Era quarta-feira, o céu estava nublado, anunciando uma tempestade; mesmo assim permaneceu lá. Estava encantada com as flores e com as criaturinhas do jardim. Do outro lado, Dona Maria Conceição, que recebera esse nome da mãe, que era devota da Santa, apartava os netos debaixo da saia e pediam para entrarem, pois a chuva se fazia mais próxima. Miguel, que há muito observava a moça, nem percebeu o aviso; foi preciso arrastá-lo pelas orelhas. “Menino atentado, quando a vó chamar, você obedece”, esbravejava Conceição. O garoto não entendia o nome da avó, pois de Santa e cândida, ela não tinha nada. Era brava e grossa, como um portão de cemitério.

Mesmo de longe, continuou olhando a mocinha. Estava interessado na dança daqueles cabelos ruivos com o vento. Como são bonitos, pensava buscando uma definição mais precisa pra eles. Esforçou-se ao máximo para dizer o quanto eles eram lindos, mas não conseguiu, ainda era menino demais para entender a beleza dos cachos de uma mulher. Ouviu o pai dizer que elas eram como deusas, que era preciso trato na palavra, coisa que se adquire com o tempo. Que complicadas são as mulheres, neste instante ficou feliz por ser menino. Agradeceu aos céus por ainda não ter que se preocupar com elas.

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Só que a moça lá fora lhe deixava sempre uma dúvida: por que ela não sorri? Será que não tinha pais? Será que estava triste, com dor dente? Como são terríveis as dores de dente, talvez fosse isso. O vento piorava e bagunçava ainda mais aquela cabeleira, mas Miguel achava tudo tão bonito…

Pregava a cara nas grades do portão para continuar observando a menina – era assim que ele a definia: menina. Nem mulher, nem moça, nem velha, nem senhora, nem senhorita, era menina! Se bem que ela tinha mesmo jeito de menina, daquelas bem sapecas, que tem um jeitinho tranquilo, doce, puro como água.

Agora ela mexia nas flores, estava de frente para Miguel, que ao longe não retirava os olhos daquela moça. Como ela era bonita, de vestido rodadinho, igualzinho aos que sua prima, Clarinha usava, um pouco maior é verdade, mas era igualzinho aos da prima. De repente, ela retirou o cabelo do rosto, colocou-o delicadamente para trás e olhou fixa na direção do menino. Naquele instante descobriu o que era beleza! Santo Deus, o que era aquela menina? Tinha olhos claros – não soube definir se azuis ou verdes – não importava: era a coisa mais linda e reluzente que viu em toda a vida! Embora tivesse vivido pouco, se comprado com a sua mãe, ou com a vovó, viveu pouco, mas viu muito, assim considerava. Esse tempo todo olhando pra ela e não havia reparado nos olhos dela! Como foi bobo, pensava. Deixou-se encantar por cabelos encaracolados e ruivos? Agora sim tinha a suprema beleza diante dos seus olhos! Mas aquele rosto era exótico como uma madressilva. Na verdade pensou apenas na madressilva, não tinha idade pra saber o que era exótico.

Lá, na praça esperando a chuva, que já devia cair em instantes, a menina acenou pra ele, quando percebeu que era observada.  Correu, assustado, gritando pela mãe! Ela precisava de uma resposta urgente! Por que não sorria, por que não sorria? Era inadmissível não sorrir! “Mamãe, mamãe!!!” Ela não sorri, mãe, por quê?

Mulher esperta, já vivida e entendida das coisas, a mãe de Miguel viu a ruiva mexer nas flores. Entendeu na hora o que se passava com ela. Voltou sorrindo, e explicou ao garoto. “O mundo não está preparado para o sorriso dela; só isso”.

“Ela tem dor de dente, mamãe, é por isso que não sorri?”. Rindo da pergunta, a senhora, de ares calmos e mãos grandes e volumosas para uma mulher, sentou o menino no colo e explicou: ― Quando você crescer, Miguel, vai entender que há dores ainda mais terríveis que a dente. Vai entender, bobinho, vai entender. ― Desceu assustado do colo da mãe e foi para o quarto, inconsolável! Como poderia haver algo mais terrível que a dor de dente? Jurou que não cresceria, nunca mais! Teria para sempre oito anos! Crescer pra quê? Para ter dores piores que a dor de dente? Não, obrigado!

Mas a rebeldia durou pouco: de noite, quando a mãe fazia doces, Miguel quis logo uma bandeja só pra ele. Adivinhem a resposta da mãe: “Crianças não podem comer tanto. Quando for grande, uma bandeja inteira só pra você”. Ela riu, pois, esperta como era, sabia da promessa do filho de nunca crescer. Enfurecido, desejou logo ter 30 anos! Isso mesmo, com 30 se faz o que quiser, iria comer logo duas bandejas de doce!

É, mas o tempo passou; Miguel cresceu, é agora adulto, com 30 anos, a idade em que se pode tudo. Separou-se ha pouco da esposa, não sorri há meses. Hoje sabe que há dores piores que a dor de dente: a dor de amor. Miguel amou errado a vida toda e descobriu que essa era  a pior de todas as dores. Voltando à praça onde viu pela única e última vez a ruiva, descobriu que o jardim havia desparecido. Era hora de fazer renascer as flores, afinal, sem flores não há amor. Quis saber quem era aquela moça e porque nunca mais ouviu falar dela.

A mãe, mesmo doente, sabia da história e repassou ao filho. A menina, como ele a chamava, era Isabela. Morrera jovem. Segundo contam, morreu de amor. O noivo, marinheiro, se perdeu no mar e nunca mais voltou. Era pra ele que ela plantava e cuidava das rosas. Diziam que assim estaria mais perto do amado, mas não adiantou, a pequena morreu de amor. O pobre coração não resistiu a solidão e padeceu, não foi capaz de vencer o tempo.

Miguel agora se lembrava do que sua mãe dizia: “Há dores piores que a dor de dente”. O jardim da ruiva desaparecera. Agora homem, decidiu recomeçar o que ela deixou pra trás… pra não deixar o amor morrer.

FIM…

flavio

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Flávio Sousa