Há muito Clarice não dorme: fica contando, no escuro, os minutos que passam vagarosos pelo quarto. Está cansada, mas o corpo não responde ao estimulo do sono e tudo que acumula são fartas olheiras roxas e profundas. Quando o amor chega ao fim, é isso que sobra: a solidão e a insignificância do reconhecimento. Pensou estar louca; pensou ter morrido; pensou estar possuída por um demônio, mas não! Estava mesmo sozinha! Custava-lhe assumir que fora abandonada. Apostou no romance errado e agora se via diante de um abismo. Recomeçar, ah,  como recomeçar é doloroso. Sair, fazer amigos, ter empatia, ser correspondida, iniciar um romance e, se nada der errado, seguir em frente. A logística do amor quando não praticada parece simples, mas a equação da paixão não é perfeita e raramente nos oferece um resultado inteiro.

Pela primeira vez, Clarice teve preguiça de amar. Desmanchou a escuridão do quarto quando acendeu a luz e foi até a penteadeira. No espelho, viu refletida uma mulher que imaginava ser ela mesma, mas incompleta. Clarice tinha graça doméstica, mas que fazia contraste com sua beleza exótica de rapariga. A pele, embora pálida e porosa nas bochechas, era macia e delicada como um corte de cetim. Era bela, antes de ser sugada por Armando até a última gota. Esse nome “Armando”, jurou para si mesma nunca mais pronunciá-lo, ou tornar a pensar nele. Era agora mulher sozinha e assim queria ficar. Triste sina a dela: sentia-se arrasada por ter sido deixada para trás e ao mesmo tempo já não possuía mais forças para preencher, com outro amor, o hiato deixado no peito dela.

Acendeu um cigarro, tomou uma xícara de café e ligou a TV. Sempre escolhem os piores filmes; a madrugada se tornara ainda mais tediosa e comprida. Evitou olhar para o relógio, teve medo de encarar os ponteiros e paralisar o tempo que passava arrastado. Lembrou-se de que com Armando o tempo voava na velocidade da luz – sentiu no peito um aperto, como uma martelada no coração. Sentiu saudades do cuidado submisso que dedicara a ele: de entregar as camisas passadas, de fazer o almoço, de esperar-lhe chegar do trabalho com biscoito na mesa, de ir pra cama as sextas-feiras (mesmo sem nunca gozar), de se abraçarem nas noites frias… Por esse ponto de vista, a escravidão pode muito bem ser amor, mas quem pode julgá-la?

Clarice não era mulher de muito pensar; era simples, tributável, trabalhadora, uma mulher comum. Não pode ser chamada de medíocre, não é isso. Gostava desta condição, afinal sentia-se bem assim. Além do mais, ela não pode carregar mais essa dor (a dor de ser medíocre) já carregava a culpa nas costas. Sim, Clarice era culpada! Fora abandonada pelo adultério que cometera. Torturada dia e noite pela pressão social, pela culpa de ter chifrado o marido e conspurcado a cama do casal, a jovem só pensava em voltar ao normal – ser ela mesma. Pobre mulher, não fizera o que fez por mal, jamais! Tentou explicar, com as lágrimas do arrependimento no rosto, mas não recebeu perdão; apenas uma bofetada e uma cusparada na cara. Teve a honra rasgada! Foi mulher para sair de casa e tomar seu próprio rumo.

Depois de muito tempo sozinha, pensou em tudo que passou, não se arrependeu. O amante (Luciano) nunca mais trocara com ele uma palavra. Por que traiu Armando? Por que resolveu se aventurar? Por abuso? Por falta de gozo no sexo? A verdade, como quase tudo na vida, está no amor e no perdão. Sim, no amor e no perdão! A traição é falta de amor, falta de afeto, de beijos insanos e molhados. Armando entendeu o próprio pecado e pediu o retorno de Clarice. “Não se abandona uma adúltera”, já dizia Nelson Rodrigues. Clarice não foi algoz, mas vítima de Armando. Como boa mulher que era, sonhou com um amor idealizado, mas não foi correspondida; viu no macho errado os sonhos certos. Mesmo humilhada, cuspida e mal falada, Clarice retornou ao lar, reassumiu o posto de mandatária máxima da família.

Mas alguma coisa ainda martela dentro dela, algo incompreensivo. Seu coração agora clama por algo que não sabe o que é. Nem mesmo abandonada sentiu tanto desconforto dentro de si como agora. Armando finge dormir… Clarice sai de casa, sem dizer para onde vai. Desesperado, o marido corre atrás da mulher; segue seus passos. O fantasma de Luciano reaparece: Clarice está novamente nos braços do amante.

Possuído pelo ódio, Armando carrega o revolver e se prepara para executar os dois, a sangue frio e depois se matar, com uma bala nos culhões. Clarice sorri, como nunca sorriu em casa, beija Luciano como nunca o beijara… A culpa recai sobre os ombros do corno que nada tem a fazer se não guardar o revólver e voltar para casa. Era incapaz de dar amor a Clarice, incapaz de fazê-la sorrir como faz Luciano. Deitou-se na cama e fingiu dormir novamente. Naquela noite, Clarice se entregou a ele “como uma louca, coma uma feiticeira”! Um ato de amor! “Não se abandona uma adúltera”.

FIM…

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Flávio Sousa