Enquanto eu pensava no meu tema da semana, pedi à minha mãe que me sugerisse algo, e ela rapidamente respondeu, em tom de brincadeira: “fala sobre mim, o quanto eu sou legal e como você me ama!”. Rimos juntas, eu abri o notebook, cumpri todo o meu protocolo: óculos, fones, visita às minhas playlists favoritas, Word. E algo não saía da minha cabeça: Nós sempre falamos sobre política, comportamento, sonhos, amizades, profissão, relacionamento, amor da vida, paixão, apelo sexual, hobbies… Mas nunca falamos sobre os nossos pais. Por que? Bem, hoje eu resolvi deixar minhas crônicas melosas de lado, porque nós precisamos falar de nossos pais.

Por onde quer que olhemos, vemos hoje uma geração rebelde com o próprio lar. Ingrata, que se julga superior, desobediente, conectada com o mundo inteiro e desconectada de seus pais. Não vou me limitar, aqui, à figura tradicional de pai e mãe, mas me estendo à figura familiar de cada lar. Do tradicional ao moderno, temos sido ingratos. Do beijo não dado pela manhã ao desejar “bom dia”, ao laço esquecido, temos sido ingratos. Sabe, teu pai pode ter sido o teu avô, e tua mãe, tua tia; teus pais podem ser adotivos, teus pais podem ser só o teu pai ou só a tua mãe, não importa, importa a figura afetiva. Quão grato você é à essa pessoa? E em qual proporção ela sabe disso?

Nós precisamos falar dos nossos pais, e falar da gratidão esquecida. Precisamos falar das pessoas que nos dão o chão quando aprendemos a engatinhar, e nos preparam para o voo quando é tempo de voarmos. Precisamos falar das pessoas que são o porto-seguro quando a vida machuca, e se vestem de médicos e enfermeiros, e tratam, com mais lágrimas nos olhos que nós, as nossas feridas vivas. Precisamos falar sobre a nossa primeira figura de Super Herói e da primeira Mulher-Maravilha da nossa vida, aqueles que agachavam no final do corredor, e esperavam a gente percorrê-lo inteiro, para nos ter nos braços… E hoje, eles ainda esperam, no final de cada corredor da vida, para nos ter nos braços. Por que é que nós não falamos dos nossos pais? Somos tão egoístas assim com a nossa própria história?

As crianças cresceram, foram à faculdade, têm seus próprios trabalhos, seu próprio dinheiro, suas próprias dores de cabeça. As crianças cresceram, se casaram com a vida, ou procuram, em silêncio, o mítico amor da vida, aquele que é para casar. As crianças cresceram, e se esqueceram de que foram crianças, se esqueceram de que um dia correram para o quarto dos pais depois de um pesadelo. As crianças cresceram, e já sabem que “é só o vento lá fora”, se esqueceram que um dia choraram porque tiveram medo do barulho que o vento fazia. As crianças cresceram, e não brigam mais porque “a Jéssica falou pro Paulo Vinícius onde eu me escondi , e por causa dela, perdi pra todo mundo no pique-esconde”, e se esqueceram de que, aquele dia, quando chegaram em casa, tiveram uma “senhora conversa” com os pais e ganharam, de bônus, um castigozinho. As crianças cresceram, e não visitam mais a lembrança do dia que os pais não tinham um centavo pra pagar uma conta, mas arrumaram um real pra comprar aquele chocolate com desenho de animal. As crianças cresceram, e meu Deus, poderiam falar mais sobre as pessoas que quase morreram de preocupação na primeira saída, e quase tiveram uma parada cardíaca na primeira festa de 15 anos. As crianças cresceram, e se esqueceram de que os seus pais deram o próprio sangue para que não faltasse nada em casa, e talvez realmente nem tenham esta cena guardada em alguma gaveta da memória, porque os pais possuem a incrível capacidade de poupar os filhos do sofrimento… São baleados pela vida, mas dão um jeito de arranjar uma camisa limpa à caminho de casa, e chegar com um sorriso no rosto, como se estivesse tudo bem. As crianças cresceram, agora, mal param em casa durante a semana, e, quando chega a sexta-feira, somem de vez, e só aparecem no domingo a noite, para tomar um banho e dormir, “acordo cedo amanhã. Boa noite mãe, boa noite pai.”… E todos os lugares legais que eles deixaram de ir para ficar conosco quando éramos bebês de colo, pequeninos, não conta?

