Na maior parte do tempo discutiam, implicavam e  teimavam um com o outro. Nunca antes foi visto casal mais controverso. Seguravam a barra o máximo durante a demorada semana, economizavam o que dava e conferiam cada centavo de troco. Tudo isso tendo como intuito passar, no final de semana, exatas 2 horas e 45 minutos na praça de alimentação do shopping e nada mais, para que não pagassem uma taxa extra do ticket de estacionamento. Ali saborevam a mesma marca de chopp gelado de sempre, dando fim às sobras dos trocados que guardavam.

Neste momento, não havia discussões calorosas e problemas matrimoniais. Não eram admitidos na hora do chopp, sob hipótese nenhuma. Eram capazes de achar que o parceiro era outra pessoa nesse momento, como se estivessem traindo-o estando na companhia de um terceiro, quando na realidade era o próprio cônjuge. Em meio aos goles, arriscavam um passatempo: palpites sobre a história de quem passava por ali. Se iam às compras ou voltavam delas, se eram casados, até mesmo traços de personalidade eram palpitados.

– Veja ali, aquele senhor de meia idade, meio calvo, com um sorriso completo, não somente no rosto mas estendido ao restante do corpo! – o marido mostrava

– Na certa entrou com o pedido de aposentadoria hoje! – Completava a mulher – depois de anos de serviço, finalmente terá um tempo reservado pra fazer o que gosta. Viajará para o interior de Goiás e comprará uma casa num bairro sossegado.

– E brindará a notícia com um bom chopp no bar da frente, onde irá informar a notícia a sua senhora – completou o marido, numa tentativa romântica de garantir algo mais tarde…

O velho senhor some de vista. O marido nota que a mulher não o acompanhava na bebida, alegou não ter sede. Passaram outras pessoas sob a vista deles, entre elas uma jovem menina. Agora, recém apresentada à vida adulta, tentando equilibrar em um braço uma bandeja com sua refeição e no outro um bebê de colo, aparentando ter pouco mais que alguns meses.

– Olha lá, tão nova e já tem que carregar um filho! – espantou-se o marido.

– Quem sabe encontrou o amor logo cedo, deu sorte.

– Um amor com uma conta bancária recheada, olha só a cara… – alfineta o marido.

– Não seja amargo, Alberto! – interrompe a mulher, sem deixar estragar o momento.

Afinal, era hora do chopp, a mais alegre e a de maior convivência entre eles. Não havia outro momento mais adequado, se não aquele para ela anunciar que, em breve, também carregaria um bebê junto com sua bandeja. E mais, se sentiria feliz por, assim como a menina, ter encontrado seu par.

– É, mas diferente dela, seu companheiro anda devendo ao banco. – completou o marido e sorriu pedindo outra rodada ao garçom.

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Caio Lima

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