Em tempos de pressa exacerbada, sábio é quem ama pacientemente. Sabe, amor apressado deixa a desejar, não se revela por completo, não envolve como deveria, e talvez machuque o suficiente para fazer alguém fechar o seu coração para nunca mais, ou por tempo o bastante para que se crie poeira até onde não deveria haver. Aliás, onde há pressa demais, duvido que haja amor de verdade, apesar de o amor se travestir de urgências de vez em sempre… Urgência dos olhos do outro, da mão do outro segurando a nossa, do abraço, do cheiro, do tom de voz. Mas quem ama mesmo, aprende a lidar com a urgência e transcende em um aprendizado novo: o de esperar pelo outro.

Quem realmente ama, espera pelo outro. Respeita o tempo. Entende que nem tudo é “pra ontem”, que nem tudo na vida vem via delivery, na hora que a gente quer, que ao retirar o fruto do pé antes da hora, corre-se o risco de comer algo azedo ou amargo demais, ao invés de provar um fruto doce feito o mel ou suave como o perfume das roseiras. Porque a vida é feita disso: desencontros, distâncias impostas por circunstâncias, tempo escasso, correria em excesso… Nestes tempos, o amor é para os corajosos que decidem passar por cima disso tudo. E esperam. Ocorre que não há prova de amor maior do que esta: esperar pelo retorno do outro, em tempos incertos, em que um segundo é o suficiente para mudar o curso do mundo inteiro. Esperar fielmente pelo retorno do outro, numa época em que se encontra facilmente alguém pra beijar na boca ou ir correndo para o motel. Esperar pelo retorno do outro com a casa arrumada, sem usar uma desculpa esfarrapada de que um tornado passou apenas ali. Esperar o outro, confiando piamente no amor. Esperar pelo outro, fingindo que a saudade – de um dia ou de um ano – não é um flagelo. E além de todas as coisas e todos os extremos, quem ama mesmo, ama um dia de cada vez, conquista um pouco por dia, aprende que é necessário ser compreensivo com o outro, tem a fria de sabedoria de conhecer um pouco por vez, de ir camada por camada, até que não se tem apenas um amante, mas um fiel amigo no outro… E esta é a melhor forma de sustentar um relacionamento: sendo melhores amigos, companheiros de caminhada, parceiros nas poucas e boas da vida, e parceiros nas profundas alegrias também. E por falar em amor e melhores amigos, quem ama é paciente com as imperfeições do outro.

 

O amor é construído, por isso a necessidade da paciência. Não vou dizer que não exista o amor à primeira vista – em que, com apenas um olhar, adquire-se a profunda e intensa certeza de que aquela, é a pessoa da sua vida -, mas posso afirmar que ele é para poucos. O que existe mesmo, é interesse à primeira vista: interessa-se pelos olhos, surge a curiosidade pelas curvas do sorriso, cor do cabelo, ou qualquer outra coisa que se possa reparar no outro. Algo lhe chama a atenção à primeira vista, e te puxa para um mundo novo e completamente apaixonante. O amor nasce aí: entre o processo de conhecer este mundo novo e juntá-lo com o seu. O sustento do amor, está na paciência de cuidar diariamente. De regar constantemente, adubar corretamente e esperar que as flores cresçam. De aguardar as flores desabrocharem. O amor desconhece o relógio e o calendário, e faz pouco caso da ampulheta. Burro é quem teima em dizer o contrário.

 

Que todas as nossas ampulhetas sejam lançadas ao raio que o parta! O amor clama por paciência despreocupada com milésimos de segundo e um terço de minuto. Desespero ansioso é para os fracos, amor apressado é, na verdade, fogo de palha que quer ser amor e não consegue. A vida é de urgências. O amor, de paciências.

debora

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Sobre Jornalismo de Boteco

Paulinho Rahs Escritor, compositor, poeta solitário, vocalista da Arcadia e criador do Jornalismo de Boteco. Entusiasta, subversivo e magnânimo, contém na lista de vícios café, cerveja, o Foo Fighters e o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. https://www.facebook.com/PaulinhoRahsOficial/

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Débora Cervelatti

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