Quando acontece alguma coisa no mundo a gente se sensibiliza, sente dor e em todos os lugares se fala sobre isso. O sensacionalismo dos jornais, os comentários vazios nas esquinas, as correntes de whatsapp que viralizam sem embasamento ou veracidade, as opiniões do facebook e o grande martelo que é batido por cada um em nome da justiça.
A gente se sente um pouquinho desconfortável quando somos envolvidos por tragédias e massacres. A gente se sente compactuante de um crime apenas por estar em sociedade e ser um boneco dentro de todo esse sistema feito pra matar pobre sem piedade, sem empatia, sem sensibilidade pela vida humana.
E a gente quer saber, destrinchar a história inteira pra alguma coisa fazer sentido na cabeça. Buscar culpados ou pelo menos algum Judas a ser apedrejado em nome da justiça que a gente nem em sonhos um dia já possuiu. A gente quer a paz, mas vive imerso numa guerra moral que nem em 100 viradas de ano conseguiremos reverter. A gente quer amor ao próximo, menos ao próximo marginalizado… A escória da sociedade que nasceu pra morrer na maior das crueldades.
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Uma noite de crime pra gente mataria bem menos do que todos os dias de crime onde quem não pode pagar segurança, padece. Mas vivemos de uma moral forjada por uma religião qualquer que abomina essas atrocidades. Quando não pode ver, quando acontece nas favelas, bem distante de você, nos presídios que são fonte de renda pra político corrupto que todo ano disputa eleição e vence, porque o crime só é crime pro pobre. Rico sustenta essa máfia chamada corrupção há milênios. Político destrincha leis pra se beneficiar e encontra amarras onde pode sustentar seus vícios, sua ganancia e sua sede de poder.
Quem detêm poder não se preocupa com o próximo, quem está sentado na cadeira cravejada de privilégios das prefeituras não se sensibiliza com o mínimo que é se doar por outro ser humano, não se preocupa em destinar acesso e conforto pra quem espera horas por um ônibus, por um atendimento médico, por uma vaga na universidade, por uma vida melhor e menos sofrida.
Nós compactuamos com a crueldade todos os dias. Mas somos juízes de todas elas e nunca culpados. O negro marginalizado é a culpa. Aliás, a expressão “negro-marginalizado” é redundância no mundo inteiro. Sangue de pobre escorre todos os dias nas periferias, nos barracos sem saneamento básico.
Matar é horrível quando o sangue escorre sem a gente ver, sem a gente se chocar com a realidade de que tem muito mais sangue na mão de rico, do cidadão de bem e do policial que devia defender e não matar, do que a gente pode imaginar.
Nossa sociedade é um filme de terror censurado para menores de 18. 18 nada! Tem que reduzir a maioridade penal. Se matou, foi porque escolheu matar e não porque faltou educação, saúde e valores.
Somos minideuses povoando a terra. Somos instigados a dilacerar comentários como os mesmos martelos que batem na mão de juízes.
Nos indignamos com o sistema de justiça, mas esquecemos que burlamos leis para nos beneficiar quando precisamos minimizar nossas falhas de caráter. No nosso mundo ganha quem já nasceu trapaceando, quem já nasceu na posição da frente de uma fila de calda onde habita os excluídos.
Camila
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Camila Oliveira

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