Já inicio o texto me desculpando por dar pitaco em um assunto do qual eu não tenho amplo conhecimento. A internet é uma ferramenta fantástica e, ao mesmo tempo, um tanto quanto perigosa, o perigo costuma estar nas redes sociais, todo mundo quer contar algo e todo mundo quer opinar, mas nem sempre isso é oportuno e, confesso, não sei se se estou sendo oportuna, mas esse texto (http://brasil.elpais.com/brasil/2017/02/20/opinion/1487597060_574691.html?id_externo_rsoc=FB_CC) me motivou a falar sobre o assunto.

Entendo o que a cor negra na pele muda na vida de alguém, entendo que nasci com privilégios apenas por carregar na pele a cor branca, mas sabe o que eu também entendo? Entendo que o brasileiro é fruto de uma miscigenação. Um exemplo bem claro disso é o fato de eu ter nascido branca e minha irmã ser negra, ter pai branco e mãe negra, avô branco e avó negra, isso muda a nossa perspectiva. Eu também entendo que estamos lutando contra o racismo.

Tenho uma prima linda e negra, sua mãe faz turbantes para ela. Tenho primas lindas e brancas, moram logo embaixo, viram o turbante, queriam um também e tiveram. Imagine se eu tivesse que explicar para elas que elas não deveriam usá-lo?

Os negros não lutam pela superioridade de uma raça, assim como o feminismo não luta pela superioridade das mulheres. Não, eles lutam por igualdade. Igualdade na seleção para o emprego, nos salários, no tratamento, enfim, em tudo.

Eu consigo entender que o passado na senzala tem efeito direto e suas consequências estão nos índices de presidiários, analfabetos e pessoas de baixa renda em sua maioria negra, mas aqui lhes escreve uma branca que nasceu na favela. Aqui lhes escreve uma branca de cabelo crespo. Aqui lhes escreve uma branca de mãe negra. O meu passado também está na senzala e acredito ser muito difícil, se não impossível, encontrar alguém no Brasil que não tenha tido um negro na sua árvore genealógica.

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Cultura negra ou cultura africana? O texto mesmo explica que vieram negros de diversos locais da África, lá existem diversos povos, tribos e nacionalidades – já que estamos falando de um continente – e até hoje existem guerras por diferenças culturais por lá (veja o filme “Hotel Ruanda”). Infelizmente, a identidade dos negros trazidos para serem escravos no Brasil em muito se perdeu na história e isso foi feito de propósito, é difícil regatar essas raízes. Aqui viraram apenas negros, se resumiram a única coisa que carregavam de semelhante: a cor. Então não se sabe a origem de cada um, apenas sabemos que eram negros e africanos.

No meio disso, tem o turbante. Podemos citar muitas outras coisas que vieram desse contexto: a capoeira, algumas religiões, o berimbau, etc. Estamos falando de apropriação cultural e temos o contexto de negros escravizados por brancos no Brasil. Para lutar contra a cultura racista, todos eles têm se unido para mostrar que têm orgulho da própria cultura e ainda sofrem pela discriminação. Na Bahia, o Olodum brilha no carnaval e traz consigo muitos desses símbolos, esse é só um exemplo.

Mas, afinal de contas, o que é ser negro? É só a cor da pele? O cabelo também conta? E o nariz um pouco mais largo? Ou a boca um pouco mais carnuda? Acho que todos nós carregamos algum traço dessa história e temos que nos orgulhar disso.

Eu não tenho a pele negra, mas sinto que a carrego, carrego no meu cabelo crespo, por exemplo. Olhar para mim e ver uma branca é só um olhar superficial, ao meu ver. Hoje a química os matem lisos, mas já ouvi ofensas quando os deixava naturais e nesse momento me lembrei que era negra também. Vejo que fiz errado em alisa-los, me submeti a padrões colocados pela mídia e não me orgulho. Mas, claro e obvio, isso em nada se compara a ter a pele negra. Em uma das visitas a meus parentes, meu primo me confessou no carro o quanto era ruim ser negro e ser parado o tempo todo para ser revistado por policiais e eu percebi o quanto era privilegiada por ter a pele branca.

Quando falamos do contexto histórico das senzalas, você perceberá que eu não passaria de uma escrava Isaura naquela época, mas estamos no século XXI, não sou considerada uma bastarda e sou branca. Então temos a polemica do turbante. Temos uma branca enfrentando bravamente o câncer e usando um turbante e por isso sendo mal encarada, segundo ela, por mulheres negras. Temos uma apropriação cultural e um debate por trás disso.

Quando uma branca usa o turbante, ele pode perder seu valor como símbolo de identidade negra e de protesto contra o racismo. Entendo que não queiram que ele vire só um apetrecho da moda, mas quando minha prima pediu o turbante, ela não perguntou se deveria usá-lo, ela achou bonito ver a prima com ele e quis um.

Quando eu uso um símbolo de outra cultura é muito provável que eu não saiba o seu significado, mas quem o conhece com certeza irá identificar. O erro não está em uma mulher branca usar um turbante e achar bonito, errado é alguém olhar o negro usá-lo e achar feio por ser um negro uasando. Se este é um dos símbolos da cultura negra, os vídeos não deveriam pedir para que brancos não usem um turbante, mas, sim, para que usem e se lembrem que este é um símbolo usado por africanos que foram escravizados no Brasil, símbolo que quer mostrar resistência ao preconceito. Então o branco não deve usá-lo como homenagem, mas como alguém que também é fruto dessa história e que deve participar ativamente do movimento que pretende acabar com o racismo no Brasil e no mundo.

Ninguém se pergunta se deve tocar um berimbau ou aprender capoeira. Ninguém se questiona se pode ouvir axé ou ir à um centro de umbanda. As culturas se misturam, ainda mais aqui no Brasil. Se eu usar um turbante, não será para homenagear a cultura negra ou para afronta-los, será porque eu achei bonito, porque um apetrecho criado por negros pode ser tão bonito quanto um criado por brancos, eu simplesmente não saberia a diferença, não estamos aqui para cria-la, certo? Usar um turbante não agride ninguém ao contrário de ser encarado por acharem que um branco não pode usar.

Quando meu cabelo era natural, ele vivia trançado. Minha cabeça doía de tanto que puxavam os fios para não ficarem armados. Isso, ao meu ver, era uma forma de “neutralizar” meus crespos. Eu não gostava, mas aquilo me era imposto para ficar “bonito”. Eu sinto um orgulho enorme todas as vezes que vejo cabelos crespos livres. Tranças para mim eram só uma forma de “neutralizar” meu lado negro enquanto que para os negros é só mais um símbolo da cultura. O racismo está nos olhos de quem o pratica e coloca diferenças.

Que tal pararmos de criar diferenças? Essas regras de se poderia ou deveria usar algo? Que tal deixarmos toda a palheta de cor para as pessoas acima do peso, o turbante para brancas e saia para homens? Não vamos olhar torto, o nosso objetivo deveria ser o de diminuir barreiras e respeitar, de se igualar como ser humano porque somos todos iguais.

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