Há dias Vitória estava atraída pelo rapaz que viajava nas cadeiras ao fundo, à direita. Por algum motivo que não era capaz de explicar, aquela figura misteriosa e calada, que em hipótese alguma falava com alguém, chamava-lhe a atenção. O poder que os homens têm de prender as mulheres pelo mistério tornava ainda mais confuso o pensamento da virgem. E aquele era um misterioso. Parecia metódico, esquisito e tacanho, mas tinha lindos olhos verdes – neles ela via a própria miséria de existir diante de tanta beleza. O resto também não era ruim: fartos pelos saltavam pela gola da camisa e tinha corpo de boxeador; a barba suja e por fazer, aumentava ainda mais o charme daquele bruto (pensava que ele fosse assim, um bruto nos modos). Toda vez que entrava no ônibus, era por ele que Vitória procurava. Os olhos dela eram atraídos pelos olhos dele. Em dias onde a luxuria lhe possuía o corpo, mesmo sem ter sido tocada por uma figura masculina, ela imaginava como aquele rapaz olharia para ela se estivesse nua, diante dele, escorrendo de desejo. Imaginou que aquele par de pérolas lhe percorrendo cada curva, cada imperfeição e se maravilhando com o que via. Nesses dias, corava as bochechas de vergonha e cruzava as pernas com força, num átimo de tentar conter o tesão que lhe roía os ossos e as entranhas. Dele não sabia nada; sabia que o encontraria no ônibus todos os dias, no mesmo horário. O rapaz sempre descia muito depois dela, por isso nunca descobriu onde ele morava.

Em desses dias terríveis, quando a gente acorda determinado, Vitória decidiu que iria mudar a história dela e do misterioso do ônibus. Não tinha um plano; o plano era… entrar no ônibus. Passou o dia pensando em como seria ver o homem fora daquele banco, sem o ronco ensurdecedor do motor e os olhares moribundos dos passageiros, mas parecia que fora da condução, o rapaz não existia, era como uma faísca: começava a imaginar e logo o raciocínio se perdia. Cinco da tarde, hora de ir embora. Caminhou até o ponto apressada; soltou os cabelos ruivos no caminho e ajustou o decote. Normalmente o ônibus não atrasava, na verdade nem se lembrava da última vez que isso aconteceu. Para o desespero de Vitória, a condução, neste dia, justamente no dia em que iria dominar a si mesma e ao moço do fundo, a condução se atrasou, mais ou menos uns vinte minutos. Pensou no pior: um capotamento, um atropelamento de inocente, um pneu furado, um engarrafamento medonho, em tudo, até que o ônibus apontou no fim da ladeira. O coração dela bateu, enfim, aliviado.

Quando entrou deu uma topada na catraca que quase quebrou o equipamento. Havia se esquecido do pagamento, do cobrador, do motorista, de tudo; só queria os olhos verdes. Pagou, entrou devagar, se desviando de um de outro, até chegar ao fundo à direita. Naquele momento pareceu não acreditar no que via: a cadeira do moço estava vazia – na verdade era ocupada por uma senhora gorda, com cara de mal-amada. O peso da derrota se apoiava nos ombros dela. Sentiu sua visão se escurecendo, devagar… Devagar, mas recobrou a consciência em uma fração de segundos. Só que aquele minuto interminável de ver o que não queria ver naquele lugar lhe destroçou a alma. O sorriso que trazia no rosto foi apagado, da ao seu rosto um aspecto introspectivo e irritado. E era assim que iria agir, com raiva, com força, seja com quem fosse. De certo modo, se sentiu traída. Sim, traída. Como poderia ele, no auge de sua repetição e monotonia, abrir mão da própria rotina e assim estragar os planos dela? Percebeu logo a atitude egoísta e começou a olhar pela janela. O por do sol estava bonito naquele dia: havia chovido, mas o sol réstia impávido.

Olhava para tudo e, incontrolavelmente, imaginava como os olhos verdejantes do estranho traidor viriam aquelas paisagens, aquelas ruas, aquelas luzes, aquelas pessoas. Era estranho, mas fica a imaginar como os olhos dele viam o mundo. Neste instante sentiu o peito ser esmagado por um sentimento bruto e insólito: era o sentimento de rejeição, embora não tivesse sido rejeitada tecnicamente. O fato é que pensar nas coisas como ele via ou sentia, doía e doía muito. O pobre espirito da virgem se derretia, e escorria em lágrimas. Foi quando percebeu então que tinha amado; e amado verdadeiramente. Sim, era amor. Notem: o encantamento, a expectativa, o desejo e o fracasso, Vitória passou por todas essas etapas, por tanto, tinha amado. Ficou mais calma, pois era a primeira vez que sentira isso, era seu primeiro amor. Agora, já podia pensar na morte tranquila, pois já tinha amado. Morrer era agora seu próximo objetivo. Desceu do ônibus, ainda com o coração dolorido, mas esperançosa com a hora de sua morte. O amanhã estava por vir; Vitória, mais tarde, foi para cama sonhando com o momento em que deixaria o mundo dos vivos. Já havia amado, estava pronta para partir.

flavio

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Sobre Jornalismo de Boteco

Paulinho Rahs Escritor, compositor, poeta solitário, vocalista da Arcadia e criador do Jornalismo de Boteco. Entusiasta, subversivo e magnânimo, contém na lista de vícios café, cerveja, o Foo Fighters e o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. https://www.facebook.com/PaulinhoRahsOficial/

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Flávio Sousa

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