A chuva fina e o céu turvo davam aquela manhã ares fúnebres, sem lampejos de esperança; do outro lado da cidade, a neblina baixa embrulhava os prédios com uma imensa manta cinzenta. Do alto do décimo terceiro andar, Clarice observa o parado da vida ao amanhecer. A maquiagem borrada e as enormes olheiras depõem contra ela: a noite passou como um tufão. Como não tem a vida ganha, decide tomar uma ducha e encarar a vida com sempre fez, só que desta vez sozinha. Era estranho sentir-se incompleta, como se tivessem arrancado um pedaço de carne de seu peito e que agora ardia e sangrava. Guardou a tristeza que tinha numa cômoda velha, numa gaveta emperrada e saiu para o trabalho. Colocou na bolsa um envelope com uma carta de amor, que ainda não tinha tido coragem de ler. Armando foi-se embora sem muito falar; deixou apenas um adeus e essa carta.

Abatida, entra no ônibus calada, sem cumprimentar o motorista, o trocador e as velhas da Vila Padre Maria. É fácil perceber que algo de errado se passa com Clarice. Dona Margarida – uma senhora gorda, com ares de bonachona – tentou trocar duas palavras com a moça, mas acabou sendo entrecortada no bom dia. “Bom dia às cinco e meia da manhã! Poupem-me, velhas!”, pensou Clarice com maldade, deixando transparecer no semblante a insatisfação que sentia.

Aquela manhã prenunciava um dia difícil, mas Clarice não ligou; queria saber da carta. Como estava sentada ao fundo do ônibus, e de focinho pregado na janela, teve um átimo de coragem e sacou o escrito da bolsa. Antes de ler, olhou pela janela e viu alguns saindo da missa, admirou por quase um segundo a beleza gótica da Catedral e voltou para dentro de se mesma e para a carta.

Tinha muito medo do conteúdo; sabia que Armando era dotado de boas qualidades, mas temia nele qualquer coisa que não entendia e tão pouco conseguia dizer. Respirou fundo, olhou para as velhas, que estavam a ruminar besteiras sobre a vida alheia, abaixou a cabeça e começou a ler:

Amada minha,

Estou doente de amor; é preciso me curar dos seus efeitos sobre mim. Talvez hoje você não compreenda minha partida, mas fique certa de que amo a ti mais que amo a mim mesmo. Estive pensando em nossa condição, nossa experiência de paixão e vi que só nos resta a condenação dos escravos do amor. Há esperanças; mas não para nós. Não se julgue incapaz, ou sem sorte no amor; muito pelo contrário: você trouxe luz à minha vida insignificante…

Clarice leu esse trecho e os olhos se encharcaram; Dona Margarida viu de soslaio que ela chorava, mas não quis intervir. A moça olhou pra fora, viu os carros parados e mal se deu conta que estava presa num engarrafamento havia quase 10 minutos. Voltou para carta e continuou lendo:

Feliz será o homem que encontrar morada em seu coração, assim como eu encontrei. A diferença entre mim e o teu próximo amante é que sou estranho. Às vezes, nem mesmo eu sou capaz de me compreender; nada é mais diferente de mim do que eu mesmo, como já disse André Gide… Queria ter coragem o bastante para ficar, mas vi que na sua presença perdi a capacidade de julgar as coisas pelo o que sou de fato; não vejo mais você, mas si no seu lugar. Você se tornou minha Deusa, meu pecado, meu objeto de idolatria eterna.

Clarice ficou desorientada com esse trecho e não sabia se continuava, ou rasgava a carta e atirava pela janela. Dona Margarida se aproximou e pergunto se tudo estava bem. A jovem assentiu com a cabeça e continuou lendo, já sem esperança. Cada linha daquele papel amassado martelava o Coração de Clarice, que se via torturada pelo vazio da perda. As linhas de Armando deixavam-na com a certeza de que dali para frente estaria só nos caminhos da vida. Procurou cortar esse pensamento e voltou para a carta:

Entenda: eu te amo, mas preciso seguir em frente; a vida clama por mim. Doe-me o peito – e aqui confesso meu disparate – abrir mão de sorrisos, bocas, camas e desejos que ainda não senti. Dou-te o direito de me chamares cafajeste, se quiser. Sim, um cafajeste que te ama, mas não pode deixar a boemia.

