07/03/2017

Sem filtro

(Você pode ler este texto ouvindo “Live It Well”)

Um dos últimos shows em que eu fui, me assustou muito, e me fez abrir os olhos para algo muito importante: viver o momento, ao invés de capturá-lo, transformá-lo em InstaStorie, Snap, Live no Instagram e no Facebook, e depois, mais uma quantidade absurda de fotos sobre a mesma coisa, o mesmo lugar, a mesma experiência. Por que é que a gente precisa capturar tudo? Eu me assustei com os outros, mas também me assustei comigo, depois de chegar em casa, ver as 15 selfies que eu havia tirado com as minhas amigas, as 57 fotos do mesmo palco, as 5 Lives que eu fiz no Facebook, os 11 vídeos de músicas que eu amava… Mas eu não havia mergulhado em nenhum destes momentos. A minha música favorita tocou, e eu arranquei o celular do bolso pela centésima vez (!), para fazer mais um vídeo, e fiquei enlouquecida quando a minha bateria acabou justamente no refrão; Esbravejei por mais uns 30 segundos, e então, mais da metade daquela música já havia ido embora! Eu não imergi minha alma na letra ou na melodia. Eu não me conectei… com o momento. E quantas vezes a gente já não fez isso, né? Vale tudo por uma selfie, até ser mordida por um tubarão em Fernando de Noronha. Vale tudo por um like, até se expôr em excesso e usar tantos filtros na foto, que quem vê a gente na rua, acaba por não nos reconhecer.

A gente vive, praticamente, uma “ditadura dos filtros”, em que a gente se sente quase que na obrigação de registrar tudo o que faz, do acordar ao deitar-se novamente, a gente registra cada piscar de olhos, enche de filtro, e posta em cada rede social que possui. Quanto mais likes, melhor, e se vierem acompanhados de elogios, nosso ego agradece. Quanto mais seguidores, então, melhor ainda! E quando a gente se torna figura pública, a coisa aumenta de tamanho, porque as pessoas pedem para acompanhar a nossa rotina, pedem por vídeos no Snapchat e InstaStories, e nem pense em parar de postar! E em que momento a gente pausa o virtual e vive o agora? Aquela Arara-Azul voando, livre, rasgando os céus em beleza e graça, naquele dia, naquele horário, a gente não vai ver mais. A gente não vai mais sentir a brisa do vento tocar o nosso rosto, e nem sentir o cheiro do lugar em que estávamos. O momento passou, e ao invés de se entregar à imersão, pusemos os nossos celulares em riste e registramos cada bater de asas, acreditando que não perdemos aquele momento. A gente põe os aparatos para mergulhar, e já leva a GoPro em uma das mãos, e sai filmando tudo o que vê; uma tartaruga marinha nada graciosamente ao meu lado, mas eu não nado com ela… eu a persigo, enquanto filmo tudo. Eu tiro uma foto, mas antes de colocar na internet, passo nela pelo menos uns 4 filtros, responsáveis por coisas como afinar o rosto e aplicar uma maquiagem (que fica ridiculamente artificial, mas a gente usa o aplicativo mesmo assim) sobre a que a gente já está usando, e ao postar a bendita foto, estamos ou irreconhecíveis ou extremamente artificiais. Que ponto estranho é este, ao qual chegamos?

Não é errado registrar o momento, não é errado corrigir uma coisinha ou outra em uma fotografia… Mas estamos todos exagerando na dose, “errando a mão” como diria a minha avó. Sabe, a vida não possui filtros. E a gente está deixando com que ela passe, enquanto colocamos mais um filtro, tiramos mais uma foto, fazemos mais um vídeo. Você pode sair várias vezes para jantar com a pessoa que você ama, mas uma vez nunca será igual à outra, por mais que vocês se direcionem sempre ao mesmo restaurante… A comida pode estar linda dessa vez, mas você já perguntou à esta pessoa bem à sua frente, como ela realmente está? Você já beijou esta pessoa hoje, já pegou a sua mão, já disse o quão especial ela é? Você já olhou nos olhos desta pessoa, e ouviu tudo o que eles têm para te dizer hoje? Você está curtindo o momento com esta pessoa, está imerso à experiência à dois, ou está mais preocupado em fotografar e postar o prato de comida bem à sua frente, porque ele está muito bem elaborado? Quantas fotos conceituais formam o feed do seu Instagram, e quantos momentos especiais fazem parte da composição da sua história? Quantas pessoas você abraçou para caber ou ficar melhor na foto, e quantas pessoas você abraçou mesmo, com toda a sinceridade do teu ser? Você curtiu mesmo a sua família, ou apenas fez mais uma pose legal para colocar nas redes sociais e manter a sua boa imagem (irônico o uso dessa palavra agora, né?) para as pessoas e ganhar mais uma tonelada de likes? Você vivenciou cada segundo da sua viagem, ou ficou procurando mais lugares legais para fotografar e fazer uma pose diferente? Você sentiu e ouviu toda a atmosfera da viração do dia, ou apenas tirou outra foto do Sol se pondo no horizonte?

A gente só vive uma vez, nosso tempo de vida é um suspiro, e estamos puxando o ar pela metade, porque o restante do tempo, estamos segurando a respiração… e o celular. A vida passa rápido demais, e estamos perdendo, ao menos 30 segundos para cada vídeo que fazemos para postar no Instagram. A vida é uma só, e estamos correndo atrás do vento e entupindo as nossas veias de vazio. Almas aprisionadas. Mentes obsessivas. Celas de prisões em nossas peles. Felicidade instantânea em formato de “joinhas” ou “coraçõezinhos” nas telas de nossos celulares. Fotografias deletadas se os likes não chegam em cinco minutos. Nós podemos fazer melhor.  A vida é mais do que isso.

Pode registrar o momento, sim. Mas não esqueça de que, mais do que registrá-lo, você precisa vivê-lo. O ontem não volta. A hora que passou, não volta. Cada momento é único em suas singularidades e particularidades… Não se esqueça de valorizar isto mais do que os likes que você pode receber na próxima postagem.

A vida acontece sem filtro, enquanto você está preocupado em registrá-la, excessivamente. A vida acontece lindamente imperfeita, enquanto você está procurando o próximo filtro para deixá-la impecável. Lembre-se de viver, ao invés de meramente existir… Eu vou me lembrar também, constantemente.

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Débora Cervelatti

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