Estou sentada no ônibus lendo um livro no qual não consigo me concentrar, pois ao meu lado está uma louca gritando ao celular.
Será que é louca mesmo ou está apenas num dia difícil, numa situação ruim e dentro de um ônibus abafado, dividindo suas tristezas com outras pessoas que nem queriam ouvir?
Alguém mentiu pra ela. Não! Bem pior! Alguém mentiu o próprio nome pra ela.
Ele mentiu.
E mentiu também sobre a mulher que o espera sabe-se lá onde…
A louca o crítica, o chama de nomes ruins, palavrões desenfreados e gritos histéricos. Mas, num segundo depois ao perceber que o celular vai descarregar, o avisa disso de maneira doce, esperando um contato posterior.
Será mesmo louca?
Desliga a ligação e depois atende algumas chamadas. Está estressada. Age de maneira a descontar nas outras pessoas, todo o peso que sente do mundo e do amor que foi desmoronado igual a um prédio implodido.
Não vi sequer um ato de humanidade no semblante da mulher, exceto com a eminência do celular descarregar e junto da bateria, perder o amor de sua vida.
Que lhe traiu.
Enganou.
Que usou até um nome falso.
Aquela louca me despertou pensamentos. Como será a vida dos que amam apenas a si? Dos que esperam que o amor seja um sentimento de benefício próprio. Dos que acreditam que dá pra viver bem se está tudo errado com o outro, mas tudo bem com o que sentem… Mesmo que amar seja uma mentira.
Será que milhões de pessoas sabem ser humanas? Será que milhões de pessoas amam de mentira? Será que milhões de pessoas são doces e gentis na eminência da perda e nos outros momentos, nem carinho, nem sorriso, nem “bom dia!”?
Será que milhões de pessoas se sensibilizam com tragédias, erros e preconceitos? Ou são apenas aqueles comentaristas da Folha, que confundem aquecimento global e a guerra do Iraque, com “é tudo culpa do PT!”.
??
Será que o instinto de caridade é comum e foi tudo uma imagem primeira que fiz da louca, no seu dia ruim, naquela situação difícil, dentro de um ônibus abafado? Existem mesmo pessoas sãs completamente loucas? As pessoas ruins se escondem por entre os outros dentro de um ônibus lotado?
Há mesmo, quem se preocupe apenas com o próprio sentir? Ou posso encontrar aquele que acredita que o outro precisa de um cuidado mínimo, que se resuma em dar bom dia, mesmo num dia difícil, numa situação ruim, dentro de um ônibus abafado?
Hoje não. Hoje a louca passou por mim gritando ao telefone, desceu na parada seguinte e foi viver sua vida e seus conflitos perto de outra pessoa, que talvez também vá perceber que o mundo precisa de mais sorrisos e menos gritos histéricos dentro de um ônibus qualquer.
Será mesmo louca?

Camila

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Participe da conversa! 1 comentário

  1. começando a ler os textos……muito bom….!!!!

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Camila Oliveira