Revoltada, Clarice esbravejou: “Vagabundo!”. Dona Margarida não se conteve e foi ter com a moça, mas Clarice foi grossa e despachou a velha em dois tempos. Neste instante se deu conta que ainda faltava muito para descer do ônibus, iria se atrasar e uma chuva chata começava a embaçar a janela. Havia esquecido o guarda-chuva em casa, mas nem se deu conta disso. Voltou para a carta:

Espero um dia que você me traia comigo; que me encontre naqueles bares, naqueles lugares de sempre e me traia comigo! Se entregue ao fogo da mais ardente da paixão, mas que parta e leve consigo o meu coração. Por enquanto, luto para conter a sangria descontrolada que há dentro dele. “É preciso escolher: amar as mulheres ou conhece-las; não há meio termo”, disse Chamfort. Minha derrota foi te amar e me interessar por sua alma. Hoje, enquanto você lê estas linhas, muito provavelmente estou bebendo pra esquecer. Relutando contra a minha própria covardia; covardia essa que me afastara de você. Seja feliz, ame outros homens, outras mulheres, outras coisas. Não sofras com minha partida; as dores que vierem eu carrego sozinho. Adeus!

Armando…

Clarice sentiu os olhos arderem, mas desta vez não quis chorar. Mias uma vez olhou para fora e se lembrou do sorriso de Aramando, das inúmeras vezes em que o desgraçado disse que nunca partiria. Pensou no amor, na vida, na morte e, mesmo com tanta dor e sofrimento, viu sentido no amor. Cálidas lembranças subiram para a cabeça de Clarice, que se sentiu ameaçada pelo amor que ainda sentia.

Mas o amor não poderia ser só isso! Não na cabeça dela. Pensando em reconstruir as coisas, fez a mais tola das analogias sobre amor, comparando-o a uma rosa. Toda rosa tem beleza e espinhos… e outras bobagens mais. Ela não sabia, mas já estava condenada: iria sofrer por longos períodos a falta de Armando. Como tinha o peito dolorido, amargo. Sabia que agora sua casa se tornaria ainda mais vazia – de sentimentos e de móveis. Não tinha saída: era seguir em frente, ou seguir em frente. A morte não lhe era conveniente; amava a vida e suas arguiras. Como vingança, resolveu devolver na mesma moenda, escrevendo a Aramando:

Meu caro,

Tu és um covarde, como bem dissestes! Não conhece, nem imagina a força do amor tenho por você, tão pouco como posso converter esse amor em ódio e desprezo. Fique certo que não verterei nenhuma lágrima por teu sujo nome. Troca-me por prostituas e cachaça, francamente! Esperava mais de te… muito mais. Você será uma página manchada em minha vida! Chamais cruze novamente meu caminho.

Agora que já disparei contra ti o ódio que queria, quero lhe dar uma lição de amor. Amor, meu pobre Armando, é acalentar-se no outro, buscar paz, aconchego e compreensão. O amor está nas pequenas coisas: na imagem do teu rosto iluminado pelo sol que, atrevido, invadia a janela de nosso quarto e esquentava nossos lençóis; está nas inúmeras vezes em que sorrimos das moças mal vestidas da praça; está no chá que preparavas pra mim sempre que chegava do trabalho; está no perfume que espalhei por ter corpo; está no gozo único que te proporcionei entre quatro paredes.

Você pode muito bem ir embora, nunca mais me ver, sentir meu cheiro ou me tocar, mas não adianta: eu estou em você e, de você mesmo, não há como fugir. Vou perseguir seus sonhos, suas taras, suas bebedeiras, suas prostitutas, tudo que você fizer terá um pouco de mim. Se você me ama, como afirma naquela carta confusa, meu espirito vai te acompanhar até o túmulo, somente a morte pode te livrar de mim.

Sou o que você, ama, quer e anseia para a vida. Sempre que olhar para dentro de você, lá estarei eu, te esperando, e desta vez não para te dar orgasmos e amor, mas sim para perfurar com agulha seu coração e vê-lo sangrar, aos poucos, até a morte. Despeço-me dizendo que te amo e não te aceito de volta! Você fez sua escolha, eu fiz a minha. Adeus.

Clarice…

Aramando recebeu a carta… o que houve depois é uma outra história…

FIM…

flavio

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Sobre Jornalismo de Boteco

Paulinho Rahs Escritor, compositor, poeta solitário, vocalista da Arcadia e criador do Jornalismo de Boteco. Entusiasta, subversivo e magnânimo, contém na lista de vícios café, cerveja, o Foo Fighters e o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. https://www.facebook.com/PaulinhoRahsOficial/

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Flávio Sousa