1995. Em uma típica tarde quente de qualquer dia do ano, em Araçatuba, interior de São Paulo, uma menina de três anos, andava inquieta pela casa da avó, dando trabalho até para o cachorro, coitado. Até que o seu avô, lhe trouxe dois brinquedos bem diferentes: uma máquina registradora, e uma máquina de escrever. Bem… A garotinha inquieta era eu, e essa, foi a primeira vez que vi a minha máquina de escrever; uma Olivetti Lettera 82 de cor azul, ou verde-água, chame a cor como preferir, com as fitas recém trocadas. Mal olhei para a máquina registradora… aqueles números me irritavam! Mas a máquina de escrever… ah, a máquina de escrever…. Meu avô colocou uma folha de papel nela, para que eu pudesse datilografar algo, e eu fui logo batendo os dedinhos nas teclas, ouvindo aquela música que só uma Olivetti Lettera 82 é capaz de reproduzir. Ela tocava um tipo de sininho que eu amava, e o cheiro dela, eu me lembro até hoje. Sim, o cheiro. Naquele momento, o meu avô criava em mim, uma marca a qual eu jamais vou me esquecer… o prazer pela escrita! Daquele dia, eu me lembro muito bem, como se fosse hoje, agora. O cachorro já havia se cansado da minha pilha alcalina, e foi se esconder em algum canto da casa; as minhas tias não estavam, meu pai viajava a trabalho, minha mãe também estava em seu trabalho, e a minha avó, fazendo umas bolachinhas que eu adorava, recheadas com goiabada. Meu avô vestia uma camisa branca, e, desesperado com o quão inquieta eu estava, foi para dentro de casa, e voltou com a máquina registradora, e a minha linda Olivetti azul, dizendo “olha pretinha, o que o vô trouxe pra você brincar!”, e eu só tinha olhos para a Olivetti azul.

 

Depois desse dia, todas as vezes em que eu estava inquieta demais, alguém sempre deixava a máquina de escrever em minhas mãos, e eu passava a tarde “escrevendo”. Aliás, coitado daquele que me incomodasse quando eu estava ali, datilografando e escutando o meu sininho favorito. Foram muitas as tardes sentada no chão, ouvindo os discos que o meu pai tinha, dos Beatles, e me empolgando em cada música que eu gostava, como se entendesse que aquelas músicas falavam de coisas muito mais profundas, sobre as quais, aliás, eu escrevo hoje. Mas então, nós crescemos, passamos pela adolescência, ficamos idiotas, e nos esquecemos de coisas tão boas quanto esta. Graças a Deus, não perdi meu amor pela leitura, nem o gosto que, evidentemente, sempre tive por escrever. Porém, me esqueci da Olivetti azul… aliás, sempre gostei de máquinas de escrever, e sempre tive vontade de ter uma, mas DESTA, especificamente, eu me esqueci.

 

Recentemente, enquanto fazia uma pesquisa de imagens para ilustrar um texto e outro, me deparo com uma imagem muito familiar… Uma bela máquina de escrever. A foto era em preto e branco, mas todas as lembranças da infância vieram à mente, em um turbilhão de memórias. Meu Deus, que saudades eu tinha, e quantas ideias já borbulhavam em minha mente, para datilografar na minha querida máquina. Comecei então, a pesquisar preços, onde eu poderia encontrar um exemplar, e qual eu escolheria para mim. Contei à minha mãe sobre essa súbita decisão, e ela me lembrou “a sua avó ainda deve ter aquela máquina que foi de seu pai”. Dito e feito, e, alguns dias depois, me reencontrei com o meu objeto mais querido da infância. E você, leitor, pode estar questionando “mas que objeto estranho para uma criança”, mas ali, estranhamente, eu tecia os meus sonhos.

Agora, escrevo dela, da máquina de escrever, cor azul, ou verde-água, que foi de meu pai, e agora é minha. Ela ainda tem o mesmo cheiro, e ainda faz os mesmos barulhos. Sorri sozinha ao ouvir novamente aquele sininho pelo qual me apaixonara na infância. A fita que está nela há anos, ainda está boa, mas eu já quase consegui acabar com ela. É muito poético de minha parte, eu sei, mas escrever desta maneira, traz emoções e sabores diferentes. É como se eu voltasse àquela tarde de 1995, aos meus meros três anos de idade. É como se os discos dos Beatles ainda estivessem tocando, e o cachorro, ainda estivesse escondido. É como se tudo acontecesse novamente, só que agora eu sou grata ao meu avô paterno, pois se ele já não estivesse quase irritado com a minha inquietude, e não houvesse trazido esta máquina para eu me distrair, tal marca jamais teria sido feita em minha personalidade. Eu gosto de escrever. Eu gosto da música que, a agora minha, Olivetti Lettera 82 toca, quando é usada. Obviamente, ela precisa de alguns reparos, e me separarei dela por alguns dias, por “motivos de força maior”.

 

Enfim, eu enfim concluí que escrevo. Escrevo por simples necessidade. Não necessidade de ser ouvida, mas por inquietude. Inquietude na alma e na mente, onde o meu sossego, eu encontro somente após conversar com Deus, e escrever até saber que ali é o limite. Chame de estranho se quiser, eu não me importo… acho que até gosto. E talvez eu goste pelo fato de nunca querer ser igual aos outros. Veja bem, uns encontram o sossego dando uns bons chutes e socos num saco de areia, outros, indo ao shopping e estourando o limite do cartão de crédito, outros, num copo de cerveja, e há também os que encontram o sossego nas pessoas… mas eu… eu escrevo, e assim é a vida. Mas agora é diferente… agora eu escrevo na minha Olivetti Lettera 82, cor azul, ou verde-água, chame a cor como preferir.

 

Os sonhos não morrem, nós é que os colocamos nas gavetas erradas. O amor apaixonado não acaba, pois é imortal. Nós é que temos problema de organização de memória e sentimentos, sérios problemas com atitudes mudas ou inexistentes, com as prioridades. A vida é efêmera, e nela, somos apenas transeuntes. Os sonhos e o amor é que nos transferem paixão, e fazem esta caminhada toda valer a pena.

debora

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Sobre Jornalismo de Boteco

Paulinho Rahs Escritor, compositor, poeta solitário, vocalista da Arcadia e criador do Jornalismo de Boteco. Entusiasta, subversivo e magnânimo, contém na lista de vícios café, cerveja, o Foo Fighters e o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. https://www.facebook.com/PaulinhoRahsOficial/

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Débora Cervelatti