Leia ouvindo Mulher – Ana Cañas. (https://www.youtube.com/watch?v=mnQiEqKReas)
Hoje é dia da mulher, certo? Dia de lembrar-nos o quanto nós somos lindas e delicadas e loucas e neuróticas.
Hoje é dia de receber flores e chocolates, desconto em produtos de beleza, aparelhos domésticos e mensagens vazias sobre o que acham que somos.
Hoje é dia da mulher, mas eu não tenho o que comemorar, porque hoje é o dia da mulher midiático, superfaturado, comercial, capital, brutal.
Hoje é o dia da mulher que nos outros dias é chamada de louca porque não se cala pra abuso.
Hoje é o dia da mulher, que apanha nos outros 364 dias e chora calada porque vive sem amparo, sem espaço, sem rosto, sem voz.
Hoje é o dia da mulher que assiste calada, homens de terno e gravata decidirem sobre o seu corpo. Muitos pais abortam sem a menor consciência, simplesmente vão embora… Mas hoje estamos falando do dia da mulher que não pode tomar essa decisão, que não pode falar sobre isso, que não pode escolher sobre isso, que não tem direito a vida.
Hoje é o dia da mulher que, sozinha, luta pra criar os filhos sem ajuda do pai que acha que é menos responsável só porque não teve uma gestação em seu corpo.
Hoje é o dia da mulher, que quando livre é chamada de puta, vagabunda, imoral, indecente, promíscua, vadia, vaca… a lista é longa!
Hoje é o dia da mulher que aparece na tv, na capa dos jornais, nas histórias mais curiosas sobre super mulheres sofridas que tem mil e uma utilidades para a sociedade machista ao qual está inserida. Dia da mulher que lava, passa, cozinha, cuida da casa e dos filhos e ainda exerce uma grande profissão.
Mas não é dia da mulher real que está de fora da tv, que não tem acesso a jornais ou internet.
Dia da mulher que é subjulgada, esquecida, maltratada, humilhada, hostilizada, condenada e desrespeitada durante todos os outros dias.
Só por hoje a mídia esquece de nos condenar ou nos menosprezar, apenas para cumprir seu papel social de uma data. Aliás, mulher não é sinônimo de competência nos outros dias do ano.
Hoje é dia da mulher e só por hoje eu quero sair na rua, sem ter que ouvir meu corpo ser sexualizado por homens ou pela mídia.
Só por hoje eu quero usar uma saia, sem ter fiscal de medida “tá curta demais” “tá parecendo uma crente”.
Só por hoje eu quero não ser chamada de puta só porque falo o que penso ou porque fui pra cama com os caras que eu quis.
Só por hoje eu quero ser vista com um ser humano igual, que sente e que tem desejos também. O meu desejo não tem que ser menos porque eu nasci mulher e “preciso me dar ao respeito.”
Só por hoje eu quero andar pelas ruas sem o medo de ter meu corpo invadido, sem o medo de ser agredida.
Só por hoje eu quero conduzir um país e ao tomar decisões erradas, ser chamada de incompetente e não de puta, vadia e vagabunda.
Só por hoje eu quero ocupar um cargo e receber um salário justo ou deixar de escutar piadas sobre ter dormido com meu chefe, quando for promovida.
Só por hoje eu quero dar de mamar ao meu filho na rua sem ter alguém banalizando o meu ato ou propondo que eu me cubra.
Só por hoje eu quero decidir sobre o meu corpo e sobre a vida que eu quero ter.
Só por hoje eu quero ser mãe solteira sem ser julgada. Porque hoje o que mais se vê é a realidade das mulheres que criam seus filhos sozinhas. Criam meninos e meninas que nunca souberam sobre seu pai, que nunca o conheceram nem por fotos, muito menos receberam um telefonema no dia do aniversário.
É confuso estar do lado de quem sente, de quem fica do lado daqui, de quem assume o peso de gerar e colocar um filho no mundo. Sozinha.
Virou estatística a quantidade de caras que vão embora viver suas vidas e esquecem de quem deixaram pra trás. Eu sou estatística, você também. Sou mais uma criança com a certidão de nascimento com um milhão de Xs no nome do pai.
