O que fizemos com o amor; o seu amor, o meu amor, o nosso amor, em tempo de Pós-Modernidade mais que líquida, em tempos onde tudo se evapora? A racionalidade invade o cotidiano e tudo que queremos é encontrar paz naquilo que antes era transtorno. A busca pelo sentimento de pertença está mais intensa do que nunca; é preciso completar algo.

Heidegger disse que as coisas só se revelam à consciência por meio do fracasso. Somente quando perdemos algo que temos noção do quanto era importante. Afinal de contas, hoje em dia, as relações humanas se concentram apenas na satisfação que esperamos delas. Creio que de alguma forma é isso que nos resta: expectativa. Não há mais vínculos, troca de confidências, só a estranha sensação da busca constante de algo que não sabemos definir. Sinto dizer, mas matamos o amor.

Olho pela janela e tudo que vejo são formigas, que se movem sem sentido, para lá e para cá. Dentro do meu apartamento, de menos de 70 metros quadrados, a situação é ainda pior: a bagunça denuncia uma vida sem sentido, que espera pela próxima chance de amar, como se isso fosse uma meta corporativa. Essa busca desenfreada por uma parceria abstrata que – mesmo sabendo que não somos de confiança, e que partiremos a qualquer momento – nos tolere, acabará torturando a todos, como numa grande fogueira da redenção. Não temos mais desejo, não temos mais vontade de ninguém, só vazio. É essa a lógica que não compreendo: quando encontramos a companhia perfeita, a parceria ideal, para o outro isso é excessivo e inaceitável.

Só queremos ter um lugar legal pra ir, mas temos medo do resto do mundo. O barulho da cidade e a música ensurdecedora das baladas deixa tudo confuso, e traz a vontade de fugir. É melhor mesmo ficar em casa, nossos apartamentos minúsculos, olhando pra nossas bagunças e tomando vodca vagabunda. Volto a pensar na inutilidade do amor nos dias de hoje. O amor só se torna palpável sofremos suas as dores.

No fundo, todos são covardes, isso sim! Covardes porque evitam o amor e suas dores, Ninguém quer assumir os riscos. Relacionamentos curtos, leves e de pouca profundidade estão na moda. Eles preenchem a lacuna por algum tempo, acabam e depois podem ser trocados por outros mais belos e de olhos azuis e musculatura mitológica. Santo Deus! Mercantilizaram o amor! Desisto, o amor é mesmo um exercício para os tolos na contemporaneidade dos espertos.

Tudo que sabemos sobre apaixonar-se, amar, e desapaixonar-se, estar só, estar acompanhado, morrer só, ou morrer acompanhado e tudo que envolve a conjugação deste verbo intransitivo, como disse Mário de Andrade, pode ser definido alinhado em padrões de consciência? Talvez sim, mas como tudo que move a humanidade, as coisas importantes sobre o amor continuam por dizer.

flavio

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Sobre Jornalismo de Boteco

Paulinho Rahs Escritor, compositor, poeta solitário, vocalista da Arcadia e criador do Jornalismo de Boteco. Entusiasta, subversivo e magnânimo, contém na lista de vícios café, cerveja, o Foo Fighters e o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. https://www.facebook.com/PaulinhoRahsOficial/

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