Dias atrás resolvi ir à feira. Há uma, todas as quartas-feiras, em um bairro próximo ao meu, o que é ótimo. Quando eu desci do carro, vi que havia uma frase grafitada em um muro, e as palavras “Nega, abrimos mão dos nossos sentimentos… coisa que queríamos pela vida toda!”, geraram em mim uma inquietação absurda. Me perguntei, ao longo da semana, o motivo para duas pessoas abrirem mão de um sentimento tão forte, que, no ato do abandono, gera o mais louco dos desesperos, desses que faz a gente sair sem rumo pela cidade, com o peito apertado, gritando o nome da pessoa. O coração grita “eu sinto falta, pelo amor de Deus”, o peito aperta, os olhos se transformam em mares abertos, e a gente insiste em abrir mão… Por quê?

A verdade é que a gente tem medo. Porque viver sozinho é descomplicado, ou já pode ser desafiador o suficiente. Porque hoje, em cinco minutos de Tinder, a gente consegue umas dez pessoas novas para conversar, adicionar no Facebook, seguir no Instagram… Tá todo mundo tão acostumado a beijar umas cinco bocas diferentes por noite, fazer ao menos uma loucura por semana, que a rotina de se dedicar à apenas uma pessoa, parece entediante. Assumir alguém para os amigos, pode ser desafiador. Assumir para a família, mais ainda. Assumir alguém para o mundo inteiro ver, é perder todas as outras opções (isso se você tiver caráter o suficiente para ser fiel). A verdade, leitor, é que a gente se acostumou com o egoísmo de satisfazer apenas as nossas vontades, fazer apenas o que a gente quer, assistir o que a gente quer, seja nos Telecines, na Netflix ou na ESPN, ir onde a gente quiser, sem ter que se importar com a opinião ou vontade do outro. A gente se acostuma tanto, que abrir espaço para outra pessoa, parece ser incômodo para a nossa felicidade estrategicamente organizada. Nossos compromissos já nos bastam. Tem o trabalho, tem o treino, tem a nossa vida organizada para comportar apenas uma pessoa, e não duas.

Mas deixa eu te contar uma coisa… Um belo dia, em um momento de desatenção, tropeça na gente aquele tipo de pessoa que nos dá vontade de mudar tudo. É aquela besteira dos filmes, sabe? Os olhares se cruzam uma, duas, três vezes, e na quarta, já era. Talvez a mão sue e o coração acelere, e a vontade de estar com esse alguém, se torna incontrolável. Quando a gente vê, já está deitado no colo do outro, em uma mistura de paz e coração batendo de forma totalmente inconveniente. A gente é covarde, eu sei. O amor é uma coisa grandiosa de gelar a espinha e perder o sono. O amor é para os corajosos o suficiente para dar a cara à tapa. O amor é para os decididos. E por mais indeciso que a gente seja, pode se tornar a pessoa mais decidida da vida, vai por mim. Mas as vezes os tempos são de cólera… E o segredo que pouca gente sabe, é que continuar amando torna-se a vacina para estes tempos.

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Eu não faço a menor ideia do motivo para o casal do muro ter se separado, mas eu posso ouvir o desespero do coração da pessoa que grafitou um recado naquela parede velha. O meu coração doeu, já ao ler a segunda palavra, e no “beijos”, eu pensei até na minha possível desistência de alguém que talvez sinta o mesmo medo que eu, mas que dissolve tudo em um estalar de dedos, e uma conexão de olhares. E então, a desesperada era eu, ao pensar na estupidez de abrir mão de alguém simplesmente porque o vento não é favorável, porque eu vou perder as minhas opções, porque reajeitar a casa, para que comporte duas pessoas ao invés de uma, me faça ter que tirar do lugar aquela mesinha de centro cheia de coisas que eu comprei em uns relicários de Nova Iorque e Londres. Mas ei… Eu descobri que ele vale a pena.

As pessoas são complicadas, a gente é complicado, e o mundo é três vezes mais complicado. Mas é besteira abrir mão de alguém que nos traz paz, nos traz a certeza de que vale a pena. O desespero que dá ao abrir mão, é letal demais pra gente brincar. Eu não sei que fim levou o casal do muro, mas eu espero, sinceramente, que esteja junto novamente. Sabe, o ditado moderno diz que “quanto (pegação) mais, melhor”, mas o vazio não compensa. O que compensa mesmo, é estar ao lado de alguém singular, que nos cause algo singular, ao fazer coisas ordinárias de maneira singular. O que compensa mesmo, é reorganizar a casa silenciosa, e enchê-la de riso à dois. Abrir mão de sentimento por conta de circunstância, só faz a gente morrer, um pouco por dia, com a saudade que ficou instalada no peito.

E é por essas e outras, que eu digo: abrir mão é coisa de gente que não sabe olhar para o futuro. O amor, é sobre os indecisos que souberam decidir, e não sobre os covardes “corajosos” que decidiram abrir mão porque os tempos são de cólera.

debora

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Débora Cervelatti