O beijo ao acordar não existia mais. A distância era uma ponte, arrebentada pelo orgulho. O dia a dia consumia todo o fogo de antes, com baldes caprichosos de água fria. Ela se recolheu. Foi viver os dias que restavam daquele relacionamento, pra entender o que ela ainda fazia ali.

Tentou.

Abraçou e foi rejeitada. Beijou e foi anulada. Falou e não foi ouvida. O tempo passou demais. Momentos que oscilavam entre felicidade e desprezo.

Ela reclamou. Relutou. Sentiu seu coração bater mais forte quando ele chegava perto. Mas, era só isso. Nem ela sabia explicar. Só avisava que, quando atravessasse a ponte, seria pra ir pra bem longe e nunca mais voltar.

Ele, duvidou. Achou que estava bom do jeito que estava. Achou que dois ou três meses mudando o seu beijo, o seu toque e com uns carinhos intercalados com palavras amorosas, curariam o tempo perdido entre o silencio e o tanto faz.

O tempo passou, de novo. E, de novo, a rotina engoliu até as tentativas.

Dessa vez, ela gritou. Esperneou. Não aguentava mais viver aquela relação de distância. Queria alguém pra conversar sobre o seu trabalho. Queria fazer planos com alguém. Olhava pra ele e não se enxergava naquela vida. Nem sentia-se enlaçada naquele abraço.

Fingindo não escutar, ele saiu pra comprar pão e foi jogar bola.

Voltou tarde depois do bar e, ao retornar, sua cama e guarda-roupa estavam vazios. Nenhum sinal dela. Ela nem havia usado perfume pra não deixar rastros. Ele conseguiu dormir e acordar no dia seguinte pra viver a vida normal. E viveu.

A ficha não tinha caído completamente. Ela, de longe, já conseguia sorrir e sonha de novo. Ao atravessar a ponte, ela encontrou-se com ela mesma. Mais leve, livre e solta. No fundo, ela não quer saber como as coisas ficaram do outro lado da ponte.

Ele vasculha fotos e lembranças. Se pergunta porque rejeitou o calor dos beijos molhados que recebia. Sonhava com ela, pensava nela e a queria com um desejo que, perto dela, nunca tivera. Na verdade, ele achava que ela estaria perto dele a vida inteira. Percebeu que a amava.

Saiu pra comprar o pão na padaria de sempre e voltou logo pra casa. A esperança era a sua melhor companhia nos últimos dias.

Voltou pra casa, mais uma vez, e não encontrou ninguém. Estava só. Definitivamente, só.

A ficha caiu e ele tremeu. O estrondo foi tão forte em sua consciência que o coração doeu e as lágrimas rolaram. O relógio nem marcava sete horas, mas ele sabia que já era tarde.

 

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Participe da conversa! 1 comentário

  1. Meu Deus… Que texto lindo.
    Que consigamos nos amar mais e atravessar nossas pontes sem olhar para trás.

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Edgard Abbehusen

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