Somos muitos os seres medíocres, ou pífios, espalhados sobre a imensidão terrena. Divagamos sobre a catástrofe de existir; mentimos para sustentar a vida. Minha janela, cercada por quatro paredes de concreto compacto, não vê o sol faz tempo. Acostumado com as sombras, sempre deixo as cortinas fechadas – talvez os ácaros que ali residem sejam o que há de mais vivo nesse lugar. É impressionante a capacidade que temos de nos adaptar a baixeza das coisas, de nos adaptar a insuficiência da vida. Aceitamos o “mais ou menos”, o “tanto faz”, sem um pingo de luta, de resistência. E a vida não perdoa: desafia, estapeia nossas fuças com força, nos empurra escada abaixo, mas levantamos, batemos a poeira, fingimos que nada aconteceu e seguimos em frente… o problema é que sempre em direção ao nada.

Há muito sou continuo de um banco público, mas os métodos, os números, as equações, o cartão de ponto, a repetição enfadonha da função me faz ter nojo da vida burocrática e tributável. Um sonho que cultivei desde os tempos de faculdade, agora é meu tormento. De que me serve agora o meu projeto de vida? Do que adiantou planejar os meus dias com antecedência? De nada! Não ganho mal, mas não sou rico; não trabalho muito, mas poderia trabalhar meio período; tenho plano de saúde, mas estou sempre doente…

Já na meia idade, não carrego nas costas – para não dificultar minha caminhada – expectativas de uma nova sociedade: fui derrotado nessa guerra, mas o inimigo me deixou vivo para definhar em vida. Madalena, minha esposa, é uma mulher que admiro; o cinismo dela impressiona: distribui sorrisos e maldiz o próximo sem mudar de feição e sem mudar de cor. Eu deveria ser assim, como Madalena, afinal de contas, só a mentira é capaz de manter os laços sociais ativos. Maldita hora que despertei do limbo da existência. Antes, esse afeto não me vinha à cabeça; hoje sou massacrado pelo exercito impiedoso da consciência – como queria estar no sono bendito da mentira-social e das boas convivências.

 

 

Li ainda jovem – nos tempos em que acreditava nas coisas – que “existem duas formas de chantagem universal: a violência e o entretenimento, uma e outra servem sempre para a mesma coisa: manter o homem simples longe do centro dos grandes acontecimentos”, acho que foi Ortega y Gasset quem disse, não tenho certeza, mas minha memória não é mais a mesma. Confesso que estou incluso no pacote dos homens simples, mas não me sinto mal por isso, não, muito pelo contrário: gostaria de ser ainda mais simples do que sou agora. Queria eu acordar de madrugada, ir trabalhar, voltar de noite, dormir exausto, sonhar com o final de semana, pensar nas férias com desejo e morrer de tédio no gozo de tirá-las. Só não queria ter a consciência que tenho agora, que tortura e não deixa dormir. Estou farto de correr atrás de uma saída para tudo!

Voltando pra casa, dia desses, reencontrei Catarina – um amor antigo, mas que ainda traz sentimento. O tempo parece não ter passado para ela; fiquei sabendo que teve netos, que se divorciou e vai “muito bem, obrigada”. Catarina é diferente de Madalena, me parece mais viva, mais independente e cheia de sonhos, apesar de estar, assim como eu, caminhando para a velhice. Tem o espírito jovem, no entanto, ter um espírito jovem não te torna mais feliz que os demais, talvez isso só te torne mais bobo, mas esse também não é o caso de Catarina. Como não nos víamos há muito, resolvemos tomar um café, na Pracinha do centro e falar sobre o tempo passado. Imaginei que o nosso antigo relacionamento estaria de novo em pauta, mas isso nem passou perto da boca dela. Terminamos a conversa a frio, com a sensação de que nunca mais um desejaria ver o outro.

O mundo é mesmo uma lástima, uma desgraça que definha diante dos nossos olhos, basta olhar para as crianças famintas da África, as mulheres estupradas dia após dia. Santo Deus! Não viverei mais nesse mundo! Recuso-me a fazer parte deste circo de horrores criado por um ser divino que zomba de nós a cada esquina, que me esfrega nas barbas todo o seu poder e sua total falta de compaixão e complacência com suas criaturas – que por mais fétidas e imundas que sejam são suas criaturas! Hoje mesmo dou cabo ao meu sofrimento: assim mesmo, de corda no pescoço e tudo mais!!! Quero ver esse Deus – que se diz poderoso – me impedir. Hoje provo para ele e sua corja de cachorros devotos a minha liberdade suprema. No caminho de volta pra casa, articulava minha despedida de Madalena, de totó (nossa cachorrinha, que talvez seja de quem eu vá sentir mais falta), de mamãe, de meu irmão e de minha netinha, a quem não desejo que vivas por muito nesse mundo-cão. Próximo da entrada do prédio, uma velha maltrapilha mendigava. A mulher me agarrou com força as barras da calça e murmurou alguma coisa que ignorei. Isso não é problema meu! Que ela lide sozinha com a própria desgraça, que eu lido com a minha.

