Do amor e da essência

Recentemente, estava numa fila de banco e presenciei a conversa de duas amigas, que consideravam – em voz alta – qual dos dois rapazes seria o novo namorado de uma delas: o cara do carro novíssimo e importado, que mora numa casa enorme, trata mal a mãe e era indiferente também com a moça, ou o outro, que mora numa casa “normal”, não é detentor de muito poder aquisitivo, dirige um carro também “normal”, batalha muito, trata a mãe feito rainha, e a moça, como se fosse uma princesa. No primeiro encontro, um a levou para jantar no restaurante mais caro da cidade e passou o tempo todo no celular, enquanto que, o outro, a levou num restaurante interessante, porém não tão caro, colocou o celular no modo “vibrar” e a tela virada para baixo, e a fez rir a noite toda. E ela realmente considerava o primeiro rapaz, apenas por parecer “mais rico”. Naquele dia eu fiquei extremamente revoltada… Como se pode escolher estar ao lado de alguém que não a faz feliz? E o escolhe pelas coisas que pode receber, lugares que pode frequentar junto e pessoas que pode conhecer?

Fiquei remoendo aquela conversa, lembrando de outras tantas que presenciei, e pensando no que eu diria se pedissem a minha opinião… e se me perguntassem o que eu acho, eu com certeza diria o seguinte:

Não ame com segundas intenções e nem se apaixone pelo status. Não ame o bolso, não brilhe os olhos ao ver o carro, ao descobrir a profissão, ao saber onde mora e jamais se apaixone pela fama. Tudo isso passa, tudo acaba da noite para o dia. Qualquer coisa mal administrada vai à falência. Imagine só, se ele esbanja mais do que guarda, e já pensou se ela perde toda a fama das redes sociais? E se um dia ele perder o emprego dos sonhos? E se o status acabar? E se for necessário vender a “super casa” para pagar dívidas? Aí o amor acaba, o brilho nos olhos passa, a vontade de estar junto é aniquilada, e então, você não tem mais o amor da vida inteira, porque decidiu deixá-lo de lado em um momento delicado, que deveriam enfrentar juntos? A vida é mais do isso. E se não é, precisa ser. “Coisa” não define “pessoa”, e tão pouco possui a capacidade de definir as camadas da alma e do espírito, que juntas, formam o caráter de cada indivíduo. Se apaixone pela essência, pela alma nua, sincera e transparente.

Se apaixone pela capacidade que ela tem de te tirar o sono ou de te fazer dormir. Ame o dom que o qualifica como “o cara que sempre consegue receber de você, um sonoro sim como resposta”. Seja louco pelos olhos dela, mesmo que os seus amigos digam que você parece um idiota por isso (aliás, esse é o tipo de cara que “paga de durão” para os amigos, mas se transforma em “Maria-mole” na presença da namorada, à ponto de, inclusive, mudar o tom de voz ao atendê-la ao telefone). Repare na cara de bobo que ele faz, sem perceber, quando estão sozinhos. Valorize a preocupação dela quando você está doente. Seja perdidamente apaixonado pela forma com que ela faz você se sentir em casa até debaixo de uma ponte. Tenha uma baita queda por aqueles momentos em que, você sabe, ele poderia estar salvando o mundo, e ainda assim, não se importaria de responder uma mensagem sua – e, acredite, sem perceber, ele vai sorrir de orelha a orelha ao ver que o celular vibrou porque era você no WhatsApp, com uma frase que, por mais desconexa que fosse, fez o mundo dele ter sentido -. Seja embasbacado pela forma com que ela se lembra dos detalhes de vocês dois, e como ela realmente consegue te fazer esquecer os problemas com poucas frases, como se tivesse consigo um manual de instruções, contendo todas as informações necessárias sobre como lidar com você. Se apaixone gradativamente pela proatividade ininterrupta dele, porque, tenha certeza, por mais que ele faça as coisas por amor ao trabalho, também quer que você se orgulhe dele. Ame o jeitinho dela de te agradar, de como ela lembra do seu doce favorito. Seja louca pela forma com que ele te apoia a seguir em frente com o que você deseja para a sua vida. Ame os gestos, ame os abraços, ame os sorrisos e ame o olhar doce. Ame o coração puro, a doçura da alma, a delicadeza dos gestos e a integridade do caráter. Ame ver o pôr-do-Sol junto, e se tiver sorte, também amará ver o nascer-do-sol. Ame a simplicidade, ame de dentro para fora, até que transborde, e quando vier a transbordar, ame mais ainda, e então o amor será rios e mares de sentimento, e não mais um mero lago de paixão finita.

Ame também a capacidade incrível de esperar. Porque o amor é feito das urgências, mas também é feito de longas esperas. Ame a capacidade de guardar, por tempo o suficiente, um sentimento que aos seus olhos é inconsistente. E tenha a certeza de algo: ele só inconsistente na sua cabeça, porque se o seu subconsciente insiste em guardá-lo, se você está no trabalho e subitamente se lembra dela, se cenas cotidianas te lembram dele, se o silêncio te incomoda, se a distância te irrita, se a conversa à noite tem a capacidade de salvar um dia inteiro de desastres, ou, quem sabe, uma semana toda de catástrofes, se essa pessoa te transmite uma coragem além dos limites, se há em você uma agitação totalmente pacífica quando determinado nome soa na sua cabeça, se há uma ansiedade incansável para encontrar essa pessoa, se você constantemente sente vontade de subir no primeiro ônibus, avião, ou jato supersônico para ir até ele, ou simplesmente sente vontade de roubá-la para dentro do seu mundo, se a vontade de ter olhos nos olhos já te consumiu até o último pedacinho do seu ser, então, meu caro leitor, a sua alma já está toda imersa nesse sentimento maravilhosamente intimidador.

O amor é complicadamente simples. Admite gritos de súplica e condena silêncios medrosos e vacilantes. Hora precisa da urgência, hora precisa da coragem, hora precisa de ambos, e hora manda a urgência ir ver se ele está na esquina. O amor nasce do acaso, e, na maioria das vezes, nasce dos acasos mais ridículos da vida. E às vezes ainda, ele nasce de um caso pensado.

O amor nasce como bem entende, se você quer saber.

E o amor anseia a essência, e não o bol$o do outro. Seja feliz com quem o teu coração escolher. E não os teus olhos, a tua soberba ou o teu interesse mesquinho.

O amor é humilde e nobre demais para aceitar comportamentos e escolhas tão baixos.

Amor é borboletas no estômago.

Amor é morar no olhar e no ser do outro.

Mas morar no “bol$o” do outro é falta de competência, amor próprio e vergonha na cara.

debora

4 comentários em “Do amor e da essência

  1. Seus texto e de uma sensibilidade… Lindo!! O amor te torna mais belo é lindo quando ele nasce do acaso. Onde não se projeta nada.. Onde se flui de forma única e. Bela!!! Ah eu amo o amor! Obrigada por essa linda reflexão..😉

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