Madrugada, rua vazia e morta; o silêncio impera triste, implacável. Os prédios, as árvores da Avenida, os carros, todos, de repente, ficaram mudos – como se na terra não existisse mais gente. Longe do palco, ela sabe que não é ninguém; por isso as coisas perdem a forma depois do espetáculo. Naquela sexta-feira de outono – de clima morno e seco – a jovem bailarina quis voltar para casa sozinha, para pensar na vida e na morte.

Não soube explicar, mas foi invadida pela saudade; saudade de alguma coisa sem nome, sem forma, sem cheiro… O vazio inexplicável da vida ganhara mais intensidade e sua alma (que só pensava em rodopiar, rodopiar…) foi torturada pela dúvida. Havia beleza nisso tudo. A saudade desperta em nós uma áurea bonita e esperançosa, mas ter esperança custa caro, às vezes o pagamento é a frustração.

Convém lembrar que o mal pode assumir forma radiosa, e bastava um descuido para cair deste despenhadeiro que é indagar as coisas. Ela daria tudo para passar a noite no palco, dançando, dançando, dançando… Sentindo suas forças sendo tragadas pelos passos que repetira a exaustão há meses, mas não importava: dançar é sua forma de se encontrar com o mundo.

Um grito lancinante saído de suas entranhas rompe o silêncio mórbido da madrugada. A bailarina roga aos deuses por piedade, e chora, chora sem saber por quê. Pobre moça: as árvores não ligam e continuam imóveis e mudas; os deuses fazem ouvido de mercador. Uma triste lembrança invade seu rosto: a imagem de sua mãe, lhe dando um abraço demorado, na porta do colégio, faz seus olhos marejarem. Enxugou as lágrimas, respirou fundo e continuou andando pela grossa Avenida muda, contemplando o movimento silencioso das folhas que eram balançadas pelo vento. Por Deus, ela não ouvia mais nada longe do palco, nem o simples! Sentiu que sua vida foi sugada pela arte e a mulher que morava dentro dela foi assassinada. Quanto mais andava, mais perdida se sentia, a dor de sua existência mais pesada.

No céu, a lua parecia desafiar a moça com sua beleza, como quem esfrega a vitória na cara do derrotado. Ela não entendeu e quis saber por que o mundo naquele dia havia lhe afrontado, dado na cara dela com força. Naquele instante percebeu o quanto Deus é desgraçado e pode reduzir a pó a raça humana, só de exibir o brilho constante da lua. Aquela mulher foi possuída pelo ódio, pela dor de tentar ser e não conseguir.

Deixou a Avenida rumou para a Praça da Catedral – a arquitetura da igreja sempre fazia seu astral melhorar. Era fascinada pela beleza triste dos vitrais góticos, muitas das vezes se viu representada lá. Na escadaria, se sentou, com firmeza de postura que só uma bailarina tem, e sentiu medo de ser aquela a última vez que veria a catedral de perto. Olhou para o relógio, lá no alto, e imaginou a queda de seu corpo… Não pensou na morte, mas na sensação de dançar no ar, cair lentamente e sentir o vento bagunçar seu cabelo. Nesse instante sentiu que o som das coisas começava a voltar. Eram 3 da manhã.

Já estava farta de mendigar atenção, afinal era pra isso que dançava? E pra isso que tortura seu corpo, seus pés e sua concentração? Para mendigar? Sim, descobriu que era, pois não dançava por amor dançava para ter um amor e, até ontem, não tinha conseguido e foi rejeitada pela sua paixonite. Era por isso que a bailarina tinha perdido a capacidade de ouvir a vida, pois sem amor, não se vê, não se fala, não se ouve, não se sente. Lavou as escadarias da igreja com suas lágrimas que escorriam de seu rosto como dois rios violentos. Queria dar um basta na dor que sentia e dançar, mesmo sem amor.

Uma chuva fina, mas constante, começou a lavar a cidade – que há muito estava suja e empoeirada de desejos fúteis. Com a água batendo no rosto, e escorrendo pelo corpo, começou a dançar, em ritmo só seu, único, saído de dentro. Só ela era capaz de ouvir a melodia que lhe tocava a alma. O vazio que ocupava seus sentimentos era preenchido pela dança, com sempre foi, mas agora era diferente: dançava como sua verve pedia, livre, sem medo de cair ou errar – olhado de longe, ela parecia embriagada, mas embriagada de amor.

Ah, o amor… que amor era aquele lhe fizer rodopiar sem motivo? Ela não sabia, mas sentia que estava amando e que tinha reencontrado sua própria paz naquilo que mais amava fazer: dançar… Estava completa, sem medo, sem dor, estava pronta para encarar a vida. No entanto, existir é tão simples e nós não damos as cartas nesse jogo. Enquanto se rodopiava, viu luzes, mas estava feliz demais parar e perceber que estava bem no meio da rua. A madrugada já dava adeus e o dia começava a se impor. Ela gira, gira e dá grossas gargalhadas que ecoam e quebram o silêncio que antes zumbia em seus ouvidos. As luzes estão cada vez mais perto, mas ela não percebe. Sentiu um impacto duro e seu corpo subiu, ela continuou sorrindo, o vento desarranjou todo o seu cabelo, sentiu o vento no rosto, mas logo foi tragada de volta ao solo pela gravidade.  A vida é mesmo assim: quando você pensa estar voando, na verdade está sendo arremessado. A bailarina foi atropelada… encerrava-se ali, uma vida dedicada a arte e a dúvida. Afinal, morrer era só aquilo? Acabar e ponto? Talvez fosse por isso que ela tinha tanto medo de viver; viver e ter a certeza que o vazio da morte lhe esperava, mas não pareceu se abater com isso. Quem viu seu corpo, molhado de sangue e chuva, afirma que o sorriso dela era a coisa mais encantadora, apesar da morbidez. Outros disseram que ouvir uma música, ao longe, enquanto o corpo era periciado. Eu sou um desses, pois foi pelo para-brisa do meu carro que seu sangue escorreu. Ainda me lembro do sorriso… é disso que me lembro. Talvez, todo o resto que me contaram sobre ela, seja só lenda.

flavio

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Participe da conversa! 1 comentário

  1. Conto fabuloso! Parabéns pelo talento. No mundo de hoje essa bailarina sozinha poderia ser estuprada. Os medos femininos perpassam por isso. Nao se pode mais bailar por aí em paz!

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Sobre Jornalismo de Boteco

Paulinho Rahs Escritor, compositor, poeta solitário, vocalista da Arcadia e criador do Jornalismo de Boteco. Entusiasta, subversivo e magnânimo, contém na lista de vícios café, cerveja, o Foo Fighters e o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. https://www.facebook.com/PaulinhoRahsOficial/

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Flávio Sousa