É triste, porém comum, encontrar as mesmas pessoas no mesmo estado alcoólico pelos bares. Aqui não é uma exceção. Todas as sextas-feiras ele chega, já com cheiro de cachaça, se senta e pede “A mais forte que tiver”.

“O senhor não aceitaria uma água, ao invés disso?”, pergunto na esperança de que algum dia ele vá entender o mal, consciente ou não, que faz a si mesmo. “Água eu tenho em casa. Aqui eu quero cerveja. Traz uma Cauim que eu vou com calma. ”, ele respondeu dessa vez.

A gente nunca entende o que se passa na cabeça dos clientes, é claro. Eu mesmo já passei por uma fase em que beber era um refúgio, um abrigo que se fazia necessário para esquecer a vida real, mas aquela foi uma fase muito difícil e isso pode ficar para outra hora. O que importa é que ainda assim, é triste ver alguém nessa situação e não poder ajudar.

É engraçado como nós acabamos nos julgando. Eu já estive dos dois lados, então sei que é verdade. A grande maioria dos outros clientes acha que ele é um pobre coitado ou um vagabundo e não iriam acreditar na verdade.

Todas as tardes, enquanto arrumo o bar para o próximo expediente, ele passa com seus dois filhos, voltando da creche.  Carrega consigo uma bolsa de couro, indicando que tem um trabalho e, a julgar pelas roupas, parece ter um cargo elevado. Já o vi passar algumas vezes com sua esposa, indo para um jantar ou um happy hour no restaurante do final da rua.

Resumindo, nada de pobre coitado. Ele tem uma vida normal como qualquer um. Exceto pelas sextas feiras quando sua vida parece não fazer sentido algum.

Ele nunca fala nada, pede uma única cerveja e fica horas olhando para o copo como se pensasse na vida. Normalmente é um dos últimos a ir embora, totalmente embriagado pelo que bebeu antes daqui.

“O que aquele senhor tem?”, me perguntou um cliente de uma mesa ao lado. Sinceramente não soube o que dizer, apenas dei de ombros. “O senhor precisa de mais alguma coisa?”, continuei com meu serviço.

A verdade é que, de certa forma, eu o entendo.  E quando entendo um cliente tão fechado, prefiro deixa-lo em paz e incentivá-lo a beber o mínimo possível, ou o máximo possível de refrigerantes; açúcar, sabe como é. O álcool potencializa os nossos sentimentos. E isso pode ser uma dádiva quando se está feliz, mas quando sua vida parece não fazer sentido, pode ser um poço sem fundo.

É triste ver os clientes assim. É triste ver pessoas assim.

hugo

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

CATEGORIA

Hugo Ledertheil