Lili, a boneca: uma história de amor e horror. 

Você já imaginou ter a sua vida inteira programada antes mesmo de vir ao mundo? Você já imaginou levar uma vida subjugada, submissa e ainda agradecer por isso? Pense em como seria nascer em um mundo onde seus desejos, suas vontades e seus sonhos estivessem completamente condicionados a uma voz, a uma presença que ditasse cada um de seus passos? Lili sabia… Talvez você não compreendia, mas esta é uma história amor (amor?). Sim, amor, desses avassaladores, quentes, intensos, insanos e torturantes! Ah, Lili, se tu soubesse… não amaria mais ninguém. Mas não se culpe, não, não se culpe. Se tem uma coisa que você carregou na vida, o nome disso é culpa. Culpa de ser quem você é; culpa de existir; culpa por não ter feito faculdade; culpa por amar; culpa por transar antes dos 18. Vagabunda, te chamam hoje, mas não sinta culpa… Você agora descansa, Lili. Vou garantir que todos, até o fim desta história, não te julguem. É minha palavra de honra!

Antes de contar esta triste história de amor, gostaria que todos conhecessem Lili. Liliane Dos Reis Silva: Dos Reis porque a mãe era católica e Silva porque foi a única coisa que herdou do pai que nunca viu. Mas não importa; quantas meninas, iguais a ela, também nasceram de chocadeira? De mãe solteira, de mulheres “da vida”? Realmente não importa. Você conheceu Liliane? Certamente você a conheceu, só não está se lembrando. Quando foi que Liliane se tornou Lili? Isso é um mistério, mas desde pequenininha era chamada assim. Bonitinho o apelido, não acham? Por falar em infância, que tal começar essa história por aí?

Bem no iniciozinho, quando ela ainda não existia como ser – se é que algum dia ela existiu – , tudo era cor de rosa: tapete rosa, cama rosa, lençol rosa e tolha pink… Tudo muito bonito, adornado, colorido, vivo (vivo?). Coisas de menina, sabe? Só que Lili era um pouco estranha, às vezes queria brincar de carinho com os irmãozinhos – sim, Lili teve dois irmãos homens, orgulhos da casa: um médico e outro advogado. Ela não estudou é verdade, mas terminou o ensino médio e ia bem como garçonete. De tanto repetiram que carrinho “é coisa de menino”, que “você não pode brincar com isso”, só restaram as bonecas. Durante muito tempo elas foram companheiras fiéis, inseparáveis.

Lili teve várias: crianças, adultas, adolescentes, todas lindas, loiras, magras e brancas como neve. De tanto conviver com bonecas, Lili desejou se transformar em uma. Ela queria porque queria ser uma boneca linda, de cabelos loiros, óculos escuros na cara, roupa rosa e mais uma serie de adornos. Ah, Lili, eu não te culpo, você não sabia que vida dói e que nossos sonhos são pulverizados da noite para o dia…

Em uma manhã qualquer, Lili, nos seus dozes anos, acordou e percebeu que uma enorme mancha vermelha agredia seu lindo lençol rosa impecável. O mundo dela caiu, a pobrezinha ficou arrasada. As bonecas olhavam com nojo e desprezo; a mocinha já não pertencia mais ao mundo delas. Arrasada, chorou, chorou e sangrou mais. Desesperada, pediu alento para a mãe. A mulher ficou preocupada, sentia que sua menina, sua princesinha estava indo embora…

Lili não se abateu, não desistiu do sonho de ser boneca! Foi em frente, aceitou que era agora uma nova categoria de boneca, uma boneca com seios, cílios grandes e de salto alto. Não apenas a moça havia notado que estava diferente: os coleguinhas (meninos) também notaram. Linda, jovem e com cara de anjo, não demorou muito para despertar interesses para além dos portões da escola. Ela sentia o próprio corpo se transformando, como uma lagarta que se transforma em borboleta. O que não sabia é que junto com essas mudanças, novos desejos, novas aspirações iriam também lhe fritar na pele. Os peitos inchavam, coçavam e ficavam mais sensíveis ao toque; as partes pudendas tornaram-se peludas, com aspecto elástico. Lili sentia vontades estranhas, se acariciava sozinha, mordias os lábios e sentia a nuca arrepiar.

