Saudades de quando te disfarçavas de violão e eu te dedilhava em cada tom maior sobre minhas coxas. Saudades dos teus lábios matutinos que beijavam doce por pura implicância do ser. Saudades dos teus olhinhos nipônicos que me recitavam poesias sem precisar dizer palavra alguma.

Tô com uma dor bem aqui no peito esquerdo já faz umas duas semanas. Fui ao médico ontem e fiz todos os exames enquanto o doutor me diagnosticava; ” É dor de saudade, meu filho. Mas isto passa doutor? Quantas pílulas por dia? Tomo de 8 em 8 horas? É que eu tô com uma saudade de entregar todos os beijos que não a dei, doutor. 

Já tô ficando com saudade da saudade que sinto por ti. Saudades de tuas birras. Saudades do teu cheiro no meu travesseiro que já não lavo faz dias. Saudades da pizza do outro dia que costumávamos comer pela manhã. Saudades dos teus carinhos matutinos, dos teus arranhões noturnos. Saudades até das nossas brigas, acredita? 

Saudades das nossas fotos no porta-retrato, das nossas danças sobre o azulejo da cozinha. Saudades dos filhos que nem tivemos ainda. Saudades do cachorro que ainda vamos adotar. Saudades da vida que um dia – eu sei – iremos compartilhar. 

É que minha cama anda tão vazia sem teu perfume por perto. Minha vida anda tão sem sentido sem teus dedos colados aos meus.

Eu sei, eu sei. Estou preso em um labirinto de lembranças sem sinal algum de escapatória. 

Triste de mim. 

Tanta coisa pra inventar, e fui logo inventar saudades.

Pedro

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Pedro Ficarelli