A chuva caía mansa, escorrendo por sobre a pele. Ela o aguardava, maquiagem borrada, olhos pretos, solitários. O sorriso minguava tal como a lua que não via. Tudo era um quase. E o que quase é, deixa de ser, então. As estrelas lhe escaparam do rosto, o coração batia tímido no peito, as pernas reclamavam de dor, por não suportar o peso. O peso da dor, o peso do quase, o peso daquilo que poderia ter sido e não foi, o peso da responsabilidade e o peso daquelas palavras finais — que não foram ditas. Ainda.

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Na cabeça, imagens de toda uma mentira vivida. Passos falsos, sonhos apenas. Falsidade em tudo que tocara, em tudo que vivera. Olhos que traíam, contradizendo todas as palavras proferidas, todas as inverdades inventadas. Que sentido tinha tudo aquilo, afinal? Por que viver de ilusão? De palavras, apenas? Na esquina, um passo molhado. Uma respiração entrecortada e um coração em desespero. A sombra aproximava-se lentamente. Ela a olhou no exato instante em que a sombra parou. A noite, tornou-se gélida.

— Desculpe a demora. — disse a sombra — Achei que você não chegaria tão cedo. Que bobo fui, em desacreditar-te. Tu sempre foste pontual, erro teu, donzela. Atrasar-se, que seja pouco, é charme. Desespero daqueles que amam…

Ela remexeu-se, inquieta. O bafo quente chegava ao seu alcance, aquecendo-lhe a ponta do nariz, vermelha do frio. O gosto era ácido, falso. Ardeu-lhe a língua. Ardeu-lhe os olhos. Ardeu-lhe o peito.

— Não consigo perder meu tempo quando o mundo desaba cá dentro. Você, justo você, deveria saber bem disso. É. Não adianta me olhar com essa cara assustada, eu não vim até aqui para concordar com palavras vazias, cansei. Meu coração é negro, morto dentro de mim. E em você, não acredito mais.

A sombra aproximou-se, tornando-se máscara nítida na fraca luz nebulosa do poste. Indecifrável.

— Não podes me abandonar simplesmente, donzela. Sempre fomos um e eu sempre te pertenci. Amo-lhe além das palavras e sempre disse isso à você! Como podes não acreditar em mim, depois de tantos “eu te amo” que te disse, depois de tanto compartilharmos um mesmo espaço?

— Falar de amor, não é amar, Amor. Você deixou de ser clichê e passou a ser modinha. E eu fiz parte dessa mentira que leva teu nome. Não. Aqui, não mais.

mafe

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Mafê Probst