Era uma tarde qualquer quando se deu conta. Foi uma epifania, uma aparição. O deslumbramento, imediato. Cabelos negros, olhos castanhos e vivos, a pele branca como vela e um sorriso tímido, mas bonito. Não sentia aquela pressão no peito há anos – pensou até que não existisse mais amor pra ele. Por mais que desejasse conter o riso, não podia! Era maior, era mais forte, era incontrolável. A imagem daquela mulher produzia êxtase, causava tontura, era delicioso! Seja lá quem fosse a estranha fruto de sua cabeça humana, precisava encontra-la o mais rápido possível. A busca deve ser imediata! O amor chama, amor chama!!!

Ruas e mais ruas vasculhadas, canto a canto, e nada. Desistir? Nunca! Era preciso encontra-la, custasse o custasse! E assim fez; por semanas, por messes, por anos… É, diante de algumas circunstâncias, nem mesmo o amor sobrevive a tanto fracasso. O problema era esquecer. Apagar aquele rosto em sua memória, destruir aquele sorriso e seguir em frente, com sempre fez: solitário. O maldito Deus do destino debochava do rapaz – sem dó nem piedade. Pensava que talvez estivesse enlouquecendo, esquizofrênico, quem sabe? Melhor não consultar o psiquiatra, ele pode provar que está doido, pensava com seus botões. Volta e meia aquela imagem invadia sua cabeça e bagunçava tudo de novo. Com um pé-de-vento que desarruma a mesa do escritório. Que desgraça é o amor! Que desgraça é amar sem nunca ter amado. E se ela realmente existisse? E se tivesse o dispensando? Sofreria do mesmo jeito, talvez estaria muito pior. Mas o coração não quer perguntas, não se contenta com o “e se…” o coração quer respostas, que checar por se só, quer arriscar, arriscar!!!  Coisa besta essa do coração, não acha? Arriscar, pra quê? Pra sangrar, pra definhar saudade e ir se esvaindo para o nada? É, era exatamente isso que o coração dele queria.

Estava com saudades de ser aquele homem vazio de amor, mas cheio de vontade de viver, que colecionava paixões, que nunca dormia só. Hoje, passa noites em claro e não tem ninguém. Está transbordando amor, mas vazio do resto. Não tinha com quem compartilhar tanta coisa, tantas sensações, tantas alegrias, tantas vitórias, tantas derrotas, tantas derrotas, tantas derrotas! Percebeu que, desde que a mulher entrou (entrou?) em sua vida, acumulava derrotas, acumulava dor. Só queria um pouquinho de paz, um pouquinho de conforto.

Um dia, enquanto no caminho que faz sempre para ir à padaria, viu uma moça… Bonita, cabelos negros, olhos vivos e castanhos, pele branca como… Corre, precisa alcança-la. Respira ofegante, corre, o mais rápido que pode, tromba nos pedestres, os olhos se desmancham em lágrimas pela calçada. Seria agora, seria desta vez? Corre mais, corre até sentir as pernas endurecerem… “Ei”, grita feliz… A moça vira a esquina, olhando para trás, mas segue seu caminho. Esbaforido, quase desistindo, segue agora caminhando. Ela volta, mas traz nos braços uma pessoa: o marido, o namorado, o amante, o amigo? O baque foi forte demais. “Chamou, moço?”. Poxa, era igualzinha, era igualzinha! “Não, me confundi, pensei ser outra pessoa. Desculpe”, volta derrotado, abatido e sem vontade de viver. Era ela, mas já tinha um amor, já tinha alguém. Será que demorou demais, será que procurou nos lugares errados? Só consegue se abater, no banco da praça. Começa a chuva.

O barulho da água tocando o chão e as folhas, e os telhados, o teto dos automóveis, confortam por um tempo. Logo está melancólico novamente. Passou a vida amando uma mulher que existe, mas que não o ama – que tem outro, que é ainda pior. Tenta se entender, se debate, não aceita a própria loucura, o autoengano. Por que aquele rosto? Por que aquela mulher!?

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A pressão arterial aumenta, despeja sangue naqueles miolos apaixonados… Aos poucos a imagem desaparecia, junto com sua alma. Estava indo, indo… Não teve tempo de pedir socorro. Morreu ali, na chuva, na praça, com água tocando o chão, o teto dos automóveis…

Chamava-se Zeca, era contínuo da Caixa. Quando viu no noticiário a morte do homem que viu há dias na rua, Michele (a dona do rosto) tomou um susto e foi invadida por uma sensação ruim. Zeca, Zeca, quem era ele, quem era ele? Uma foto sem barba, menos envelhecido, lhe trouxe a lembrança de uma antiga paixão, de infância, de adolescência. Zeca era o menino que levava gardênias pra escola. Eram apaixonados, um pelo outro, sem nunca se revelarem. Na formatura, Zeca jurou nunca esquecer o rosto dela, custasse o que custasse. Michele fez diferente: decidiu deixar o mocinho guardado num cantinho do coração, para, quem sabe, um dia, despertá-lo com a mesma paixão dos tempos passados. A atitude da moça deixou o rapazola arrasado. Decidiu fazer tudo ao contrário! Iria apaga-la da memória, nunca mais pensar nela, nem guardar nada.

Mas o Demônio da paixão – que habita em cada um de nós – decidiu dar outro rumo para eles. Enganou Zeca, criou a mesma paixão com um suposto novo rosto, mas o mesmo sentimento. Para ela, o moço ocupava muito mais que um cantinho, era como uma mobília enorme dentro de um apartamento minúsculo. Não ficaram juntos, pois o Demônio, queria que ambos pagassem pela chance desperdiçada… Deixaram o medo ser maior…  O amor bate à porta só uma vez!

FIM…

flavio

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Flávio Sousa