Estive pensando em borboletas; o motivo eu não sei. O voo desordenado das pequeninas, suas múltiplas cores, a forma como se reproduzem, tudo isso, de uma hora para outra, se tornou objeto de meu interesse. Li na internet que as borboletas vivem apenas algumas semanas, como a gente. Sim, como a gente. Pessoas, como eu e você! Gente que vive por um final de semana, por quinze dias de férias, por dias de um amor intenso e cru – talvez verdadeiro. Há muita semelhança entre nós e as borboletas. O engraçado é imaginar como nós seríamos se borboletas fôssemos. Seria fácil imaginar uma borboleta em forma humana, mas um humano em forma de borboleta é complicado. Que besteira a minha. Estou confuso, quero dormir, mas não consigo parar de pensar nas borboletas. 

Semana passada estive no parque – haviam borboletas por lá. Um monte, um panapanã. Confusas, como se bêbadas estivessem, elas disputavam espaço com homens, cachorros e crianças; ninguém parecia respeitá-las. Mas elas não sabem o que é respeito, não é preciso que sejam respeitadas. Um moleque rechonchudo, com um nariz enorme e adunco, capturou algumas e deu de presente para uma garotinha feia. Matou todas por entre seus dedinhos gordos e sujos. Não foi por maldade, não havia perversão nos atos do gordinho; estava bem intencionado. “De boas intenções o inferno está cheio”, dizia vovó. Só que me senti extremamente ofendido com a cena que acabara de ver. Quis dar uns tabefes naquelas bochechas fartas rosadas! Acho que o guri percebeu: eu olhava pra ele com ódio brutal. Correu para os braços da mãe, mas não pareceu me dedurar. A mãe era bela, alta, cintura fina, cabelos loiros e nariz até delicado, mas havia algo dela no garoto, não sei o que era, mas até que eram parecidos. Creio que a nareba horrorosa era um fruto podre que o menino herdara do pai! Que herança maldita, pensei comigo. 

Bem no centro do parque um turbilhão de borboletas, de variadas cores, infernizava um cachorro vira-latas. Esse nem ligava pra elas: parecia admirá-las, com olhos cálidos e tristes, como se a beleza do mundo, para ele, simples cão de rua, fossem as borboletas. Cheguei mais perto delas, implorando para que pousassem em mim. Achei estranho: elas apenas me rodeavam, mas não se sentiam seguras para repousarem em meus braços. Senti inveja de uma moça que, quase do meu lado, bem no meio do parque, era pousada por inúmeras borboletas que pareciam felizes com ela. A menina sorria e dava grossas gargalhadas sempre que alguma lhe encostava o nariz. Voltei pra casa. 

No caminho fiquei chateado com a desgraça que é existir! Por que não ser simples como uma borboleta? Por que Deus nos ofendia com a dádiva do livre arbítrio e a maldita consciência? Que mal teria feito eu a Ele? Não tenho ido à missa há alguns anos, talvez seja por isso. Há duas esquinas de casa, quase anoitecendo, era outono, notei que uma desgarrada borboleta me seguia. Só notei sua silenciosa presença quando olhei distraído para uma vitrine de cachecóis. Virei-me, subitamente (acho que a assustei) e a pequenina subiu e se perdeu de minha vista. Continuei firme minha caminhada rumo ao meu apartamento – que por vezes se parecia com uma lata de sardinha – de cabeça vazia. A coluna doía, efeito das incontáveis horas em frente ao computador. Não demorei pra entrar. Meu prédio fedia mofo, tinha infiltrações nas paredes e o elevador rangia… Qualquer dia isso despenca. 

Ainda insultado com minha pequenez, diante da simplicidade das borboletas, entrei em casa e aqui estou: pensando em borboletas. Não sei por que, mas tenho pensando muito nelas. Queria mesmo era ser borboleta: nascer, comer, reproduzir e morrer – assim, sem compromissos, sem hora marcada, sem clientes chatos, sem amigos para compartilhar tristezas e alegrias (como é irritante compartilhar alegrias), pagar impostos, transar com (e sem) compromisso. O exercício medíocre de viver estava me enfadando. Meu analista disse que estou curado, mas de quê? Esforcei-me para seguir a risca os aprendizados da terapia e ganhei alta… agora não sei o que fazer nas noites de terça-feira. Pensar em borboletas, talvez?

Vou abrir as cortinas, quem sabe abro também a janela, para ver as estrelas. Gosto das estrelas: quando não penso em borboletas, penso em estrelas, mas elas também me ofendem. Quando não tenho nada para fazer – Deus, como sobra tempo livre na minha vida – gosto de assistir aquelas series famosas. Não entendo de nenhuma, não guardo nome de personagens, mas acompanho. Não há muita diferença delas para as novelas; gostava mais de novelas, mas todos os solitários do mundo assistem séries, por que eu faria diferente? 

Olha, uma borboleta na vidraça. Seria a mesma que vi na rua? Sim, é ela! Como me achou? O que te fez subir até aqui? Que besta, falar com borboletas! Abri a janela, mas ela não foi embora, parece me convidar para voar com ela. Não posso! Vou cair! Mas é um convite tão legítimo, tão simplório… Lembro-me que mamãe dizia que não se pode recusar um convite dos simples. Que saudade da minha mãe. Vou… fui… Sim, dá pra ver o rosto da mamãe daqui. A sensação de cair é tão maravilhosa, não é ruim: o vento no rosto, uma leveza libertadora… Ah não, o chão… Que maçada, quisera eu ser borboleta para pular da janela do prédio e não morrer, como homem, que sou agora. Sabe, estive pensando em borboletas… 

 

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Flávio Sousa