Logo que cheguei a meu apartamento, preparei meu haraquiri, cuidadosamente, escolhi local, me despedi de Madalena (sem que ela percebesse que era uma despedida), dei um beijo em totó, que percebeu que algo errado se passava comigo e repeti a ação com os demais.  Antes de concluir minha libertação, decidi acender meu último charuto, sentia que devia a mim mesmo um momento de prazer mundano antes de me despedir, momento em que uma enorme luz branca, forte e agressiva rasgou as cortinas de minha janela e deixou turva a minha visão.

No meio do clarão, havia a figura de um homem, que a princípio pensei ser o Capeta, mas era na verdade um anjo – e pelo jeito um importante! Confesso que por alguns instantes fiquei contente, mesmo que isso fosse estranho, afinal estava marchando para a morte. Conversamos:

― Por que desejas tanto deixar este mundo?

― Por aqui só há desgraça, sofrimento, tédio, cansaço, contas a pagar…

― Achas que no paraíso será melhor?

― Sim.

― Proponho um desafio, aceitas?

― Qual será minha recompensa, caso vença?

― A felicidade eterna, o amor absoluto de todos os seres do universo, contemplar a face de Deus!

― Manda! Estou disposto a rifar caro minha pele! ― Nem perguntei qual seria meu castigo em caso de derrota.

O anjo – que não revelou a mim seu nome – propôs-me passar sete dias sete noites no paraíso. Uma proposta que achei maravilhosa e idiota, tudo ao mesmo tempo. Só que, para cumprir o desafio, anjo teria de me matar, pois os vivos não habitam (mesmo no céu) o mundo dos mortos. Topei, segui em frente!

No terceiro dia de paraíso, descobri que a mesquinhez da felicidade humana não tem limites: um homem feliz (em demasia) é sinônimo de desgraça. Os muros de ouro do paraíso, as virgens que coloriam de beleza o céu e tudo que nele havia não era capaz de me alegrar. Todos, absolutamente todos sorriam, o tempo todo, parecia hipnotizados, drenados pela energia do lugar. O tédio por aqui reina… Se isso é o paraíso, imagine o inferno?

O anjo voltou, perguntou se eu queria retornar a vida, respondi sem medo de errar que sim, sim eu queria de o mundo-cão e desgraçado dos humanos e que quando eu morresse não voltasse mais para aquele lugar, nem mesmo caísse nas garras de Satã, mas que apenas me transformasse em pó, pó era tudo que desejava ser. De volta ao apartamento, trinta minutos haviam se passado e, sem perceber, eu caíram num sono profundo. Compreendi que só há redenção na vida, quando há esperança. Mas onde estava a minha?

Coloquei totó na coleirinha, fiz uma quentinha (com arroz, frango, salada e feijão preto) e parti atrás da velha que há pouco tinha pedia socorro. Minha esperança, minha redenção estava nela… A pobre coitada comera tudo com olhos felizes, que nem importei com a catinga de pinga e sovaco sujo que exalavam dela. Vi naqueles olhos negos cansados tudo que me faltara até então: compaixão! Até totó sentiu-se satisfeita com o passeio. A danadinha me resolve ainda atravessar a rua correndo! Volte aqui totó…

Silêncio, sirenes, choro, morte!

Abelardo, esse que vos falava, morreu vitima de atropelamento… O sangue quente ainda escorre pelo asfalto, enquanto uma multidão assiste horrorizada a cena catastrófica. Aquele que desejara tanto morrer, hoje deixou o mundo dos homens, das mazelas, das tristezas, das dores, mas deixou também o mundo da esperança, das gargalhadas, do recomeço… Abelardo morrera feliz, disseram algumas testemunhas. No velório, poucos amigos e familiares acompanharam o cadáver até que a última pazada de terra cobrir o caixão do  Abelardo finado, entre eles, a velha maltrapilha que recebeu dele sua última refeição, pois ela ainda espera o próximo que, desejoso por vida, derrame sobre ela um pingo de esperança!

Fim…

flavio

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Flávio Sousa