Era só mais uma segunda-feira quando Laura foi invadida por uma sensação estranha e assustadoramente invasiva. Escarafunchou, na defensiva, aquele sentimento que sufocava e trazia arrepios à pele. Não era novidade, mas era diferente. O fato é que não sabia mensurar o tamanho da coisa que, aos poucos, lhe dominava o peito. Olhou em volta e viu todos distraídos com suas xícaras imensas de café amargo – não tomava café, mas o cheirinho que dominava a cozinha era gostoso… Será que era a única que sentia aquele estranho acelerar dos ritmos cardíacos? Estaria à beira de infarto fulminante? Daqueles que arregaçam o coração e invalidam a cabeça? Deus, não! Logo percebeu que doença não era, mas que algo estava estranho estava! Tinha certeza absoluta.

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Consultou a memória – que não era lá essas coisas – a fim de encontrar algo parecido. O problema é que não tinha a precisão numérica para se orientar e descobrir quando foi a última vez que “aquilo” (ela ainda não havia dado nome a coisa que sentia) aconteceu. Laura não era boa com cálculos, com proporções aritméticas. Na verdade não sabia se era boa em alguma coisa. Mas tudo bem, isso não vem ao caso, afinal, pode-se perfeitamente a vida sem talento algum e mesmo assim ser excepcional. Era uma artista da inabilidade: ninguém dominava melhor que ela a habilidade de não ter habilidade nenhuma. Já havia tentado de tudo: futebol, basquete, queimada, medicina, engenharia, letras… A lista era interminável. Assim aceitou o talento que tinha: a inabilidade. Era excepcional. É verdade que amava as coisas simples e tolas da vida, mas essas – no mundo dos homens – não contam. Quem liga para uma cerejeira em flor? Laura liga. Era fascinada com as flores: por onde passava apanhava uma e logo atrelava nos cabelos negros. Era o terror dos jardins domésticos! Dona Nina já flagrou a ladra de rosas, mas acha que ela fica tão bonita com elas que nem liga – até oferece flores para moça.

O tilintar das xícaras na mesa fez Laura cair em si. De novo aquela sensação! Estava mais forte: sentiu pancadas no ventre e o coração mais acelerado que antes. A mãe de Cesar, rapaz que acolhera Laura como amiga, ofereceu mais chá e fez uma cara de extrema satisfação com a presença dela. A moça sorriu, tímida, como se aquilo não fosse com ela. Há muito não era bem recebida, com abraços, com festa, com pão-de-queijo, com gargalhadas e tudo mais… Aquilo era novidade, era bom demais! Mas dentro dela um alarme disparava, como se esperasse uma invasão repentina e dolorida – “não via durar, não vai durar”, lhe dizia uma voz interior conhecida.

A sensação de estranheza aumentava e nada fazia com que aquele disparar de coração desacelerasse. O fato de não compreender o que era aquilo que preenchia seu vazio rotineiro era o que mais a irritava. Levantou-se da mesa, colocou pressa em voltar para o apartamento. Precisava abrir o peito – nem que fosse à faca – e descobrir o que tanto a incomodava! “Vai chover, menina, volta”, atalhou a mãe de Carlos. Era tarde, Laura já cruzava a rua, em silêncio e o vento lhe enrolava o cabelo na fuça. Que era aquilo, meu Deus! Uma ansiedade maluca a consumiu e a respiração foi ficando seca e descompassada. Nem saliva havia mais na boca. Era só desespero de descobrir que infortúnio era aquele que lhe rasgava aos poucos a goela e iria saltar fora.

Por óbvio, a chuva lhe atalhou o caminho e não perdoou: desceu copiosa! Quando a primeira gota de chuva tocou o rosto de Laura, ela entendeu o que se passava. No meio da chuva, ensopada, a felicidade lhe consome o ser e desenha no rosto dela um sorriso, sincero e relaxado! O que tanto incomodava era apenas felicidade, sensação de paz, mesmo que momentânea. Por que se assustou? Ninguém se assusta com a felicidade. A maioria das pessoas não, mas Laura era diferente, era excepcional. Assustou-se porque há muito a felicidade não lhe visitava e por vezes pensou ter sido esquecida por ela. Sentia-se pequena demais para ser amada, para ser feliz. Logo ela? Confusa e cheia de feridas por cicatrizar, era merecedora do riso? Sim, pelo menos naquele instante, acolhida pela família de Carlos era digna da mais nobre felicidade. O mundo poderia até não entendê-la naquele instante, mas ela entendeu que o mundo é dor, mas na lacuna mora a felicidade. Hoje estava na lacuna, não poderia deixar para trás o único momento de felicidade, depois de tanto tempo! Voltou para casa de Carlos.

A mãe – dotada da sabedoria milenar do lar – lago emendou: “Menina, a felicidade te assusta?”. Laura sorri e diz que “hoje não”.

FIM…

flavio

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Flávio Sousa