Amar é como confessar um crime ou romper o lacre de um feitiço proibido. Seja na prisão, ou envolvido na áurea negra da magia, aquele que ama sempre carregará consigo lembranças que não podem ser apagadas ― no máximo serão depositadas em um canto esquecido do coração e lá permanecerão esperando que, em um dia de faxina, sejam novamente descobertas. É impossível amar sem deixar marcas; esquecer sem sofrimento. O amor ― como disse São Paulo ― é forte como a morte, daí seus efeitos. A grande questão é: vale a pena? Uma pergunta que só os escravos da paixão são capazes de responder. Sofrendo as duras penas, os apaixonados travam uma luta diária contra eles mesmos. Somente os fortes de espírito, ou os desprovidos de sentimentos, têm a capacidade sobreviverem ilesos dos ataques mortais do amor. A pancada é forte; o amor é um boxeador sem mãe que bate sem piedade e só sossega quando vê o adversário na lona…

Foi na lona que Lorena ficou depois que Alex decidiu ir embora ― claro que ele não perguntou se ela queria ir junto. Anoiteceu e não amanheceu. A moça acordou e descobriu um vazio na cama que logo foi parar no peito, no amago dos sentimentos. Sabia que havia sido abandonada. Como explicação um bilhete: “Não sou capaz de te amar; você merece um homem melhor”, escreveu o rapaz. Como? Para ela não haveria no universo homem melhor que ele! Foi por isso que era o escolhido, foi por isso que dividiu com ele os mais tenebrosos segredos, foi com ele que explorou os limites do prazer… Homem melhor… Talvez Lorena não levou em conta que há seres, como Alex, que são feitos de areia: não importa o que você plante neles, nada prospera. Era incapaz de absorver o quer que fosse. Quis plantar um jardim, mas tudo que conseguiu foi regar as rosas à exaustão para vê-las morrer em um terreno infértil. Alex, provavelmente, não estava preparado para o amor.

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As lágrimas molhavam o travesseiro que trazia o cheiro dele. Aquele cheiro agridoce, quase agressivo e que lembrava certa selvageria na alma. Lorena tragava o aroma como um narcótico e produzia na cabeça lembranças que pareciam reais ― sentia-se em plena sessão de regressão, era quase possível toca-lo de novo. As mãos apertavam com ódio e amor o travesseiro, quase rasgando o tecido, a ponto de espalhar penas pelo lençol. Era o que queria: apertar o peito ― até explodir ― e expulsar o amor, expulsar as lembranças. Infelizmente, era fraca demais pra isso. Doía imaginar que, a essa altura, estaria ele em um aeroporto qualquer embarcando para uma nova vida e para um novo amor. Se bem que agora indagava de si mesma se aquele homem era capaz de amar. O maior vício do apaixonado é atribuir a eles mesmos culpas e vergonhas que não os pertence. Lorena se viu como culpada na história: não havia se entregado o suficiente, não havia amado o bastante, não havia demonstrado tudo que sentia. Lamentável, mas é uma doença que todos os que amam, quando são abandonados, desenvolvem. É compreensível, afinal, não é fácil dizer que o ser que mais amamos na terra é o único culpado pela sua desgraça. Talvez seja no amor o único momento em que assumimos uma culpa que não nos pertence.

Decide tomar banho, refrescar a cabeça, pensar na longa semana de trabalho que tem pela frente. Por que ele não a abandonou no fim de semana? É uma crueldade abandonar alguém em pleno domingo, dia das misérias e desgraças da vida ― para Lorena esse mal seria mais donoso que para a maioria. Com os olhos fechados, deixa a água tocar-lhe ― gota a gota ― a face triste e carregada de paixão traída. É invadida pelas lembranças das mãos dele passeando, com desejo, pelas curvas dela. Por um segundo chegou a sentir aquela respiração na nuca.  Abre os olhos assustada e se entrega ao choro, copiosamente… Lorena foi derrotada.

Não importa para onde ela vá, sempre haverá naquele apartamento um pouco da essência de Alex por toda a parte. As memórias parecem uma metralhadora, disparam sorrisos, desejos, momentos, orgasmos e uma serie de coisas que há muito nem se lembrava. Agora é a hora de iniciar um novo ciclo: o do esquecimento, o da libertação. Não será fácil, será doloroso e oneroso para a alma. É preciso lutar! Como sempre acredita no amor, Lorena trabalha agora para apagar as memórias, para reativar sua capacidade de crescer, sua capacidade de ver no outro algo que não viu em Alex. Força de vontade ela tem, sempre teve.

Em outro domingo qualquer decide que ficar em casa é bobagem e se entrega a um passeio no parque! Nesse momento entende que para se libertar de uma paixão é preciso primeiro se libertar da memória! Vai lotar sua cabeça como novos sorrisos, novos beijos, novas amizades. Vai lutar até o fim, mas vai vencer!

É daqui que vejo Lorena contemplando as flores, brincando com as crianças… É nítido que está ferida, mas não deixa de lutar por isso. Confesso que está ainda mais bela do que quando a deixei. Se me arrependo? Não. Ela precisa de alguém que seja capaz de amar; eu não sou. O máximo que consegui foi causar a ela um estrago. No entanto, acredito que fez bem pra ela. Está crescendo, está mudada: está mais forte. Continuo o mesmo, mas com uma história a mais na minha bagagem. No entanto, devo admitir, você conseguiu, Lorena, deixou em mim algo que não se apagará de mim: o seu sorriso.

FIM…

flavio

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Flávio Sousa

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