Três semáforos em sequência, antes de uma rotatória? É claro que iria empacar! Que o energúmeno que projetou essa merda frite os ovos do saco no quinto dos infernos. Todo dia é assim: despertador; bebê chorando; mulher roncando; café frio; raiva por ter brochado; rádio chiando; carro velho; cheiro de mofo da garagem com infiltração e, por fim, a desgraça do engarrafamento. Assim não dá! Vou pedir divórcio. Pra quê? Gertrudes não tem nada a ver com isso. Descontar a brochura em cima dela não me torna mais macho. Que se dane, vou meter a cara naquele projeto que prometi ao chefe no mês passado, conseguir uma promoção, ganhar mais dinheiro, viajar com a família; vai ser dez! Afinal, que homem brocha numa viagem? Isso já aconteceu comigo, mas naquela vez eu bebi demais e, tecnicamente, eu cochilei no meio do negócio. Gertrudes também não estava afim. Pô, até que enfim essa fila andou, hein? Tá de sacanagem! Tá de sacanagem! Parou de novo? Morreu alguém lá na frente, só pode! E o infeliz nem pra escolher outro dia pra morrer. Mão na buzina, mão na buzina! Já morreu mesmo, pra ele agora é só silêncio… hehe.

A parte ruim do engarrafamento nem é ficar parado, mas sim ser obrigado pensar na vida. Toda vez que eu empaco, sou obrigado a pensar na vida. Isso é coisa de gente depressiva, que passa o dia pensando em por quê? Pra quê? E pra onde? Esse povo não vive, não curte a vida. Eu não, sou de boa: curto o melhor da vida! Até transo, quando dá, é claro.

Já sei: vou fazer selfie no engarrafamento, postar no face e mostrar pro mundo o que a gente é obrigado a passar todo dia nesse fim de mundo. Vão lá; qual o melhor ângulo, hein? Vou descer, assim dá pra ver, os carros e o sol quente (cacete, está quente pra caramba!). Só mais um pouquinho… Pronto! Feita a selfie. Deixa-me ver… Saco! Careca? Não, careca não, por favor. Mais essa agora: careca. Careca e brocha. Posso morrer. Por que não era eu o morto lá da rotatória, meu Deus?… Careca e brocha não, é muita sacanagem. Tudo bem; passou. Vou postar assim mesmo: “#engarrafamentologocedoassimnãodá!”. Geral curtindo – e mal acabei postar. É assim que se muda um país. As redes sociais são a nova revolução cubana, o recomeço, a revolta popular acontece aqui. Maravilha, a fila até andou um pouquinho. Já estou atrasado, quase nove e meia. A chata da minha chefe vai me arrancar o fígado. Dane-se! Hoje é meu dia de mudar o mundo. Aliás, tenho até provas de que estou preso no trânsito. Mais uma vez, obrigado Facebook! Até que enfim, vamos todos embora! Lá vou eu pro trabalho. Merda! Era melhor te ficado por aqui mesmo… Agora vai começar tudo de novo: xerox; reunião; pilha de papel; café velho; gente chata; o porteiro sem noção, Deus!!! Me mata, gente, me mata! Quero voltar por engarrafamento. Cadê, nenhum infeliz quer morrer no próximo semáforo não? Um suicida? Mais alguém? Ninguém? Lá vamos nós, nesse país ninguém tem escolha mesmo. Que flagelo!

Já sei! Vou matar o dia trabalho, voltar pra casa, catar a Gertrudes de jeito e dar um chega pra lá na brochura. Mulher gosta dessas coisas, sexo inesperado e tal. Sai da frente, bando de morto. Acelera, porra! Agora sim, a rua de casa. Se prepara, Gertrudes, hoje eu vou lhe usar. Já tô sentindo o volume se armar… Chegando… chegando… quase lá… cheguei! Nossa, estacionei mal, não vão me multar mesmo, deixa pra lá. Cadê a chave? Ah, no carro. Burro, volta e pega.  Vou abrir devagar, assim eu pego ela no meio da sala, de surpresa. É hoje! 

Cadê minha mulher? O neném está no berço, dormindo feito uma pedra. A casa parece vazia. Que barulho é esse? Vem do meu quarto. Que isso, mano, um gemido? Não, isso não, é o cumulo! Não acredito. Cacete! Minha mulher me chifrando, e na minha cama? Poxa, Gertrudes, e com o Zé da padaria? Era só o que me faltava: brocha, careca e corno! Vê se pode? Careca, brocha e corno! Vou voltar pro trabalho. Ela merece; já não dou conta do recado faz tempo. Toma conta aí Zézão. A gente jogava bola junto, lembro dele no vestiário. É… Dá pra entender a escolha de Gertrudes agora. Vamos trabalhar; dar sustento pra esse lar. Ah não, o engarrafamento de novo não… Vai começar tudo de novo… 

FIM…

flavio

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Sobre Jornalismo de Boteco

Paulinho Rahs Escritor, compositor, poeta solitário, vocalista da Arcadia e criador do Jornalismo de Boteco. Entusiasta, subversivo e magnânimo, contém na lista de vícios café, cerveja, o Foo Fighters e o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. https://www.facebook.com/PaulinhoRahsOficial/

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