O que é o homem diante da beleza de uma mulher que ele não pode ter? Diante do amor recíproco e infeliz? Uma alma torturada pelo espectro fantasmagórico dos sorrisos que ela lhe ofereceu gratuitamente e de bom grado? Esperanças há, para todos, mas não para nós. Ontem, por acidente, encontrei uma fotografia sua, muito antiga, – do tempo em que o amor fazia morada em mim – e fui surpreendido: por quase um quarto de segundo eu não te reconheci. Mas depois: depois foi como acordar no meio de um sonho ruim. Senti desespero, medo, vontade de chorar, uma mistura de saudade e raiva, sim, muita raiva de você! Raiva do que não vivemos; raiva de ter que cuidar, sozinho, do jardim que plantamos juntos; raiva de olhar pela janela, para ver a rua e os carros, e não ter seu queixo apoiado no meu ombro; raiva do que tínhamos (e ainda acho que temos) em comum, mas passou – a raiva passou. Lembrei-me então da coincidência que nos uniu, o clichê dos clichês: amigos em comum. Nem deles lembro mais, foram sugados para o limbo com você. 

Sempre estou onde você não está; procurando alguma coisa sua em tudo. Por exemplo: ontem fui num restaurante novo, pedi bifes e batata-frita, aí me lembrei do seu exótico gosto pra comida, que fazia rir, mas eu escondia isso de você. Eu não consigo mais não pensar em você. É um inferno! Seus olhos, seu cheiro, seus trejeitos parecem estar em tudo. Até nos meus livros: “Como acontece a alguém que fita o sol dourado, e vê depois em tudo um círculo encarnado, tal eu, quando não estás e o meu sol é posto, vejo, em tudo que vejo, o brilho do teu rosto”, lembra-se? Eu sei que se lembra, mas não por minha causa. Na verdade, já admito a hipótese de que você me matou, dentro de você, para não deixar o amor florescer. 

Logo agora que eu iria te mostrar o negro de minha alma, te dar meu sangue pra beber, você se foi. Perdi as contas de quantas vezes olhei para aquela fotografia sua. Por que você se fez tão linda? Provavelmente, Deus, em algum lugar, zomba de mim. De que me serve o livre arbítrio? De que me serve ser livre e não estar com você. Eu me encantei pela sua alma, apenas ouvindo sua risada. Eu amava te pedir pra sorrir…

Afinal, amor é isso? Amor é estar perdido, estar cheio de nada e vazio do todo? Até minha arte hoje zomba de mim! Essas linhas porcas já foram gloriosas, belas tocantes, hoje são um amontoado de palavras sem nexo, saídas da cabeça de esquizofrênico apaixonado. É isso que sou: um doente de amor; encosta-se a mim que viro água. Meus olhos protestam contra a falta que sua imagem faz pare eles e, pouco a pouco, encharco a folha com lágrimas de puro sal. Voltando para a questão inicial: o que faz o homem diante de uma beleza que não pode ter? 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Flávio Sousa