o mundo admira e que envolvem poder, mas que pouco acrescentam à nossa alma.

Amélie é uma pessoa que aprecia as singelezas da vida, mas que ainda precisa conhecer mais do mundo, pois não se permite arriscar e conhecer o novo.

A oportunidade de mudar de direção bate à sua porta quando, certo dia, encontra uma caixa escondida em seu banheiro e, pensando que pudesse pertencer ao antigo morador, decide procurá-lo ­e encontra Dominique (Maurice Bénichou). Vendo sua alegria ao reaver o objeto, fica impressionada, e acaba construindo um novo ponto de vista e, a partir de pequenos gestos caridosos, ela passa a ajudar as pessoas que a rodeiam, dando um novo sentido para sua existência.

O enredo nos mostra que não importa o quanto estejamos seguros no nosso mundinho, apreciando as coisas belas somente pelo lado de dentro, nós não estamos isentos das surpresas e  necessidades humanas. Somos de carne e osso e, portanto, perecíveis e, se deixarmos, a vida correrá junto ao tempo e não conseguiremos mais alcançá-la. Amélie sempre soube que o que é, de verdade relevante, está nas coisas simples, mas necessitava de mudanças, já que apreciava a riqueza escondida na rotina, mas, ao mesmo tempo, estava presa a ela e era chegada, então, a hora de agir.

Ao encontrar a enigmática caixa e sentir profunda curiosidade em saber a quem pertencia, ela entendeu o momento como um aviso, um chamado para embarcar em uma situação completamente nova que acabou por se tornar sua mais emocionante e transformadora aventura. Mas, e se ela não tivesse se interessado em saber sobre a história da caixa? E se a tivesse deixado no mesmo lugar, sua vida passaria por todas essas reviravoltas?

Todos os dias recebemos sinais, mas se não estivermos abertos para vê-los, eles de nada servem. Ao procurar o dono do objeto misterioso, Amélie aceita o desafio e então percebe que há no cotidiano, não só a beleza que nos encanta, mas o inédito, a novidade que nos aparece através de pequenos sinais escondidos que nos convidam a conhecer e encontrar outros propósitos para se viver.

Assim como diz uma das mais importantes mensagens do filme: “são tempos difíceis para os sonhadores”, mas o fato é que, muitas vezes, quem acaba por deixar o dia a dia mais complicado do que realmente é, somos nós mesmos e a nossa falta de coragem e sensibilidade. A vida convida, mas somos nós quem fazemos acontecer, saindo da nossa zona de conforto. É importante que nós enxerguemos os encantos do cotidiano, mas não é justo conosco que nos percamos ali. Os nossos pequenos prazeres dizem muito do que somos e isso significa que o mundo depende mais dos inúmeros pequenos atos do que dos grandes para ser transformado, pois o caminho para um destino fabuloso vem do sonho e da vontade de evoluir, mas também da simplicidade e disposição para enxergar o que realmente importa.

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Camila Bertelli

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