Aquela foi a última vez que estive diante dos seus olhos; as sensações ainda percorrem minhas artérias e estouram dentro de mim. Sempre soube que você e seus encantos seriam a minha ruína, a minha desgraça. Estou condenado a te amar até o último dos meus dias pífios de homem sensato. É preferível, mil vezes mais, contar os astros e galáxias pela eternidade a ficar preso no seu calcanhar como estou agora. As montanhas lá fora compreendem minha dor, sabem o que digo ― são companheiras da minha solidão. Será essa marca dos transgressores do amor? É como se o sofrimento fosse uma mancha encardida em um pedaço de seda branca que, quanto mais se tenta apagar, mais se espalha pelo tecido. Se ao menos soubesse que é a causadora dos meus tormentos e minha desgraça, quem sabe assim essa ferida arderia menos.

Não sei dizer quais elementos acorrentaram meu coração dela. Uma mulher de traços e atitudes tão gentis  ― tímidos, eu diria ainda ― não sabe a força que exercesse sobre almas como a minha. Desde o dia em que vi seus olhos, foi como reconhecer uma paixão milenar. Parece-me que a amei a vida inteira. As bochechas queimam na presença dela; a visão se torna turva e o único ponto de luz é existe é aquele que emana dela; as pernas, Deus as pernas, não se aquietam e tremem; o coração salta boca a fora; a voz se torna aguda e sem força e o único som que atravessas os lábios são suspiros apaixonados; a alma se desprende do corpo e quer encontrá-la. Esses são alguns dos incontáveis efeitos que ela produz em mim.

Jamais ousei confessar meus sentimentos; sempre tive medo. Medo do quê exatamente eu não sei, mas acho que se ficasse um minuto a sós com você, a carga emocional seria tamanha que não me suportaria. Iria explodir, como uma bolha de sabão: frágil e inconstante, que é levada facilmente pelo vento e se desmancha em água ― essa água sou eu. É o seu amor que provoca mim reações adversas.

Mas afinal, o que é o amor? Nunca parei pra pensar, mas creio que deve ser uma coisa boa, mesmo o meu que, às vezes, dói tanto e aperta o coração. O amor é um veneno que entorpece antes de matar; primeiro a felicidade suprema da contemplação e do gozo, depois as lágrimas, apenas as lágrimas. Talvez alguns objetarão dizendo que o amor não é só isso. Devo concordar, mas ainda apresentar outro perfil de amante, esse pouco comum, mas tão destrutivo quanto o anterior. Alguns amam em demasia, fora de controle; são como uma taça vazia que só se enche do vinho do amor, no entanto, eles não percebem quando o amor transborda e derramam paixão por todos os lados. Outros, como eu, são desiludidos. Seres de vida longa e solitária que amam a quilômetros distância, que são capazes de invejar o vento que brinca, tranquilo, com os fios de cabelo dela. Amantes como eu são, na verdade, condenados… A magia e a beleza do nosso amor estão na infelicidade. Somos capazes de morrer por aqueles que mantêm nosso coração acorrentado em uma jaula fria e empoeirada (às vezes apelidada de amizade). Queria ter forças para me confessar, implorar se preciso for, mas não posso… Preciso que você me veja, preciso que sinta minha aflição, que se dirija pra mim e diga: “Eu te liberto, está tudo bem agora”. Mas você não vem, não virá mais.

Quanto passa por mim, desajeitada, branquinha, com o rosto aflito e aqueles olhos, sinto que não virá mais. Estou na estação te esperando há muito; é chegada minha hora de partir. Perdoe-me por nunca expor a você minha paixão, mas seres como eu, que amam assim, não devem se entregar, é matar o encanto, é destruir o fogo que faz o sentimento arder no peito. É uma escolha? Talvez, por hora prefiro penar que sim, pois não seria capaz de atribuir a você culpa alguma por ter feito a escolha que fez. Sentirei falta da negritude de seus cabelos lisos e delicados passando por mim; sentirei falta do perfume que você espalha pelo ar; sentirei saudade eterna de seus olhos, aqueles mesmo um dia me acorrentaram ao seu coração. Demorei a falar deles, pois meu espírito não está preparado; temo que nunca mais consiga me lembrar deles sem antes sentir uma espada me atravessar minhas entranhas e me arregaçar por dentro.

Aquela foi a última vez que vi seus olhos, sua boca, sua pele branca, seu nariz fino e arrebitado, seu cabelo negro e cumprido. Foi um misto de dor e epifania; dor por te ver você entregar seu amor a outro, epifania por vê-la linda como nuca havia visto antes. Santo Deus, que imagem é aquela, ainda a vejo com nitidez na minha cabeça. Guardei as lágrimas a todo custo dentro de mim, contive minha frustração por toda minha vida.

Antes de morrer, deixo a ti esta pequena confissão. Nossas vidas tomaram rumos ignorados, mas saiba que nunca te perdi de vista, nunca deixei de te ver, sempre esteve de perto, observando, de longe, mesmo sabendo que seus poderosos olhos sequer olhavam em minha direção. Devo tudo a você, meu amor. Devo meu nome, meu espírito, minhas frustrações, minhas alegrias, minhas dores, minhas saudades, meu gosto pra arte, meus talentos mais particulares. Saiba que tudo que fiz em vida foi pensando na sua candura. Obrigado, você deu significado pra minha existência pífia e vazia.

Ainda assim, nada contem minha dor de imaginar que, em instantes, quando morto, continuarei a sentir saudade daqueles olhos…

Nota do autor: Reginaldo, 88 anos, faleceu na última semana em Patos de Minas, Minas Gerais, vítima de infarto. Irônico ter falecido de uma doença que estoura as artérias e dilacera o coração. Talvez por ter guardado tanto amor no peito, o recipiente não coube e estourou. Era uma alma boa, altruísta e simpático ao extremo; todos na rua gostavam dele. Disse-me há muito que antes de morrer presentear-me-ia com sua história de vida – e o fez. Sou grato, Reginaldo, que esses escritos resistam ao tempo e eternize seu amor por aquela (que não posso revelar o nome) a quem dedicou tanta observação. Agradeço-te ainda por me emprestar sua alma e permitir que narrasse suas frustrações através de minha mente e minha caneta tinteiro. Que seu amor seja eterno, como estas linhas são. Vá em paz!

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Flávio Sousa

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