Só por hoje eu quero decidir não ter filhos, sem precisar ouvir que “toda mulher nasceu pra ser mãe” até o fim da vida.
Só por hoje eu não quero ser presa por quebrar um contrato com um cara que me violentou, nem que duvidem do abuso alheio.
Só por hoje eu quero não ser chamada de louca. Aliás, dia desses eu li no facebook: “Os homens têm muitas histórias sobre as ex loucas. As mulheres normalmente não. Porque mulher que tem ex louco, geralmente está morta”.
Só por hoje. 8 de março. Por um único dia. O meu dia, não é mesmo?
Mas por todos os outros dias também! Quero que me deixem ser o que quiser, porque durante todos os dias do ano, eu quero é ser dona de mim.
Hoje é muito mais do que flor, hoje é dia de resistência e de luta. Dia de avisar pra todo mundo que viemos para cada vez mais ocupar os espaços que ainda nos são negados. Dia de silenciar assédios e não se calar para eles. Dia de divulgar dados cruéis, porque é complicado lidar com a peteca de saber que 86% das mulheres brasileiras sofrem ou já sofreram assédio na rua, que 80% delas, já sentiu ser assediada no trabalho e se calou por que duvidou da ação que sofreu. Vivemos a banalização do assédio. Muitos homens e mulheres (infelizmente) ainda acham que é normal, natural do homem, assediar. Principalmente de maneiras sutis que só nos constrangem cada vez mais, afinal, o machismo está enraizado.
Sete a cada dez mulheres são agredidas ao longo de sua vida. É triste lidar com uma sociedade que se nega a reconhecer seus defeitos de caráter e é mais triste ainda não conseguir assumir que o machismo é um problema real e histórico. E mesmo quem fala tanto, quem estuda, se desconstroi, ainda não consegue lidar quando é vitima de machismo e agressão. A gente sempre acha que tem bagagem o suficiente pra saber contornar as coisas, principalmente quando acontece dentro de casa. A gente sempre acha, mas não tem. Um muro desmorona todas as vezes em que uma mulher é agredida. Todas as mulheres sofrem junto quando uma mulher é agredida e violada.
É importante falar sobre o machismo de todo dia. Falamos muito sobre literaturas, pensadores, conteúdos e ramificações. Mas a realidade do machismo está na rua. Está no jornal. Está dentro de casa. Nas nossas escolhas que não são tao nossas.
A descriminalização do aborto, por exemplo, é justamente pra que mulheres possam escolher. Tem muita mulher pobre, classe baixa, sem nenhum tipo de acompanhamento psicológico, morrendo por não ter acesso ao aborto. A legalização do aborto deve ser uma questão de saúde pública, saúde da mulher e mais do que isso, uma questão de sororidade e empatia. E é importante entender o lado de quem sofre, de quem morre, de quem sente a dor de realizar um aborto clandestino, sem amparo médico. Mas também é importante entender o lado do feto, que se torna um ser, uma criança que nasce pra morrer, pra ser violentada dentro de casa, pra não ter acesso à saúde e educação, pra virar bandido, pra morrer depois pela bala da polícia.
Só por hoje eu quero o meu direito de decidir sobre o aborto, de decidir ser a favor, de decidir ser contra.
8 de março, mais um dia internacional das mulheres! Dia das mulheres, num mundo que ainda mata 5 mulheres a cada hora por causa de machismo?
Rosas só se for pra colocar sobre o corpo das 119 mulheres assassinadas diariamente por seus parceiros e parentes. Feliz dia da mulher, pra que mulher?
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Participe da conversa! 1 comentário

  1. Muito bom seu texto Camila, infelizmente ser mulher nessa sociedade é praticamente um insulto, temos que está sempre lutando contra a discriminação e a desigualdade

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Camila Oliveira

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