Não demorou muito e a nossa boneca já não era mais “menina”, era uma mulher completa. Foi Paulo quem ensinou a ela as maldades da vida, foi o primeiro homem (homem?) que ela teve. Doeu, doeu muito, ardeu, sangrou, não foi prazeroso, mas ela se manteve firme até o fim da transa. Aos poucos, Lili foi encontrando o jeito, já não doía mais, mas também não era gostoso, na verdade nunca foi. Aos 15, depois das diversas aventuras na cama, decidiu que seria outro tipo de boneca; uma boneca dessas que se encontram no sexy shop é o que queria ser. Mas não decidiu isso assim do nada: depois de levar uma sova de Paulo, aquele a amou pela primeira vez, decidiu que só daria prazer e dor aos homens, mas amor jamais!

A mãe descobriu a história e a colocou na rua; disse que “não sustentaria vagabunda”. Mas Lili é guerreira, não desistiu de ser boneca. Foi direto para casa de uma amiga, mas logo saiu de lá terminou num bordel. Lá aprendeu o que é a vida: tomou porrada, porre, levou porra na cara, mas aprendeu. Sabia roubar carteiras, fazer os caras gozarem rápido para descansar entre um programa e outro… e muitos outros truques que só ela conhecia.

Cansada da vida de puta – era assim que a chamavam, mas não sabia por que – decidiu mudar de vida, recomeçar. Conheceu um boy numa balada, os dois treparam e logo estavam juntos, morando num casebre fudido na periferia. Sentiu algo parecido com felicidade, mas não durou muito e em pouco tempo estava em pé de guerra com amásio. Cachaceiro, Zé – que era pedreiro – sempre chegava mamado. Numa quinta-feira qualquer, Zé cismou que a mulher o traía e decidiu que iria “sapecar bala naquela vaca”. E quase conseguiu, mas Lili era esperta. Quando o marido apontou o revólver, abriu o berreiro e pediu pelo amor de Deus que não a matasse, que o amava loucamente, que sem ele não poderia viver. Como todo corno (sim, ele era corno, não estava apenas cismado) desabou em prantos. Foi nesse momento em que ela rasgou o bucho do safado com um canivete velho que trazia nos peitos. Torceu, torceu sem dó e viu a alma do desgraçado se apagar nas retinas dele… Chorou, chorou muito, mas já estava feito, restava agora fugir e foi que fez.

Lili agora era criminosa, criminosa antes dos 18, vagabunda desde os 15 – assim diziam. Um dia, na rua, olhou pro céu e xingou o desgraçado que a criou e assim a concebeu para o mundo. Uma mulher que só quis ser boneca, que só quis se enquadrar dentro daquilo que viu e ouviu a vida toda! Por que, Lili? Por que, Lili? Por que te fizeram assim? Já não chorava, estava apenas em estado de choque.

Lili não foi boneca como sempre sonhou: foi morta, brutalmente assassinada, esquartejada. Não teve uma morte física (por mais que desejasse), teve uma morte em vida, ainda no ventre. Antes de nascer foi assassinada pelas vontades compulsivas da mãe, esquartejada pelos padrões, trucidada pelo olhar emborrachado das bonecas e das coleguinhas estereotipadas. Lili não teve vontade, não teve prazer, não teve sorriso, só existiu como uma figura bonitinha, objeto de prazer e nada mais. Ah, Lili, nesse seu velório, não tenho nenhuma palavra que possa te confortar – não te garanto nem mesmo o céu, Lili!!! Eu sei, você também conheceu a Lili, sim, puxe na memória. São muitas “Lilis” por aí, basta olhar. Mortas em vida, ou mortas em alma, não importa: sempre há uma Lili entre nós. 

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