É nas terças-feiras que Elizabeth se sente mais sozinha. É estranho, mas algo não se aquieta na alma e devolve ao corpo ardores de ansiedade e medo. Acordar nunca é tão complicado como na terça-feira. Procura coragem; só encontra preguiça e roupa suja pelo quarto ― a tolha molhada está embuchada na cadeira da escrivaninha. Romeu, o gato vira-latas que acolheu na rua, está com fome, invade o quarto impaciente e ronrona por ração, ou resto do macarrão instantâneo de ontem à noite. Como quem pede licença para cometer um pecado, o sol entra devagar pelos furos da cortina e a moça descobre que realmente já são horas. O trabalho lhe aguarda, acumulado. Sentindo que fora derrotada por sua própria inércia, atira longe as cobertas com pés e ruma para o banheiro. Há muito abandonou o hábito de se olhar no espelho; não se reconhece mais.

Todos notam, sobre ela, uma nuvem negra que dá aos traços exóticos da ruiva uma palidez sensual e provocante. Ela sabe da beleza que tem, sabe dos olhares que arrasta quando passeia distraída pela calçada, mas pra quê? De que vale tudo isso se dentro de si mesma reside um monstro estrangulador, impiedoso, que transfere cargas de responsabilidade que não consegue carregar. Ah, pobre criatura, tão perdida, tão dotada de mistério. Mesmo que fosse condenada ao inferno, o próprio Satanás intercederia por ela, e trocaria essa única alma por mil medíocres. O mal não é o bastante pra ela: está além da capacidade de qualquer ser nesta terra de ser interpretada. Não há anjo ou coisa-ruim capaz de traduzir aqueles olhos, de um castanho ― quase mel ― vivo e latejante. Marcada pela saudade, talvez? Não importa. Alguma coisa se formava em torno daquela mulher e isso tornava todo o resto desnecessário, talvez até inútil. Que essência carrega seres como aquele? Parecem fenômenos, prontos para iniciarem a destruição planetária, a todo custo. Com certeza é um daqueles mares que, como já advertia Antônio Machado, poucos naufragaram de noite!

Era preciso repensar a vida ― se é que tinha uma. Às vezes chegou a considerar que era fruto da imaginação ingrata de alguém. Consumida por esse pensamento, tentou raciocinar com seria a vida se fosse mero fruto da imaginação atenta algum ser vivo na terra. Se imaginação fosse, pularia de janela, e nada aconteceria, provavelmente renasceria em outro momento. Assustou-se, quando descobriu que poderia até renascer, mas não na mesma atmosfera, nasceria em outra, talvez mais triste e abafada! Era arriscado pular da janela, afinal, seja em qual dimensão (ou imaginação) estivesse, morte é sempre morte. Fato é que poderia renascer em outra, mas não seria a mesma e, provavelmente, não se lembraria de quem fora um dia ― a finitude da consciência era aterrorizante!

Tentou imaginar como se imaginaria, se tivesse que criar um novo mundo. Como seria sua personalidade, que cor daria pra sua pele, como seriam seus cabelos, lisos ou encaracolados? Era difícil dizer, mas gosta dos lisos que tinha. Completamente perdida dentro das circunstâncias da própria vida, não tinha escolha se não brincar de Deus e tentar imaginar como seria imaginada. O problema todo era imaginar Deus: dotado de super poderes, dono de tudo e todos, menos dela. De alguma forma, e até se sentia afrontada por isso, sentia como se não fizesse parte de nada. Por que Deus, todo poderoso, não lhe dedicaria um bocadinho de que seja de atenção e perdão? Logo ela, uma menina assustada e como medo do futuro, pois esse representava o nada.

Criada a coragem para enfrentar o dia, se enfia no metrô e tenta não pensar na vida. Quer gastar as energias em coisas normais: namoro, amizades, assuntos do trabalho… Coitada, não tem sucesso profissional há anos; o último namorado era um palerma agressivo e as amizades, bom, perdeu a maior parte delas quando namorava.

Sentando na poltrona de frente, Paulo, outro desgraçado esquecido no mundo, perdia seu tempo tentando imaginar como as formigas se organizavam em sociedades. Será que a rainha era eleita por maioria popular, ou havia uma ditadura imposta pelo sangue nobre de sua linhagem? Nota-se que passou longe das aulas de biologia ― no fundo sabia, mas era mais gostoso pesar no mundo do modo como lhe convinha.

Elizabeth cresceu diante de seus olhos como uma figura misteriosa e escandalosamente triste! Nossa, mas isso causava-lhe um efeito dúbio: era atraente, mas deixava uma dor estranha no peito. Não resistiu: foi até ela. A moça foi receptiva, disse coisas desconexas que só ele entendeu (só ele mesmo). Estranha a sensação que se aninhava no peito dela, há muito não se sentia aceita, acolhida. O que assustava era o fato do menino ser ainda mais maluco que ela… Paulo era como uma canção dos Beatles num filme francês: exótico, que causava boa sensação em mundo cercado de coisas estranhas e, na maior parte, apático e sem sentindo pra ela.

Embora fosse estranho, Paulo era gente fina, tinha bom papo e muitas histórias pra contar. Não demorou muito pra que Elizabeth se sentisse entregue a ele ali mesmo, no metrô. Sabe aquela sensação, maravilhosa, de conhecer um ser igual e se reconhecer nele? Era isso que sentia. Talvez, apenas talvez, aquele a imaginou estivesse pensando nisso desde o início: um encontro casual no transporte público.Nunca disseram o que houve depois daquela tarde de terça-feira, mas o sorriso dos dois denunciava o início de uma boa relação, de momentos juntos, essas coisas de amor. Talvez a vida trate mesmo de unir seres estranhos…

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Flávio Sousa

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