Ela era linda quando estava nem aí pro resto do mundo. Quando ria alto das piadas sem graça que ela mesma fazia, gesticulava de forma espaçosa explicando teorias que existiam só ali, dentro dela, e especialmente quando ficava olhando pro nada. Eu, sempre do lado dela, imaginava as coisas que passavam pela cabeça dela naquelas horas de tranquilidade. Os olhos dela fitavam a combinação do mar com os tons quentes que o céu formava, o contraste preenchia os olhos dela, ela parecia tão apaixonado pela paisagem quanto eu por ela.
Eu mal podia esperar pelo momento em que nossas mãos se tocassem e ela me olhasse, pra eu poder dizer o quanto a admiro quando está assim. Mas ela estava tão trancada dentro de si, perdida no mundo próprio, acima de tudo, ela estava tão feliz, eu não poderia tirar ela daquela hipnose. Aquele momento era raro. Ela tão feliz, tão leve, tão apaixonada pela vida, infelizmente, era raridade.

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Minutos se passaram e eu continuava ali, observando cada detalhe dela. As covinhas que o sorriso formava, a sobrancelha por fazer, os dentes brancos e um pouco desalinhados, a franja – que não parecia incomodar nem um pouco sua visão -, as unhas feitas e, claro, os olhos tão escuros como a noite.

O celular dela tocou.
Num reflexo rápido, ela atendeu a ligação. Preocupada, saiu a procura de sinal. Acredito que tenha sido uma ligação vinda do escritório onde ela trabalha, mas não sabia ao certo. O que eu sabia com cem por cento de certeza é que aquele momento de paz tinha acabado. Logo ela pediria pra que entrássemos no carro e fôssemos direto para casa porque “ela teria que correr para o escritório”, e tudo bem, sabe?

Porque, sim, ela estava linda naquele entardecer na praia. Pude sentir o gostinho do que costumávamos ser durante nossa adolescência: um casal despreocupado, livre de todos os problemas do mundo adulto. Talvez seja um pouco de egoísmo, mas nem ligo, era bom tê-la só pra mim. Não me entenda mal quando falo dessa tarde em particular, ela é linda todos os dias, é encantadora todos os segundos e o amor da minha vida o tempo inteiro mas essa data, ah, essa data me lembrou quão indispensável é fugir da rotina. Como é bom sair da cidade cinza, sem celular, sem ninguém atrapalhando, só nós dois, à sós, pertencendo um ao outro.

Todo casal deveria tirar um tempo da vida corrida dos dias de hoje, pra ser um pouco mais um do outro. Eu retiro o que eu disse, não é egoísmo, não. É amor. E fazer a manutenção dele regularmente, faz parte de amar.

debora Bobsin

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  1. […] via Manutenção do amor — Jornalismo de Boteco […]

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