Há uma linha tênue entre amor e desejo – embora muitos não admitam. Costumo pensar o amor como elo, e o desejo como pêndulo. O amor liga e amordaça (em alguns casos) e o desejo vai e volta; com sorte determinamos o ritmo. Esses sentimentos e movimentos pautam a existência e ditam nossas ações. No entanto, o que aproxima os dois é a intensidade: amamos e desejamos, na maioria das vezes, com a mesma força e vontade. Sem falar que uma coisa e outra podem se misturar e a gente nem perceber.

Poucos têm coragem de se render ao desejo, pois ele cobra caro pelo prazer que entrega. Ser dominado por esse espírito chamejante é conjugar o pecado, mas é também sentir na pele a sinceridade da natureza humana, que, apesar de derrotada, é quente, viva e viscosa! Pode não ser bonito, pode não ser politicamente correto, pode não ser moralmente aceito, mas é antes de tudo humano. O desejo está em você, em mim, em todos nós, mas o que cada um faz com ele é um problema individual. Se você domina, controla, nega, detém e amarra, outros exploram, se entregam, se deixam dominar e arcam com as consequências. Viva a liberdade!!! Cada um faz do desejo o que bem entende.

E quando ele cruza com o amor? Se a combinação der certo, o resultado pode ser companheirismo, afeto, carinho e orgasmos múltiplos; do contrário, choro e ranger de dentes. Nem sempre o amor virá acompanhado de desejo e nem sempre o desejo virá embutido de amor – fato! O amor é um acorde raro em escala antinatural, é preciso ser maestro para encontrar a harmonia perfeita, o ritmo certo para, no fim, nascer a música. O desejo, misturado ao amor, é a bagunça das escalas, as extravagâncias da criação, a arte! Só que nem todo mundo é artista… talvez seja por isso que muitos gozam e poucos amam.

O amor é pudico e vem acompanhado de doces expectativas que podem muito bem enganar e trair os nossos sentidos. Você sabe que pode doer, você sabe que pode sangrar, mas mesmo assim arisca, corre atrás daquilo que certo lhe parece. A esperança está entrelaçada no amor. Mas é bom não confundir: a expectativa é aliada da decepção, a esperança caminha lado a lado com o amor. Raciocinar sobre o amor cansa, pois ele detestada a razão e sentir é o seu forte. Desejar, por sua vez, pode ser racional, afinal de contas, preciso pensar em uma maneira de trair minha mulher e não ser descoberto.

Talvez a idéia de amor romântico (perfeito em seus defeitos) que temos na cabeça seja apenas fruto da nossa herança medieval, como diria o suíço Denis de Rougemont. Também pode ser resultado de anos e anos de doutrinação hollywoodiana. Muitos dizem que ele é uma doença. “Doença essa que podemos descrever como uma forma de obsessão em saber o que ela está pensando, o que ela está fazendo nessa exata hora em que penso nela, com o que ela sonha à noite, como é seu corpo por baixo da roupa que a veste, o desejo incontrolável de ouvir sua voz, de sentir seu perfume”, escreve Luiz Felipe Pondé para a Folha de São Paulo.

Para o desejo há saídas, alternativas, até tratamento, mas para o amor não há cura, não há salvação. Quem sabe a beleza do amor esteja justamente nisso: na incerteza, na tentativa, na vitória árdua após longos e tenebrosos invernos. Não sei, de fato não sei!

Hoje, depois de tanto repensar o amor, cheguei à conclusão de que nada sei sobre ele – muitos menos de desejo. A única coisa da qual sou capaz de opinar é sobre, café, livros, risadas, passeios no parque, ou sobre noites enrolado nos lençóis. Sei também sobre conversas a dois, ou mensagens carinhosas. Quem sabe eu também saiba falar sobre, sensações e texturas, beijos e abraços, mas de amor, não de amor eu não posso opinar, nem de desejo. Ofereço-te tudo, mas uma resposta lógica e calara para amor e desejo, não.

flavio

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Sobre Jornalismo de Boteco

Paulinho Rahs Escritor, compositor, poeta solitário, vocalista da Arcadia e criador do Jornalismo de Boteco. Entusiasta, subversivo e magnânimo, contém na lista de vícios café, cerveja, o Foo Fighters e o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. https://www.facebook.com/PaulinhoRahsOficial/

CATEGORIA

Flávio Sousa