Há quase uma hora observo cada detalhe, cada movimento – ela notou, mas acho que não sabe como reagir, meus sinais ainda não foram claros o bastante. O primeiro passo já foi dado: plantei a dúvida; apesar disso, segue interagindo com meus olhos, que insistem em fugir para atrair. Não é uma questão de dominar, ou de vencer. Na verdade, não iniciamos um jogo, mas sim uma dança; somos cumplices. Procuro detalhes: o jeito como ela sorri, quem sabe? Não; embora o sorriso dela seja lindo, não é isso que espera ouvir esta noite. Suponho, apenas suponho, que aguarda por alguém capaz de ver algo a mais, algo que talvez nem mesmo ela saiba o que é. A minha tarefa é descobrir o que é esse algo a mais. Não importa quanto tempo leve, mas, cedo ou tarde, atitudes nos denunciam. Esse momento pode durar uma fração de segundos; é isso que me faz diferente: enxergar segundos, como se o tempo congelasse.

Procuro detalhes: seria o jeito como ela sorri? Não; embora o sorriso dela seja lindo, não é isso que ela espera ouvir esta noite. Suponho, apenas suponho, que espera por alguém capaz de ver além, algo que talvez nem mesmo ela saiba o que é. A minha tarefa é descobrir o que é esse algo a mais. Não importa quanto tempo leve, mas, cedo ou tarde, atitudes nos denunciam. Esse momento pode durar uma fração de segundos; é isso que me faz diferente: enxergar segundos, como se o tempo congelasse.

Pronto; o segundo que esperava: repare como ela mexe o cabelo e olha para baixo de um jeito esquecido. Isso diz muito. Sinto que no meio dessa gente, tudo que quer é ser pequena o bastante para não ser notada, talvez por isso foge dos olhares insípidos. Sentada à ponta da mesa, solitária, embora cercada de gente, observa aqueles que a rodeiam, como quem faz um julgamento do mundo. E eu, não muito longe, continuava devorando cada uma de suas perfeições. De vez em quando, paralisava sobre mim aquele frio e desinteressado olhar. Todas elas têm uma história e é isso que conta; quero descobrir o que faz dela um ser especial. É difícil conter o desejo, conter a euforia, afinal são lindos cabelos ruivos e olhos devoradores que tornam um homem feito em um garoto mimado. Mais um gole de vinho; é preciso coragem.

Depois de tanto esperar, decide sair e deixa as amigas numa conversa xoxa da qual não partilhava. Vi naquele instante ela desaparecer rumo a entrada, levando consigo o aroma, a luz e toda alma daquele lugar. Lá fora, com o cigarro aceso, parece ser sugada para outro planeta a cada tragada. Como pode ser assim tão encantadora? Repare bem no modo como a mão esquerda acaricia o braço direito, com movimentos de perdão e graça. No entanto, há mais alguma coisa que minha percepção ainda não alcançou. Por que sorri tão contida, se possui o mais lindo dos sorrisos? Talvez o mundo ainda não esteja preparado para o riso dela. O vento bagunça o cabelo dela e os fios flutuam e acariciam seu rosto – agora sorri como se tirasse a brisa para dançar. Assusta-se com meu olhar perdido sobre ela.

O que procuro afinal? Acho que um momento para eternizar. Há muito coleciono… coleciono momentos, sorrisos e histórias. Já disse isso, mas todas têm uma história, todas têm algo pra contar, mas essa moça, o que ela tem pra dizer? O que quer falar pra mim? Aquele olhar frio de novo, a mão, o vento no cabelo. Vamos, o que isso quer dizer? Será medo, será dor, ou apenas tédio de uma noite sem graça? Sinto disparar o coração, mas ainda não encontrei nada, não sei o que dizer. Ela sabe que logo aportarei junto dela, dizendo alguma coisa. As luzes confundem um pouco. Droga! Fui dominado, aconteceu de novo! Não posso ir embora sem ter com ela uma história, um momento pra eternizar. Sinto minha alma esmagada… Nossa que poema, que poema é você, moça? Aqueles trejeitos, aqueles movimentos, aquele quase-sorriso, aquele olhar, frio e vazio. É preciso chegar mais perto, mais perto, mais perto…

As batidas aumentam, sinto estremecer a planta dos pés, as palavras fogem e se tornam desconexas. O que dizer? Há tantas opções, há tantas possibilidades, tantas combinações. No fundo é bom sentir desmanchar sobre mim minhas próprias convicções.

Me aproximo…tum tum tum… minha camisa treme no rumo do coração, meus pelos eriçam, minha língua desliza por um instante os lábios e roça a ponta do bigode, tão perto, tão longe! Sua mão de parafina me acena; um anel, com descomunal pedra verde, engastado em seu dedo indicador, risca o ar num facho de luz… Chego até a margem de seu corpo tão limpo, tão branco, tão puro e contorno levemente sua cintura com minha mão imensa, de dedos longos e sagazes, ela se desenlaça e sorri, chupa o cigarro e atira um fiapo de fumaça no ar gelado da madrugada. Jesus, que êxtase!!!! E neste exato momento descobri qual era o sortilégio daquela mulher ao olhar seu pescoço flutuando na contraluz injetada de um poste acima de nós… Bom, era só o que tinha pra dizer; o segredo desses amores, a gente não conta, apenas coleciona. A noite, agora sim, vai começar pra nós…

flavio

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Flávio Sousa