Sempre me questionei se podia ser amor, e mesmo assim, não perdurar. E acho que obtive a melhor resposta com uma bela moça que subiu no ônibus em que eu estava. 

Há três lugares ideais para se refletir sobre a vida: No aconchego da cama ao encarar o teto. Nas águas macias de um belo banho. E na janela de um mero ônibus de linha. Em meio a tanta correria da cidade grande, ela subiu aquelas pequenas escadas tão sutilmente como quem fugiu de um filme onde o casal não fica junto no final. 

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Havia algumas cadeiras vazias mas, por algum motivo, ela sentiu-se confortável em sentar ao lado de um rapaz que lia Romeu e Julieta. Bochechas rosadas de quem dormiu de menos, olhos vermelhos de quem chorou demais. Ela fitou o livro por alguns instantes e deve ter se perguntado; Que homem no mundo leria Romeu e Julieta em um ônibus?

Mas não chegou a perguntar nada, nem ao menos dizer uma simples palavra. Ela apenas encarava a janela mundo afora e imaginava um lugar diferente dali. Talvez seus sonhos não fossem grandes demais, talvez, a cidade é que fosse muito pequena para ela. Cabelos negros que balançavam com o suavizar dos ventos, cicatriz na sobrancelha esquerda, covinhas na bochecha rosada. Ela era linda, e por um rápido momento eu achei que Julieta realmente existisse, e mesmo que ela fosse real, eu nunca tinha sido nenhum Romeu. 

Sentado ao lado dela, eu já tinha imaginado dois filhos chamados Maria e Ruan, um cachorro adotado, e uma linda casa no campo de quem acabou de casar na praia. Queria saber o que ela tanto pensa quando insiste em por teus olhos pra fora da janela, e queria fazer parte dos pensamentos dela também.

Ela flagrou-me rapidamente e fitou-me nos olhos culpando-me com tuas retinas castanhas. Eu aceitei a culpa de quem encarava a coisa mais bela que já tinha visto. Então paguei meu débito a culpa sorrindo na frente de teus olhos marrons. Ela sorriu de volta, e disse que amava a parte que Romeu beijou Julieta pela primeira vez. 

Então, como alguém que passa a página de um livro e não espera por uma despedida surpresa, ela levantou-se, pediu “com licença”, e se foi. Sumiu assim sem deixar pistas de onde eu podia a encontrar, se foi assim, sem me deixar o simples cheiro do perfume de rosas. 

Foi aí que entendi que alguns amores vem e vão, mas jamais, em vão. Amores efêmeros, entende? 

E passei o resto do caminho com meus olhos janela afora. Na esperança de um dia, quem sabe, a garota das bochechas rosadas suba aquelas escadas novamente.

Pedro

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Pedro Ficarelli