Ignoro os motivos que me trouxeram as voltas com esse diário; ignoro, há muito, os sentimentos que me motivam a relatar as experiências de minha vida ― se bem que já nem sei mais se vivo; acho que apenas existo, como os seres rasos da terra. Ontem, voltando pra casa, passei pelo jardim do seu Baldo e confesso que não reparei em uma pétala sequer. Não seria capaz de dizer se as rosas eram vermelhas ou brancas, sei apenas que são rosas… Ouvi dizer que são bonitas, que têm cores altivas e graciosas, mas já não reparo nelas.

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Poderia dizer que a culpa é sua, que o frio que hoje habita meu peito é resultado do seu total desinteresse pelo meu amor e pelo meu calor. No entanto, prefiro pensar que você me procura, inconscientemente, dentro de si mesmo. Como não vê nada além de vazio e desespero, tenta me encontrar em outros abraços, outro cheiro, outro toque, outra risada… Não encontrará nos outros ― e você sabe muito bem disso ― nada do que fui para nós. Aquela mulher que fui outrora não existe mais; ela morreu ― sim! Morreu e não se assuste com o termo ― depois que me jogaste aqui em baixo, nesse vale seco e incolor que é o abandono.

Se você soubesse como estão amareladas as folhas desse diariozinho… Digo isso porque as folhas do seu tempo eram brancas e transmitiam a paz absoluta e um silêncio contemplativo que fazia o peito retinir com emoção. Hoje, tudo que tenho são folhas amareladas, lembranças mal apagadas e histórias sem final. Lembra-se dos meus poemas? Dos quais muitos dediquei a você? Estão todos aqui e, ironicamente, como nós dois (ou pelo menos como eu) acabados, finalizados, com último verso e um ponto final que encerra um sentimento. Pena que, para mim, o nosso poema não tem ponto final, mas reticências. Mas e os novos poemas? Você deve estar se perguntando. Esses também estão como uma parte de mim: por fazer, como um terreno que aguarda a obra, mas não há engenheiros, serventes, pedreiros, só o lugar vazio, esperando para ser preenchido e, enquanto não ocorre, se deteriora e é tomado pelo mato seco e duro que nasceu regado pelas minhas lágrimas salubres.

O que me entristece não é a saudade, não são as lembranças, nem os momentos juntos. O que acaba comigo é o vazio. Sim, o vazio! Creia ― e digo do fundo do coração ― escrever estas linhas não dói! Compreendeu? Não dói! E é isso que me assunta! Transformou-me num ser oco, opaco e incapaz de produzir qualquer sentimento, entre eles o maior e mais completo, o amor. Que arrancasse tudo de mim, mas não o amor! Sinto como se fosse forte como a morte, mas meu calcanhar de Aquiles é você. É como se a conjugação do verbo amar começasse com “você me ama”… Repito, não dói! Não dói. Lembre-se disso: não dói.

Foram inúmeras as vezes em que me tranquei no quarto e estudei, comigo mesma, que diabos é esse tal de amor. Sei que amo, amo mais que muita gente por aí, mas onde está esse amor agora? Onde está minha capacidade de ver as coisas? Você e seu sorrido desgraçado roubaram meus sentidos. Não enxergo, não ouço e não sinto nada sem você! Devolva-me o prazer das coisas simples, é o que lhe rogo, de joelhos, se preciso for. Que fique com quem quiser, que transe quantas achar necessário, mas traga-me de volta.

Arrepio a espinha só de pensar nas mazelas e moléstias que já lhe desejei. Se não morreu ainda, meu caro, é por pura sorte ou capricho de apaixonado, pois as pragas que lhe roguei… as pragas que lhe roguei… Está vendo? Olha o monstro que você criou! Eu, que nunca desejei mal a uma mosca sequer, desejo seu tumulo, sua cabeça decepada. Já amei outros, é verdade, mas nenhum deles levou de mim o que você levou. Não me fez nenhum mal, confesso, mas sua personalidade, seu jeito de me olhar e suas carícias aos domingos, me deixaram presa a você. Pena que nunca quis me levar para onde quer que você fosse. Sente meu peso em suas costas? Acho que não, mas mesmo assim, queria perguntar.

É madrugada, a chuva cai e eu preciso apenas de um afago seu, no meu pescoço, como só você sabe fazer, para dormir e me embrulhar na chuva. Gosto do som da água tocando o telhado, o chão e as folhas e os trecos do quintal… Era mais bonito quando você fazia prestar atenção nessas coisas e ― Deus, como eu sou boba! ― não entendia nada, mas mesmo assim sorria. Uma experiência pra vida! Por último, saiba que já esqueci e não te amo. Se um dia alguém ler esse diário, saibam que é a ele ― cujo nome não pronuncio mais ― o responsável pela minha apatia sentimental. Peçam-no que devolva meus sentidos.

flavio

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