Peço em primeira mão desculpas ao Rubem Braga, o grande revolucionário da crônica brasileira. Em segundo lugar, a você que ainda tem paciência de me ler. Distante é a minha intenção de cometer qualquer sacrilégio ao mestre com esta paródia de quinta da sua borboleta amarela de estimação com quem passou  bons momentos. Conto-lhes aqui justamente o inverso, os minutos agoniantes que vivi com outra borboleta noite passada.

Antes fosse, querido leitor, uma tentativa da minha parte de usar de metáforas para descrever uma bela companhia em minha cama. Porém, dormi sozinho. Por isso, falo de forma literal quando menciono esta borboleta louca. Entrou no meu quarto da mesma forma que outros insetos menores fizeram, sem ser convidada, possivelmente fugindo de alguma chuvarada que estava por vir.

Não tinha nenhum voo suave e tampouco era bela quanto a amarela mencionada pelo Rubem Braga. Era de um voo desorientado e aterrorizante, chocando-se a todo instante com as paredes do quarto. Também não tinha nenhuma cor viva e notória, era um marrom, cor de madeira apodrecida. Tão horrenda que tive pena de imaginar a lagarta feia que fora antes da metamorfose.

Que vergonha senti de mim! Enquanto meu ídolo poetivaza sobre a borboleta que tomou pra si, eu, em pânico, me escondia, sobre cobertas da dita cuja que mandava e desmandava em mim. Junto com minha masculinidade, imaginando que, se de fato estivesse acompanhado, teria passado uma tremenda vergonha, ficou evidente também minha falta de predileção para a escrita. Jamais encontraria lirísmo naquela situação, tal como fez o velho Braga.

Sentindo-me atado, esperando a boa vontade de que ela decidisse sair por onde entrou para poder retornar a ler o livro do Antônio Prata (outro fã do Braga, por sinal!), me dei conta de que o próprio, gozador de si mesmo,  talvez tratasse do assunto com tanto pavor quanto eu, então qualquer desenvoltura literária não estaria necessariamente perdida. Sendo assim, busquei criar uma coragem de soldado que vai à batalha. Com os besourinhos pretos menores que pousavam na cama, me pus a lançá-los aos petelecos e nas minhas tentativas de bombardeio conduzi a inimiga até a cozinha, onde pousou na porta da geladeira. Meu quarto era um ambiente seguro novamente.

Restavam três certezas em mim naquele exato momento: uma era que poderia voltar a ler sossegado, a segunda é que jamais seria o Rubem Braga e por último, que essa noite não sentiria sede por nada nesse mundo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

CATEGORIA

Caio Lima

Tags