Achei que eu fosse morrer quando você ligou ontem à noite, com a voz lambuzada de falsa doçura, perguntando se eu estava bem. Sei lá, garota, você nunca fez o tipo que fala doce ao telefone e era por isso que eu amava tanto você. Você era prática. Simples e prática, mas tão prática que algumas pessoas, às vezes, te consideravam até um pouco fria. 

 

Vai soar masoquismo talvez, mas era exatamente por isso que eu te amava tanto. Então você me ligou, quente e doce, e eu senti que tinha algo de errado, que você estava diferente, que o caos se aproximava. Estávamos a um hiato de algum Armagedom. Eu podia sentir, só pelo açúcar no tom de voz. Você perguntou como foi meu dia, e foi outro erro, garota. Você não se importava. Não te interessava nem um pouco se meu chefe brigou comigo, se saí para almoçar com algum cliente, se alguma amiga antiga tinha ligado, se minha saúde estava em ordem ou qualquer outra coisa. Você queria saber apenas se nos veríamos e, quando nos víssemos, trocaríamos alguns beijos, alguns toques. Era sempre assim. Talvez assistíssemos algum filme — eu sempre gostei da parte dos filmes, comeríamos qualquer bomba calórica e brindaríamos com cerveja. Eu amava a forma como você insistia em brindar sempre antes de beber qualquer bebida alcoólica. Brindávamos quase todos os dias. 

 

Anyway, garota. Estava tudo errado quando atendi aquele telefone. Eu até deveria desconfiar, porque você nunca me ligava, mas, sei lá, acho que tudo tem sua primeira vez e eu estava normal e tranquilo até que você soltou a porra da frase “como você está?”, morna e mansa. Aí eu falei por horas. E você perguntou do dia. E eu falei por mais algumas horas, mesmo sabendo que você não prestaria atenção. Sei lá, você meio que nunca prestou verdadeiramente atenção nas coisas que eu te falo, porque elas nunca te importaram. Aí que eu fiquei falando só para prolongar o tempo, te enrolar, te atrasar. Tentar evitar que a onda gigante chegasse rápido demais, destruindo tudo. Eu precisava me preparar, entende? Eu precisava tomar fôlego antes da onda chegar e, deixa te confessar, eu não estava pronto para deixar você destruir tudo. 

 

Sei lá. Aí depois que você ficou miúda do outro lado da linha e eu só ouvia tua respiração, eu parei de falar também. E a gente não disse nada. E eu respirava fundo e meio ofegante, porque sabia que a tsunami estava vindo e não haveria fôlego suficiente para suportar. Então ela veio, quando você — ainda morna e mansa — soltou a frase mais dolorida que ouvi da tua boca em, sei lá, três anos de relacionamento conturbado: “a gente precisa conversar”. Eu tive vontade de ser bobo e besta, eu quis brincar dizendo que a gente já estava conversando, mas não dá pra conversar enquanto a gente se afoga. 

 

Agora estou aqui, sentado nesse bar que nos conhecemos esperando você vir com aquela ladainha de “não é você sou eu”, “eu acho que não estou preparada para um relacionamento mais sério” ou, sei lá, talvez você diga que conheceu outro cara, mais bacana do que eu, que não é tão fanático por filmes e que curte músicas normais ao invés de MPB antigo. Sei lá, garota, eu me afoguei ontem e foi ruim pra caralho voltar a respirar, então, não diz nada. Eu vou sair e tomar um ar, quem sabe me queimar com algum cigarro. Não quero saber teus motivos e, por favor, não fique me olhando com tanta doçura, que é pior que se afogar em mágoas. Eu te amei, torto e estranho, mas te amei. Então, hasta la vista, baby.

 

 

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Mafê Probst

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