Metódica, Cristina se esforçava para manter uma rotina perfeita: acordar as seis; sair às sete; as oito no trabalho; meio dia almoço; duas no escritório e as cinco no metrô. Embora estivesse fatigada, não enxergava outra forma de prazer se não esse. De todos os amantes que já passaram por sua vida, o relógio foi o único que não a abandonara. Amava o tempo, odiava atrasos e temia o tédio como quem teme uma morte súbita. Talvez seja ela mais precisa que o próprio relógio.

Casado de levar uma vida cronometrada, TIC – o relógio-amante de Cristina – decidiu que viveria a seu modo. Naquela manhã chuvosa, preferiu dormir até mais tarde – desligou o despertador, mas não avisara a moça. O barulho da água batendo na vidraça e o silêncio profundo do apartamento acabou despertando Cristina. Preocupada com a hora, olha para TIC, que não trabalhava desde as três da madrugada. Tomou um susto, se levantou correndo, olhou celular: sem bateria. Ligou o rádio para saber que horas eram: “Bom dia! Terça-feira chuvosa em nossa cidade. São nove e meia da manhã”, informava o locutor. Três horas atrasada! Estapeou TIC, mas este se recusava a trabalhar e continuou dormindo. Arrumou-se correndo e saiu.

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Quis telefonar para o trabalho e justificar o atraso (logo ela que odiava atrasos). Uma terrível diarreia poderia ser uma boa desculpa, mas se sentiria constrangida. Pensou que era melhor contar toda a verdade de uma vez. Sacou o celular da bolsa – sem bateria! Enfureceu-se, quis arremessar longe o aparelho. Só então percebeu que não se pode confiar em máquinas! Até TIC, fiel e preciso, havia lhe deixado na mão. Isso doía como uma traição. O importante é que já estava tudo se reestabelecendo, em pouco tempo estará no escritório e a vida seguiria seu curso de sempre. Mas aquele dia estava mesmo estranho; a chuva resolvera não dar trégua e ficava cada vez mais intensa. O metrô parou, vinte minutos antes do esperado. Trabalhadores do setor decidiram interditar os trilhos e protestarem por melhores salários. Cristina entendia tudo, até considerava justa a manifestação, mas tinha que ser hoje? Tão atrasada e com tantos compromissos pendentes? Era castigo! Como não tinha muito que fazer, procurou um ponto para recarregar o celular. Todos sabem, a pressa é inimiga da perfeição: ela saiu de casa sem carregador. “Cacete!”, exclamou puta.

Restava agora o telefone público. Cristina nem havia notado que eles despareceram faz tempo. O metrô segue parado; a ansiedade começa a lhe consumir. Uma vida inteira pode ser desconstruída por um relógio. Já com a manhã perdida, decidiu que um café era a salvação. Na “Cafeteria Meu Bem”, pediu torradas e o bom e velho cafezinho. Estava derrotada, abatida. O café chegou, começou a tomar com tristeza, mas ainda com esperanças de chegar a tempo no trabalho. Atrás de Cristina, um rapaz de olhos claros, alto e com ar de bondade, cutuca a moça e pede um pouco de açúcar. A jovem ficou estagnada com o brilho daqueles olhos. Parecia refletir o sol, como se pudesse ser para ela um farol em meio ao nada. Meio besta e com gestos automáticos entregou o potinho de açúcar; ele agradece. Cristina decide novamente contemplar aqueles olhos. Era tarde, o rapaz estava saindo da cafeteria. Movida por um impulso que não pode controlar, levantou-se e correu para alcançar o cara. O estranho é que quanto mais rápidos eram seus passos, os dele pareciam mais distantes.

Conseguiu alcança-lo e tocar lhe nos ombros. Antes que pudesse ver de novo os olhos que tanto a deixaram apaixonada, um barulho ensurdecedor tomou conta do lugar… Em questão de segundos uma luz forte fez a moça proteger os olhos e… acordar! Sim, um sonho!

O relógio trabalhava normalmente, o dia era de sol, e a luz invadia o quarto, trazendo um clarão meio alaranjado. Ficou feliz, pois sabia que não sofreria com atrasos. Apenas aqueles olhos não lhe saíram da cabeça. Seguiu sua rotina normalmente. Passou dias com saudade daquele sonho tão gosto e desejava ver outra vez aquele brilho. Dias atrás, Cristina acordou triste e sem muita vontade. Nem mesmo sua rotina regada e controlada era capaz de lhe dar algum prazer. Fez tudo como sempre fez, mas de modo diferente. Como nunca tinha olhado pela janela do metro, resolveu então que faria isso desta vez, embora não desse para ver nada. O metrô parou em uma estação qualquer. Olhou as pessoas era tudo muito engraçado. A vida parecia estranha.

Cristina reparou no rosto de cada um: uns vincados, outros lisos, alguns porosos, os femininos coloridos… Só não viu de um homem, que se escondia atrás do jornal. Ficou morta de curiosidade, mas não deu bola. Segundos antes da saída do metrô, o homem lançou sobre Cristina um olhar duro, brilhante e fuzilante. Era aquele olhar! O do sonho! Os mesmos olhos claros (ela não sabia se eram azuis ou verdes). Ficou paralisada, não teve reação. Viu lento o rapaz sumir.  Tudo foi muito rápido, mas ela observou em câmera lenta, sem poder esboçar uma única reação. O desespero torturava implacável. Não conseguia parar de pensar no que vira. Chegou a duvidar se estava mesmo acordada. Traçou mil planos na cabeça para encontrar o rapaz do jornal de novo, mas voltou para casa realista e sem esperança. Como era sexta-feira, decidiu abrir mão da precisão e fazer parte do trajeto de volta pra casa andando.

Parou na padaria de sempre e pediu um café – estava morta de cansaço. Na fila, esperando para pagar conta, já ansiosa para ir embora, olhou para o caixa, a fim de saber se demoraria muito. Deu de cara com os olhos que procurava, os olhos que há muito lhe perseguem, até em sonho. Era o mesmo rapaz do metrô. O coração começava a palpitar, suava frio a ponto de enlouquecer em segundos.

Antes de pagar a conta, ficou estática. Esperta, tratou logo de sorrir e criar um vínculo. Talvez estivesse apaixonada, talvez só empolgada por ter visto aqueles olhos tantas vezes e tantas vezes… Em casa, Cristina parou pra pensar em tudo – coisa que não fazia há muito, pois nuca sobrava tempo. Estava feliz, fora do padrão controlado e cronometrado de tudo. Uma pena ela não se lembrar de já ter se cruzado com aqueles olhos no metrô. A rotina, a repetição, a precisão haviam lhe retirado a capacidade de enxergar.

O homem que agora tanto lhe chamava atenção viajou do lado dela, centenas de vezes, mas não fora descoberto até aquele dia. A cegueira da rotina foi finalmente vencida! Cristina era capaz de ver o mundo novamente! O amor, mais uma vez, venceu! Não se sabe se os dois ficaram juntos, ou se tudo não passou de euforia. O que sabe é que aquele olhar foi eternizado, venceu o tempo e ficou cravado no peito de Cristina. Quando minhas cordas e engrenagens forem corroídas pela ferrugem e meus ponteiros nunca mais se mexerem, contarei a todos o resultado desta história ilógica e estapafúrdia. Até lá, continuarei rodando, marcando, dividindo e controlado este meu senhor chamado tempo!

flavio

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Flávio Sousa