Tudo se torna tão trivial quando deixamos nossas raízes de lado! Nós buscamos tanta coisa, corremos atrás da vida, e mal lembramos de nos voltar para aqueles que nos deram a vida. Tudo nessa vida se torna tão pífio, quando lembramos que nossa mãe nos deu à luz mais de uma vez, em cada fase de nossa vida. E que sentido ínfimo, sem voltar ao abraço do pai e da mãe. Quantos amigos valem os teus pais? Quantos namorados valem a tua família? Esta crônica é pra te lembrar que, antes dos seus amigos, você tem os seus pais. Antes da balada, você tem a tua casa. Porque as raízes são o que mantém as árvores firmes à cada ventania e tempestade. Esta crônica, leitor, é pra te lembrar que antes de respeitar o teu chefe, você tem que respeitar o teu pai. E antes de honrar as autoridades de fora, você tem que honrar as de dentro, os teus pais. Antes de valorizar as pessoas de fora, valorize os teus pais. Porque você pode ir e voltar quantas vezes quiser, mas sempre vai ter os seus pais te esperando. Seus amigos te esperariam para sempre? Pois os teus pais, sim. Os teus amigos não vão enfrentar o fogo por você… talvez uma brasa, mas o fogo, talvez um ou dois. Mas os teus pais… eles enfrentariam um incêndio inteiro por você. E quando eles te impuserem limites, seja inteligente e respeite, porque a vida nunca te ensinará com a mesma paciência e amor.

Nós precisamos falar sobre os nossos pais. Porque alguns erros, por mais que tenham nos magoado um dia, foram por não saber fazer de outra forma, foram por amar demais, por querer bem demais, por querer para nós, o melhor do melhor, algo além daquilo que eles tiveram um dia. Nós precisamos falar sobre os nossos pais, porque, se eles sobreviveram à tantos problemas e percalços, nós, como seus filhos, também somos capazes de conseguir. Fomos treinados pelas melhores pessoas… os nossos pais. E é por isso que nós precisamos falar sobre eles. Porque se você quer alguém para amar, veja, primeiro, como trata os seus pais, para entender se é capaz de amar alguém, ou lidar com outra pessoa. Se você quer vencer na vida, ouça o conselho dos teus pais, porque, por mais que eles não conheçam a tua área de atuação profissional, terão algo sábio para te dizer.

Pai e mãe soam como poesia, e ao mesmo tempo, todos os tipos literários, porque eles se fazem em mil figuras, apenas por nos amar de maneira incompreensível para quem ainda não tem um filho. Pai e mãe soam de maneira tão maravilhosa, que toda gratidão que se tem dentro do peito, ainda não é o suficiente e quiçá compatível, com tudo o que eles vivem por nós, filhos, nos bastidores da vida (e, por óbvio, não nos contam).

Nós precisamos falar dos nossos pais, por mais que isso nos arranque lágrimas pesadas dos olhos. Essa mania de frieza, é o câncer de uma geração mal agradecida, que, por algum motivo imbecil, cortou as suas raízes e resolveu trilhar a vida em completa solidão, como se isso, no final de tudo, valesse de algo. Os nossos pais falam de nós a maior parte do tempo, por que não falar sobre eles? A nossa vida é curta, e mais curta do que a nossa vida, é o abraço dos nossos pais, que já viviam esse fósforo tamanho “mini” quando chegamos ao mundo. Precisamos falar sobre os nossos pais, e precisamos, mais do que nunca, acelerar o passo no corredor da vida, e nos jogarmos em seu tão vital abraço.

debora

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Débora Cervelatti