Fim de tarde na cidade; o céu fechado ameaça chuva, mas só ameaça. Do quarto andar, Gabriela vê a vida passar vagarosa, como sentisse o respirar de cada criatura viva. A fumaça do chá de camomila se enlaça nos cachos ruivos da moça; no fundo da xícara o reflexo da alma – estranhamente não se reconhece. É a partida…

Não muito longe dali, Dona Genoveva arruma a casa, sem pressa. Cuida dos mínimos detalhes como boa mãe que é. Gabriela observa. Uma pilha de roupas, passadinhas, chama a atenção: quanto cuidado, quanta atenção! Aquele cheiro de tecido limpo… Há muito Gabriela não passa roupa. Lembra-se de que sua mãe também era assim: caprichosa. Agora estava diante do próprio passado. Tenta evitar a nostalgia, mas é impossível; volta à infância, ao quartinho onde a mãe passava roupa. Até o céu nublado de hoje fez lembrar ainda mais aquele lugar de outrora. Por que a ausência? Por que estar aqui, ou estar lá (perto de casa), não é mesma coisa? Desistiu da resposta. Percebeu que a vida é um filme em preto e branco que o vento levou. Queria o hoje e ontem, todos no presente. O que aconteceu, Gabriela? Ontem você era ave migrante, hoje um pássaro ferido, preso na varanda da garagem.

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Ainda mocinha, ganhou da mãe um romance (um desses livros bobos, com final feliz) que durante muito tempo lhe foram companhias. Era naquele quartinho – tal qual esse em que Dona Genoveva passa as roupas dos pequenos – que Gabriela ficava boa parte do tempo. De longe, a mãe dela observava, com admiração, a concentração da filha, que parecia encantada com cada vírgula daquele texto vagabundo. Uma menina-mulher tão linda, cheia de vida e de cabelos chamejantes. Aquela era sua versão mais evoluída, seu lado mais bonito: toda delicada e desenhada por Afrodite, pensava a mãe. Como ela te enxerga hoje? Uma mulher diferente, talvez? Evita respostas, prefere perguntas. Um gole de chá; um cheiro dos gatos e o coração consegue bater aliviado.

Debruça-se sobre a janela e vê o chão, mas novamente se distrai com Dona Genoveva. Com delicadeza ela entoa uma cantiga de ninar… A voz dela é tão doce que faz Gabriela abrir um sorriso e cantar “boi, boi, boi da cara preta…”. A jovem não tem mais medo de careta, tem medo de ficar só, de morrer longe de casal, de não pedir perdão ao pai. Os olhos transbordam lágrimas e a respiração se torna funda e chiada. É a partida, Gabriela. Naquele apartamento vazio deixa para trás noites de tortura, prazer e dor. Por falar em dor, dói mais ainda não poder jamais ver Dona Genoveva e as crianças de novo, as roupinhas no varal, o espreguiçar dos gatos ao amanhecer.

Uma velha canção dos Beatles traz ainda mais saudade e medo. Não sabe como lidar com a própria partida – não percebe que o entardecer é um eterno caminho rumo ao recomeço. E como é chato recomeçar, como é chato ter de repensar a vida do zero. Sente que isso está lhe matando aos poucos, mas luta, resiste! Mulher forte não teme a morte, era o que lhe diziam.

Genoveva sabia que era observada pela moça, mas não se importava. Estava feliz e não havia mal nenhum em compartilhar a própria felicidade com os outros. Uma jovenzinha tão bonita e altiva, mas de olhos tristes… Assim refletia ela sobre Gabriela. Mas ela gostava muito do sorriso dela. E de sorriso a Dona Genoveva entende! Clarinha, a filha mais moça, pergunta a mãe “por que a moça é tão triste?”. Sábia, responde que ela não é triste, é a partida. Alguns têm o coração dividido entre o estado presente de graça e lembrança saudosa de casa. Gabriela é assim.

Já é alta madrugada; a TV é a única companhia dela. A cabeça está cansada e carne inquieta. Um turbilhão de idéias visita seus pensamentos em uma velocidade frenética: imagens, cores, sons, perturbação… É a partida, Gabriela, é a partida! Pensa nos vícios que acumulou, naquele rapaz que realmente amou, na saudade de casa, no abandono psicológico do pai… Sozinha. É assim que está agora: sozinha. Ela quer dormir, mas a cabeça inicia o julgamento e é esmagada por uma tonelada de acusações, de culpa. Ela quer dormir, apenas dormir, mas não consegue calma alguma! Sente as pálpebras se repuxarem. E os medicamentos? Já não toma mais, pois até mesmo suas síndromes – suas últimas companheiras fiéis – foram domadas. Nessas noites, o pequeno apartamento de paredes brancas fica ainda pequeno e o branco das paredes ainda mais branco. A luta contra se mesma continua, pesada, dolorosa. A notícia de um jovem favelado morto por bala perdida faz seu coração estremecer.

Desesperada, Gabriela corre para a janela, procura Dona Genoveva e os meninos – nada encontra. A noite se recusa a mostrar as estrelas. Ela grita, grita desesperada, chora, mas não pula. Volta pro sofá, se mantém lá até o amanhecer do dia. Com o corpo alquebrado, e os olhos pretos de pura insônia, prepara o café. Daqui a pouco precisa estar no trabalho. Olha mais uma vez a casa de Dona Genoveva, busca consolo. Ela e as crianças ainda não acordaram. É hora de recomeçar – recomeçar, palavra difícil – o dia. No fundo da xícara de café, encontra sua alma, misturada na negritude do pó e da baixa existência. Ela não desiste: se troca e recomeça… mas agora olha pela janela lateral e busca consolo. Enxuga as lágrimas, escolhe o melhor sorriso e ruma para o trabalho. Gabriela precisa existir, nem que seja superficialmente…

FIM…

flavio

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Flávio Sousa